Questão 6c7061a0-eb
Prova:CÁSPER LÍBERO 2009
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Assinale a alternativa correta sobre o excerto da “Estória do ladrão e do papagaio”, que integra o livro Luuanda, de José Luandino Vieira, apresentado a seguir.

“Nem uazekele kié-uazeka kiambote, nem nada, era só assim a outra maneira civilizada como ele dizia; mas também depois ficava na boa conversa de patrícios e, então, aí o quimbundo já podia se assentar no meio de todas as palavras, ele até queria, porque para falar bem-bem português não podia, o exame da terceira é que estava lhe tirar agora e por isso não aceitava falar um português de toda a gente, só queria falar o mais superior.”

A
Escrito em quimbundo, o texto registra expressões em português, a fim de criar um estranhamento significativo para a compreensão da lógica que move o livro.
B
A linguagem dos musseques (os bairros pobres de Luanda) é reproduzida aqui fielmente, constituindo um precioso documento historiográfico que dá conta de explicar a dominação portuguesa em Angola.
C
O esforço de recriação do registro escrito culto da linguagem pode ser comparado ao de Guimarães Rosa e representa uma profunda reflexão sobre a arte de contar histórias.
D
O português sólido e cerrado, mas ao mesmo tempo transparente, que surge no texto está a serviço de registrar a história de um povo empenhado em sua emancipação política e cultural.
E
Diante do texto, logo percebemos não estar em contato com um escritor português. O esforço de nacionalização da língua, que também se manifesta no recurso a uma sintaxe diferente, procura exprimir a ruptura com a norma lusitana e indiciar outras rupturas que precisam acontecer.

Gabarito comentado

J
Jair CaldeiraMonitor com apoio de IA

Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a presença de hibridização linguística no próprio excerto: “o quimbundo já podia se assentar no meio de todas as palavras”, o que mostra a convivência tensa entre quimbundo e português e o afastamento da norma lusitana. Por isso, a alternativa correta é a E, que lê esse procedimento como nacionalização da língua e como sinal de ruptura simbólica mais ampla.

Tema central: Hibridização linguística
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao dizer que o texto está “escrito em quimbundo” com expressões em português. A base do excerto é o português, atravessado por vocábulos quimbundos e por sintaxe desviada. O próprio trecho mostra inserção do quimbundo “no meio de todas as palavras”, não predominância estrutural do quimbundo. Também não há base no excerto para afirmar que esse procedimento visa explicar “a lógica que move o livro”.
B
Errada
A alternativa reduz a operação literária a reprodução “fiel” da linguagem dos musseques e a transforma em “documento historiográfico”. O excerto não funciona como transcrição documental, mas como elaboração estética da mistura linguística, inclusive com reflexão metalinguística sobre os códigos. Além disso, o trecho isolado não autoriza dizer que explica a dominação portuguesa em Angola.
C
Errada
A comparação com Guimarães Rosa não é o critério pedido nem está sustentada de modo decisivo pelo excerto. Mais que isso, a alternativa desloca o foco para “registro escrito culto da linguagem”, quando o texto encena justamente o atrito com o padrão culto lusitano. O ponto central do trecho não é uma reflexão sobre a arte de narrar, mas a construção de uma língua híbrida marcada localmente.
D
Errada
A caracterização de um “português sólido e cerrado, mas ao mesmo tempo transparente” não corresponde à materialidade do excerto. O texto investe em hibridismo, fricção entre códigos e certa opacidade, não em transparência imediata. Ainda que a obra possa ter horizonte de emancipação cultural, essa alternativa falha no dado estilístico que usa para sustentar sua leitura.
E
Certa
A alternativa E está correta porque lê adequadamente o que o excerto materializa: uma dicção literária não alinhada ao português metropolitano, construída por léxico quimbundo, sintaxe marcada e explicitação metalinguística da mistura de códigos. O texto não apresenta a língua como meio neutro; ao contrário, mostra que “o quimbundo já podia se assentar no meio de todas as palavras” e que “para falar bem-bem português não podia”, o que sustenta a ideia de nacionalização da língua e de ruptura com a norma lusitana. A parte final da alternativa excede a literalidade do trecho, mas permanece compatível com a leitura histórico-cultural da ruptura linguística encenada no texto.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre presença de quimbundo e texto integralmente em quimbundo, além da tendência de reduzir a mistura linguística a registro fiel da oralidade, quando o excerto mostra elaboração literária e ruptura com a norma lusitana.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique qual é a língua de base do excerto e qual é a função da língua que entra como mistura; não confunda enxerto lexical com predominância estrutural.
  • Quando o próprio texto comenta sua linguagem, como em “o quimbundo já podia se assentar no meio de todas as palavras”, use esse ponto como chave de leitura.
  • Elimine alternativas que transformam procedimento literário em documento sociológico ou historiográfico sem apoio explícito do trecho.
  • Confirme se a caracterização estilística da alternativa corresponde à materialidade verbal do excerto, e não apenas ao tema geral da obra.

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