Questão 4a2ff7c8-dc
Prova:Esamc 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Mais do que descrever uma ação, o trecho do conto parece focalizar os sentimentos conflituosos do personagem 35 diante das comemorações do Dia do Trabalho. Esse sentimento conflituoso é despertado pelo fato de que a classe trabalhadora:

Texto para a questão.


    No grande dia Primeiro de Maio, não eram bem seis horas e já o 35 pulara da cama, afobado. Estava bem disposto, até alegre, ele bem afirmara aos companheiros da Estação da Luz que queria celebrar e havia de celebrar.

    Os outros carregadores mais idosos meio que tinham caçoado do bobo, viesse trabalhar que era melhor, trabalho deles não tinha feriado. Mas o 35 retrucava com altivez que não carregava mala de ninguém, havia de celebrar o dia deles. E agora tinha o grande dia pela frente.

[...]

    Abriu o jornal. Havia logo um artigo muito bonito, bem pequeno, falando na nobreza do trabalho, nos operários que eram também os “operários da nação”, é isso mesmo. O 35 se orgulhou todo comovido. Se pedissem pra ele matar, ele matava roubava, trabalhava grátis, tomado dum sublime desejo de fraternidade, todos os seres juntos, todos bons... Depois vinham as notícias. Se esperavam “grandes motins” em Paris, deu uma raiva tal no 35. E ele ficou todo fremente, quase sem respirar, desejando “motins” (devia ser turumbamba) na sua desmesurada força física, ah, as ruças de algum... polícia? polícia. Pelo menos os safados dos polícias.

    Pois estava escrito em cima do jornal: em São Paulo a Polícia proibira comícios na rua e passeatas, embora se falasse vagamente em motins de tarde no Largo da Sé. Mas a polícia já tomara todas as providências, até metralhadoras, estavam em cima do jornal, nos arranha-céus, escondidas, o 35 sentiu um frio. O sol brilhante queimava, banco na sombra? Mas não tinha, que a Prefeitura, pra evitar safadez dos namorados, punha os bancos só bem no sol. E ainda por cima era aquela imensidade de guardas e polícias vigiando que nem bem a gente punha a mão no pescocinho dela, trilo. Mas a Polícia permitiria a grande reunião proletária, com discurso do ilustre Secretário do Trabalho, no magnífico pátio interno do Palácio das Indústrias, lugar fechado! A sensação foi claramente péssima. Não era medo, mas por que que a gente havia de ficar encurralado assim! é! E pra eles depois poderem cair em cima da gente, (palavrão)! Não vou! não sou besta! Quer dizer: vou sim! desaforo! (palavrão), socos, uma visão tumultuaria, rolando no chão, se machucava mas não fazia mal, saíam todos enfurecidos do Palácio das Indústrias, pegavam fogo no Palácio das Indústrias, não! a indústria é a gente, “operários da nação” pegavam fogo na igreja de São Bento mais próxima que era tão linda por “drento”, mas pra que pegar fogo em nada!

(Mário de Andrade. “Primeiro de Maio” in Contos novos)

A
planejaria, de acordo com cada categoria, planos diferentes de resistências às imposições do governo como a audiência exclusiva dos discursos políticos.
B
estaria isolada de outras instituições como a Igreja ou a polícia, o que tornaria impossível uma organização efetiva contra o Estado.
C
constituiria, de acordo com o texto do jornal, o grupo dos “operários da nação”, no entanto proibidos de expressar sua fraternidade devido à violência do estado.
D
teria medo da repressão policial do governo, enquanto outros grupos como os intelectuais conseguiriam se manifestar livremente
E
estaria alijada dos prazeres proporcionados pelo consumo não só pelo baixo salário, mas pela repressão exercida pelo Estado por meio da polícia.

Gabarito comentado

T
Thiago Oliveira Monitor com apoio de IA

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a oposição semântica explícita no trecho entre o elogio aos trabalhadores — “falando na nobreza do trabalho, nos operários que eram também os “operários da nação”” — e a repressão estatal — “em São Paulo a Polícia proibira comícios na rua e passeatas”. Essa contradição textual sustenta o conflito interno do 35 e delimita a alternativa correta.

Tema central: contraste entre valorização e repressão
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por extrapolação interpretativa. O texto não menciona planejamento por categorias nem “planos diferentes de resistências”. Também não apresenta como núcleo do conflito a “audiência exclusiva dos discursos políticos”, mas a proibição de “comícios na rua e passeatas” e o controle policial da reunião permitida em espaço fechado.
B
Errada
A alternativa introduz uma relação que o texto não sustenta. Não há afirmação de que a classe trabalhadora esteja isolada da Igreja ou da polícia. A polícia aparece como presença repressora direta, e a igreja surge apenas na imaginação tumultuada do personagem, sem servir de base para a tese de isolamento institucional ou de impossibilidade de organização.
C
Certa
A alternativa C está correta porque retoma os dois polos que estruturam o conflito do personagem: de um lado, o jornal enaltece os trabalhadores como “operários da nação”; de outro, o Estado impede sua manifestação pública ao proibir “comícios na rua e passeatas”. O trecho “tomado dum sublime desejo de fraternidade” mostra que o 35 adere emocionalmente a um ideal de união coletiva, mas esse impulso entra em choque com a repressão policial e com a comemoração controlada em “lugar fechado”, o que produz sua indignação e sensação de encurralamento.
D
Errada
A alternativa contradiz a literalidade do texto ao afirmar medo da repressão, porque o narrador explicita: “Não era medo”. O mal-estar decorre do encurralamento e do controle da manifestação. Além disso, a comparação com intelectuais é indevida, pois esse grupo não aparece no trecho.
E
Errada
A alternativa desloca o foco para temas ausentes no texto. Não há referência a baixo salário, consumo ou exclusão de prazeres materiais. A repressão policial mencionada está ligada ao impedimento das manifestações coletivas, não ao acesso ao consumo.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de trocar o conflito central — elogio aos trabalhadores versus repressão estatal às suas manifestações — por leituras plausíveis, mas não textualizadas, como medo da polícia, consumo, categorias profissionais ou comparação com intelectuais.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique se o conflito do texto nasce de uma oposição explícita entre dois elementos; aqui, elogio ao trabalhador e proibição de sua manifestação.
  • Elimine alternativas que acrescentem grupos, causas ou temas não mencionados, mesmo que pareçam socialmente plausíveis.
  • Quando o texto nega expressamente um sentido, como em “Não era medo”, descarte alternativas que insistem nele.
  • Em interpretação, dê prioridade ao que o trecho articula diretamente, não a generalizações sobre a sociedade.

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