Questão 625eff02-8e
Prova:CEDERJ 2020
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

O título do texto I, "Não se come dinheiro”, sintetiza a seguinte discussão presente no texto:

NÃO SE COME DINHEIRO
Ailton Krenak

     Quando falo de humanidade não estou falando só Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos a baleia, tiramos barbatanas de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que nós achamos que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da humanidade - que está na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições -, foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são as sub-humanidades. Não são só os caiçaras, quilombolas e os povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo o que não interessa; o que sobra, a sub-humanidade - alguns de nós fazemos parte dela.
     É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra (...) dizer: "Respirem agora, eu quero ver.” [...] Estamos sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se cortarem nosso ar poralguns minutos, nós morremos. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra.
     E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do banco central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, qual economia deles. Ninguém come dinheiro.
     Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciãos do povo lakota falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Um Manee, também conhecido como Vernon Foster.
(Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras de um ancestral, ele dizia: "quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da Terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro”.

KRENAK, Ailton. Não se come dinheiro. In: Avida não é útil.
SP: Companhia das Letras, 2020. Adaptado.

A
os aparatos tecnológicos são benéficos
B
a economia é valorizada em detrimento da Terra
C
a alimentação é precária em períodos de isolamento
D
os povos indígenas sofrem com a escassez de alimentos

Gabarito comentado

R
Rafael Lima Monitor do Qconcursos

Gabarito: B) a economia é valorizada em detrimento da Terra

Tema central: Interpretação de Texto, com foco em coerência e semântica.

Análise do título e da discussão:

O título “Não se come dinheiro” traz uma crítica à ideia de que o valor econômico está acima da natureza e do bem viver. O texto mostra, através de exemplos e reflexões, que a humanidade tem priorizado o progresso econômico e a acumulação de riquezas, esquecendo-se de que, sem a preservação da Terra, esses valores perdem sentido.

Conforme preconiza Evanildo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), a interpretação depende da compreensão do sentido no contexto; aqui, a metáfora do dinheiro que não alimenta sintetiza a crítica do autor: a economia, representada pelo dinheiro, é supervalorizada, enquanto a vida e os recursos naturais são negligenciados.

Justificativa da alternativa correta: Alternativa B reflete exatamente a ideia do texto: há uma supervalorização da economia e do dinheiro, em detrimento da própria Terra e da vida. O texto diz: “Ninguém come dinheiro”, e utiliza exemplos para mostrar que, se destruirmos o planeta, não haverá utilidade para a economia.

Análise das alternativas incorretas:

A) “os aparatos tecnológicos são benéficos” – Incorreta. O texto não os elogia, mas os questiona e critica o excesso de confiança nesses recursos.

C) “a alimentação é precária em períodos de isolamento” – Incorreta. Apesar de mencionar a pandemia, o tema central não é a alimentação em isolamento.

D) “os povos indígenas sofrem com a escassez de alimentos” – Incorreta. O autor menciona indígenas, mas a discussão vai além e aborda toda a humanidade e sua relação predatória com a Terra.

Dica final: Em provas de interpretação, procure o fio condutor semático: o que o texto verdadeiramente critica, defende ou denuncia? Não se prenda apenas a palavras soltas!

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