Questão 52ccfe7d-ac
Prova:PUC-MINAS 2014
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

I. [...] embora sejam esses recursos diminutos em comparação com os gastos globais dessas empresas com propaganda, em que se incluem as conferências técnico-turísticas, elas ultrapassam só nos Estados Unidos uma centena de milhões de dólares por ano. (5º §)
II. Quantos dos médicos que se declaram contra o programa repudiaram ofertas de passagens e estadias em gostosas conferências? (10º §)
III. Uma estratégia também adotada por animais parasitas. (8º §)
IV. E onde fica a ética? E o ensinamento de Hipócrates? (6º §)

Tendo em conta as passagens acima transcritas, pode-se dizer que o discurso do autor assume um tom irônico em:

A questão referem-se ao texto a seguir. Leia-o atentamente antes de responder a elas.

                                                                                                                    O PEIXE NEMO E O MAIS MÉDICOS

                                                                                                                                                                                                                                                  Rogério Cezar de Cerqueira Leite

1º § A indústria farmacêutica apresenta uma característica peculiar. Ela vende para um, o doente, que é quem paga, mas quem escolhe o medicamento é outro, o médico.
2º § Essa condição fez com que a indústria farmacêutica internacional desenvolvesse uma estratégia “sui generis” que, não obstante, imita um comportamento comum entre animais inferiores, a simbiose.
3º § Observo em meu aquário o peixe-palhaço percola Nemo colher um vôngole e levá-lo à boca de “sua” anêmona, antes mesmo que ele próprio se alimente. Em troca, recebe da anêmona – um animal com tentáculos venenosos – proteção contra eventuais predadores. Essa troca de favores chamamos simbiose.
4º § A promoção de medicamentos se faz de porta em porta, nos consultórios médicos. Todo mundo sabe que os inúmeros congressos médicos nos mais pitorescos locais do mundo, de Paris a Cancun, são patrocinados pelas empresas produtoras de medicamentos, inclusive com passagens e estadia pagas.
5º § O que não era percebido até recentemente é a importância e o volume de recursos repassados diretamente a médicos como remuneração pela promoção de medicamentos. Pois bem, embora sejam esses recursos diminutos em comparação com os gastos globais dessas empresas com propaganda, em que se incluem as conferências técnico-turísticas, elas ultrapassam só nos Estados Unidos uma centena de milhões de dólares por ano.
6º § E onde fica a ética? E o ensinamento de Hipócrates? A prática quotidiana e a necessidade de sobrevivência geram padrões de comportamento que, por sua vez, estabelecem dogmas, tabus, que enfim são incorporados como princípios éticos à cultura de cada sociedade.
7º § Aos poucos, os médicos acabam por sepultar sua própria percepção dos conflitos de interesse que regem essa maléfica simbiose. Três empresas multinacionais do setor farmacêutico foram há pouco multadas e 18 de seus funcionários presos na China por adotarem essa prática.
8º § Recentemente, o médico britânico e Nobel de medicina Richard J. Roberts acusou as farmacêuticas de evitar a cura em prol da dependência, um fato já conhecido. Se você cura o doente, você deixa de faturar. Se você simplesmente o mantém vivo, você fatura indefinidamente. Uma estratégia também adotada por animais parasitas. Quantas corporações médicas denunciaram essa condição maléfica?
9º § Médicos e suas associações já se opuseram, se não publicamente, pelo menos nos bastidores, a iniciativas positivas do Estado. Isso ocorreu com a instalação do SUS e com as poucas iniciativas de produção de medicamentos em laboratórios estatais. Agora acontece com o programa Mais Médicos, que, para as condições atuais da saúde no Brasil, é imprescindível. Tudo que pareça interferir com a tradicional simbiose médico-produtoras de medicamentos, mesmo que tangencialmente, passa a ser hostilizado.
10º § Quantos dos médicos que se declaram contra o programa repudiaram ofertas de passagens e estadias em gostosas conferências? Quantos colocam o interesse da sociedade brasileira acima dos seus próprios e de sua corporação?

                                                                                                                                                                                                                                    (Extraído de: Folha de S.Paulo, 19 nov. 2013.)

A
I e II
B
I e IV
C
II e III
D
I e III

Gabarito comentado

T
Tulio Pires Monitor do Qconcursos

Tema central da questão: Interpretação de texto – reconhecimento de ironia

A questão exige do candidato que reconheça exemplos de ironia no texto. A ironia é uma figura de linguagem caracterizada por expressar o oposto daquilo que seria esperado pelo sentido literal, promovendo uma crítica sutil ou humorística. Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) e Cunha & Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), a ironia faz parte das figuras de pensamento, trazendo um sentido implícito e exigindo leitura atenta e sensibilidade à crítica indireta.

Justificativa da alternativa correta:

Letra A) I e II – Ambas as passagens são exemplos claros de ironia:

  • I: O autor chama de “diminutos” os recursos que chegam a “uma centena de milhões de dólares”, provocando contraste evidente entre a palavra e a realidade, criticando as justificativas do setor sobre o “pouco” que se paga a médicos.
  • II: Ao falar em “gostosas conferências”, o sentido literal (agradável, saboroso) é claramente irônico, fundamentando a crítica ao interesse por benefícios dos eventos patrocinados.

Essa percepção requer atenção ao sentido das palavras e ao contexto.

Análise das alternativas incorretas:

  • B) I e IV: O item IV não traz ironia, apenas questionamento direto sobre ética e princípios médicos.
  • C) II e III: O item III utiliza metáfora (comparação direta com animais parasitas), porém é uma crítica direta, não irônica.
  • D) I e III: Novamente, o item III falha no requisito da ironia, pois há apenas crítica explícita e não uso do oposto do sentido literal.

Conclusão e estratégia para provas:

Fique atento a expressões que contrastam o sentido literal e o contexto real, pois são chave para reconhecer a ironia. Palavras como “diminutos” (para valores imensos) e adjetivos como “gostosas” (em contexto crítico) são indícios fortes.

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