Questão 4a374b57-dc
Prova:Esamc 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

“O sol brilhante queimava, banco na sombra? Mas não tinha, que a Prefeitura, pra evitar safadez dos namorados, punha os bancos só bem no sol. E ainda por cima era aquela imensidade de guardas e polícias vigiando que nem bem a gente punha a mão no pescocinho dela, trilo”. O controle exercido pela prefeitura neste trecho encontra correspondência no papel exercido no texto:

Texto para a questão.


    No grande dia Primeiro de Maio, não eram bem seis horas e já o 35 pulara da cama, afobado. Estava bem disposto, até alegre, ele bem afirmara aos companheiros da Estação da Luz que queria celebrar e havia de celebrar.

    Os outros carregadores mais idosos meio que tinham caçoado do bobo, viesse trabalhar que era melhor, trabalho deles não tinha feriado. Mas o 35 retrucava com altivez que não carregava mala de ninguém, havia de celebrar o dia deles. E agora tinha o grande dia pela frente.

[...]

    Abriu o jornal. Havia logo um artigo muito bonito, bem pequeno, falando na nobreza do trabalho, nos operários que eram também os “operários da nação”, é isso mesmo. O 35 se orgulhou todo comovido. Se pedissem pra ele matar, ele matava roubava, trabalhava grátis, tomado dum sublime desejo de fraternidade, todos os seres juntos, todos bons... Depois vinham as notícias. Se esperavam “grandes motins” em Paris, deu uma raiva tal no 35. E ele ficou todo fremente, quase sem respirar, desejando “motins” (devia ser turumbamba) na sua desmesurada força física, ah, as ruças de algum... polícia? polícia. Pelo menos os safados dos polícias.

    Pois estava escrito em cima do jornal: em São Paulo a Polícia proibira comícios na rua e passeatas, embora se falasse vagamente em motins de tarde no Largo da Sé. Mas a polícia já tomara todas as providências, até metralhadoras, estavam em cima do jornal, nos arranha-céus, escondidas, o 35 sentiu um frio. O sol brilhante queimava, banco na sombra? Mas não tinha, que a Prefeitura, pra evitar safadez dos namorados, punha os bancos só bem no sol. E ainda por cima era aquela imensidade de guardas e polícias vigiando que nem bem a gente punha a mão no pescocinho dela, trilo. Mas a Polícia permitiria a grande reunião proletária, com discurso do ilustre Secretário do Trabalho, no magnífico pátio interno do Palácio das Indústrias, lugar fechado! A sensação foi claramente péssima. Não era medo, mas por que que a gente havia de ficar encurralado assim! é! E pra eles depois poderem cair em cima da gente, (palavrão)! Não vou! não sou besta! Quer dizer: vou sim! desaforo! (palavrão), socos, uma visão tumultuaria, rolando no chão, se machucava mas não fazia mal, saíam todos enfurecidos do Palácio das Indústrias, pegavam fogo no Palácio das Indústrias, não! a indústria é a gente, “operários da nação” pegavam fogo na igreja de São Bento mais próxima que era tão linda por “drento”, mas pra que pegar fogo em nada!

(Mário de Andrade. “Primeiro de Maio” in Contos novos)

A
pela classe operária.
B
pelos motins em Paris.
C
pelos outros carregadores.
D
pela polícia.
E
pela fraternidade.

Gabarito comentado

A
André Lima Monitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O comando pede correspondência de função textual, não mera aproximação temática. No trecho citado, a Prefeitura exerce controle social do espaço público ao “evitar safadez dos namorados” e ao colocar “os bancos só bem no sol”; no texto, essa mesma função de vigilância, proibição e cerceamento é desempenhada pela polícia, o que sustenta o gabarito D.

Tema central: controle social institucional
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque a classe operária não exerce controle no texto; ela é o grupo submetido à vigilância, à proibição e à contenção. O erro está em trocar o alvo do controle pelo agente controlador.
B
Errada
Incorreta porque os “motins em Paris” aparecem como notícia e como imagem de agitação desejada pelo personagem, não como instância de vigilância ou repressão. Semânticamente, motim se opõe ao papel de controle institucional pedido no comando.
C
Errada
Incorreta porque os outros carregadores apenas zombam do personagem e sugerem que ele vá trabalhar. Isso é comentário de personagens, não exercício efetivo de controle social, vigilância ou repressão equivalente ao da Prefeitura.
D
Certa
A alternativa D está correta porque a polícia desempenha no texto o mesmo papel funcional atribuído à Prefeitura no trecho destacado: ambas atuam para vigiar, restringir e cercear a circulação e os encontros no espaço público. Isso fica explícito quando o texto mostra a polícia proibindo comícios e passeatas, tomando providências repressivas e produzindo a sensação de que o povo ficaria “encurralado”.
E
Errada
Incorreta porque a fraternidade é apresentada como sentimento idealizado do personagem, ligado ao seu entusiasmo afetivo. Não tem função concreta de disciplina, vigilância ou contenção no texto.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre tema geral e função textual: como o texto trata de trabalhadores e de agitação política, o candidato pode se prender à classe operária ou aos motins; porém o comando pede correspondência de papel exercido, e esse papel é o de controle institucional, que no texto cabe à polícia.
Dica para questões semelhantes
  • Leia expressões como “encontra correspondência no papel exercido” como pedido de função, não de assunto geral.
  • Identifique primeiro quem controla e quem é controlado no texto; isso elimina alternativas tematicamente próximas, mas funcionalmente erradas.
  • Quando o trecho mostra vigilância, proibição ou cerceamento, procure no restante do texto outro agente com a mesma atuação concreta.

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