Questão 6c87d397-eb
Prova:CÁSPER LÍBERO 2009
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Assinale a alternativa correta sobre a fala de Abelardo II, em O rei da vela, de Oswald de Andrade, apresentada a seguir.

Abelardo II – A burguesia só produziu um teatro de classe. A apresentação de classe. Hoje evoluímos. Chegamos à espinafração.

A
Trata-se de um recurso metalinguístico que define o programa desenvolvido pela peça: a visão desmistificadora do país; o gosto demolidor de todos os valores e a importância da estética da descompostura.
B
Trata-se do uso de expressões curiosas da comédia brasileira, que prefere sempre escapar para a fantasia, guardando uma referência tácita à realidade, vista através da sátira ou da farsa.
C
A fala reflete a observação viva e inteligente da realidade, por meio de uma linguagem autêntica, vibrante e indignada ante os erros sociais.
D
Por meio dessa fala, o personagem propõe um grande painel histórico, político e filosófico, condenando o mundo antigo em função do homem surgido do proletariado triunfante.
E
A fala reflete a consciência da perda do mundo aristocrático, levando o personagem a descrever outro instante de crise – o acelerado processo de industrialização vivida pela metrópole paulistana a partir da Semana de 22.

Gabarito comentado

T
Tulio Pires Monitor com apoio de IA

Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o caráter metateatral/metalinguístico da fala, pois “A burguesia só produziu um teatro de classe. A apresentação de classe. Hoje evoluímos. Chegamos à espinafração.” faz o personagem comentar o próprio teatro e marcar sua passagem para a sátira corrosiva; por isso, a alternativa correta é a que reconhece esse programa desmistificador e demolidor.

Tema central: metateatro e sátira
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque identifica o ponto específico do trecho: não se trata apenas de crítica social, mas de comentário sobre o próprio fazer teatral. Quando a fala menciona “um teatro de classe” e depois afirma “Chegamos à espinafração”, ela sintetiza um programa de teatro crítico, corrosivo e desmistificador. Esse é o fundamento que sustenta a leitura metalinguística/metateatral e o valor programático atribuído à fala.
B
Errada
A alternativa erra ao falar em preferência por escapar para a fantasia. O trecho não é evasivo nem tácito: ele nomeia diretamente “burguesia”, “teatro de classe” e “espinafração”. Há sátira, mas não associada a fuga fantasiosa; a crítica é frontal e explícita.
C
Errada
A alternativa desloca o foco para uma observação viva da realidade e para uma linguagem de indignação social, como se o núcleo do excerto fosse realista. No trecho, o decisivo não é um retrato direto do real, mas a autorreferência ao teatro e a formulação de um programa satírico de classe.
D
Errada
A alternativa introduz elementos que o excerto não traz: “grande painel histórico, político e filosófico”, condenação do mundo antigo e “proletariado triunfante”. A menção à classe social não autoriza essa extrapolação ideológica, porque o trecho não fala em proletariado nem em triunfo histórico.
E
Errada
A alternativa projeta no trecho uma consciência de perda do mundo aristocrático e uma descrição da industrialização paulistana. Nada disso aparece na fala. O vocabulário do excerto está concentrado em “burguesia”, “teatro de classe” e “espinafração”, sem marcas de nostalgia aristocrática ou de processo urbano-industrial.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre crítica social genérica e metateatro: como o trecho fala de classe e burguesia, o candidato pode marcar alternativas de realismo social, painel histórico ou contexto modernista amplo e perder o elemento decisivo, que é a fala sobre o próprio teatro.
Dica para questões semelhantes
  • Se o trecho nomeia a própria arte ou o próprio gênero, verifique primeiro se a chave é metalinguística ou metateatral.
  • Não basta haver crítica social: observe qual é o mecanismo do trecho, aqui a autorreferência ao teatro.
  • Palavras de forte carga semântica, como “espinafração”, ajudam a definir o tom discursivo; neste caso, ataque satírico e descompostura.
  • Elimine alternativas que projetam contextos históricos ou programas estéticos não textualizados no fragmento.

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