Texto II
A história da literatura brasileira é em grande parte a história de uma imposição cultural que foi aos poucos gerando expressão literária diferente, embora em correlação estreita com os centros civilizadores da Europa. Esta imposição atuou também no sentido mais forte da palavra, isto é, como instrumento colonizador, destinado a impor e manter a ordem política e social estabelecida pela Metrópole, através inclusive das classes dominantes locais.
CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira. Rio deJaneiro: Outro sobre Azul, 2015.
A relação entre os textos I e II pode ser evidenciada
no seguinte trecho:
NÃO SE COME DINHEIROAilton Krenak
Quando falo de humanidade não estou falando só Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos a baleia, tiramos barbatanas de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que nós achamos que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da humanidade - que está na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições -, foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são as sub-humanidades. Não são só os caiçaras, quilombolas e os povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo o que não interessa; o que sobra, a sub-humanidade - alguns de nós fazemos parte dela. É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra (...) dizer: "Respirem agora, eu quero ver.” [...] Estamos sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se cortarem nosso ar poralguns minutos, nós morremos. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra. E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do banco central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, qual economia deles. Ninguém come dinheiro. Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciãos do povo lakota falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Um Manee, também conhecido como Vernon Foster.(Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras de um ancestral, ele dizia: "quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da Terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro”.
KRENAK, Ailton. Não se come dinheiro. In: Avida não é útil.SP: Companhia das Letras, 2020. Adaptado.
Gabarito comentado
Tema central: Interpretação de textos, com ênfase na identificação de relações temáticas entre textos diferentes, especialmente o conceito de imposição cultural na colonização.
Justificativa da alternativa correta (B):
A alternativa B apresenta o trecho: “Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.” Esse trecho exemplifica com clareza o processo de imposição cultural, citado no Texto II, em que a cultura europeia sobrepunha-se às identidades e tradições dos povos originários, inclusive por meio da mudança de nomes e proibição de línguas nativas. Isso ilustra, de forma objetiva, a ação colonizadora descrita por Antonio Candido.
Norma-padrão: Pela norma-padrão e pelas gramáticas de referência (Cunha & Cintra; Bechara), compreender a relação intertextual significa identificar, no texto de apoio, uma passagem que realize a mesma idéia central de outro texto ou aponte seu exemplo concreto. Nesse caso, o fragmento ilustra um mecanismo prático de dominação cultural, tornando-o plenamente coerente e coeso com o segundo texto.
Análise das alternativas incorretas:
A) “E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva…” — Refere-se ao conceito de progresso e não à imposição cultural direta.
C) “Pode ser uma ficção afirmar…” — Aborda crítica econômica, sem relação com o tema de colonização ou imposição cultural.
D) “A ideia da economia, por exemplo…” — Discorre sobre abstrações econômicas, também sem ligação com a temática de dominação cultural descrita no Texto II.
Estratégias para questões semelhantes:
- Grife as palavras-chave dos textos e das alternativas, buscando termos que remetam à ideia central do texto de apoio.
- Evite se prender a frases genéricas ou que abordam temas paralelos (ex: progresso, economia, abstrações).
- Busque exemplos concretos de processos mencionados, como no caso da troca de nomes e línguas, que comprovam imposição cultural.
- Leia atentamente o enunciado, verificando se pede relação temática, causal ou exemplificação.
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