Questão 514e0968-b1
Prova:UEMG 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Após a leitura dos dois textos, pode-se afirmar CORRETAMENTE que

LEIA os textos, abaixo, e faça o que se pede, a seguir.


TEXTO I

Marcuschi afirma que a “a oralidade continua na moda”, ou seja, a fala ainda exerce um papel preponderante em nossa sociedade e serve de registro de prática social e cultural dos falantes. Se a fala é adquirida de forma natural, a escrita é aprendida em contextos formais, normalmente, no ambiente escolar. Contudo, ao ensinar a norma culta, a escola coloca para escanteio os falares particulares dos alunos. Por falares particulares, entende-se a fala do dia-a-dia do aluno em seus mais variados ambientes: família, ruas, parques, fazendas, bares, conversas com os amigos etc. O ostensivo foco no português formal perpetua o domínio da escrita sobre a fala e gera o que Bagno define como “instrumento de poder e de controle”, segundo o qual o que não está na gramática normativa não é português. Além disso, o caráter social da linguagem é destacado por Mollica (2003). Segundo a autora, a sociedade avalia os padrões lingüísticos da fala e essa avaliação pode determinar a posição do falante na escala social. A norma culta está relacionada a pessoas com nível elevado de instrução (Oliveira,2004) e é interesse da elite mantê-la inacessível à população menos favorecida, uma vez que ela é a detentora do saber.

REVELLI - Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG- v. 1, n. 1, março de 2009 - FALARES REGIONAIS EM CONTRASTE COM A GRAMÁTICA TRADICIONAL.


TEXTO II

Cuitelinho

  Cheguei na bera do porto        

Onde as onda se espaia.       

As garça dá meia volta,         

Senta na bera da praia.         

E o cuitelinho não gosta        

 Que o botão da rosa caia.       

   Quando eu vim da minha terra,

Despedi da parentaia.           

Eu entrei em Mato Grosso,   

 Dei em terras paraguaia.       

Lá tinha revolução,              

Enfrentei fortes bataia.        

A tua saudade corta            

 Como o aço de navaia.        

O coração fica aflito,           

 Bate uma e outra faia.         

E os oio se enche d´água  

Que até a vista se atrapaia

Folclore recolhido por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó. BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua materna. São Paulo:Parábola, 2004. 

A
contrariando a idéia defendida no Texto I, “Cuitelinho” comprova que a recriação artística da linguagem independe de formação intelectual e pode ser dominada por poetas do povo, sem qualquer formação acadêmica.
B
está de acordo com o Texto I a ideia de que a falta de domínio da modalidade culta da Língua Portuguesa, como se verifica em “Cuitelinho”, empobrece a variedade de ritmos na construção da rima e da métrica.
C
pode-se verificar no Texto I a tese que defende a ideia de que combinação de palavras, as rimas e o ritmo em “Cuitelinho”, por serem primários e espontâneos, mostram o afastamento do texto de um nível estético ou artístico.
D
o autor do Texto I considera que canções como “Cuitelinho” manifestam aspectos culturais de um povo, nos quais se inclui sua forma de falar, além de registrar um momento histórico e, portanto, devem ser preservadas.

Gabarito comentado

C
Carlos PereiraMonitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: A correção decorre da compatibilidade semântica entre a tese explícita do Texto I — “a fala ainda exerce um papel preponderante em nossa sociedade e serve de registro de prática social e cultural dos falantes.” — e o Texto II, que materializa falares regionais e referência histórica em versos como “Cheguei na bera do porto / Onde as onda se espaia.” e “Lá tinha revolução, / Enfrentei fortes bataia.”; por isso, a alternativa D é a única que articula oralidade, cultura e memória histórica.

Tema central: oralidade e cultura
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao dizer que o Texto II contraria o Texto I e ao introduzir a tese de que a recriação artística independe de formação intelectual e pode ser dominada por “poetas do povo, sem qualquer formação acadêmica”. O Texto I não discute autoria popular versus formação acadêmica, nem formula essa oposição. Seu foco é a oralidade como prática social e cultural e a crítica à exclusão dos falares populares.
B
Errada
A alternativa é incompatível com o Texto I porque atribui a ele a ideia de que a falta de domínio da norma culta empobrece ritmo, rima e métrica. O Texto I sustenta o contrário do pressuposto excludente: critica a supremacia da norma culta e a desqualificação dos falares particulares. Além disso, o próprio Texto II apresenta organização poética com rimas e ritmo, o que desfaz a alegação de empobrecimento formal.
C
Errada
A alternativa inventa uma avaliação estética negativa que não está no Texto I. Não há, no texto teórico, defesa de que as combinações de palavras, as rimas e o ritmo de “Cuitelinho”, por serem “primários e espontâneos”, afastem o texto do nível artístico. Essa leitura rebaixa a oralidade popular, enquanto o Texto I a reconhece como registro social e cultural relevante.
D
Certa
A alternativa D está correta porque articula exatamente a tese explícita do Texto I com a realização do Texto II. No Texto I, a fala é valorizada como registro de prática social e cultural, e não como forma inferior de linguagem. No Texto II, essa oralidade aparece materializada em marcas regionais de fala e também em memória histórica, o que confirma seu valor cultural e social. A formulação “devem ser preservadas” não aparece literalmente no Texto I, mas constitui inferência moderada compatível com essa valorização cultural e histórica do texto folclórico.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de ler as marcas de oralidade do Texto II como defeito linguístico ou inferioridade estética, quando o Texto I justamente critica essa desvalorização e afirma o valor social e cultural da fala.
Dica para questões semelhantes
  • Primeiro localize a tese explícita do texto teórico e depois verifique qual alternativa interpreta o outro texto de modo compatível com essa tese.
  • Não transforme marca de oralidade ou variação regional em prova de empobrecimento estético se o texto-base estiver valorizando esses usos.
  • Elimine alternativas que introduzem juízos não formulados no texto, como incapacidade artística, primarismo ou oposição entre escolarização e criação.
  • Quando houver uma palavra não literal na alternativa, verifique se ela é inferência moderada sustentada pelo núcleo de sentido dos textos.

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