Questão 4a0f8aab-dc
Prova:Esamc 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
No quarto parágrafo do texto, afirma-se: “Diferentemente de Green,
McCann e Baer acreditam que a onda global recente de protestos
indica que o Brasil pode não ser um caso único”. Apesar do que é
anunciado, pode-se verificar, a partir da leitura do texto, que Green,
McCann e Baer concordam ao afirmarem que:
No quarto parágrafo do texto, afirma-se: “Diferentemente de Green,
McCann e Baer acreditam que a onda global recente de protestos
indica que o Brasil pode não ser um caso único”. Apesar do que é
anunciado, pode-se verificar, a partir da leitura do texto, que Green,
McCann e Baer concordam ao afirmarem que:
Um olhar estrangeiro
Vanessa Jurgenfeld
Há anos, o americano James Green se dedica ao ensino de história
do Brasil na Universidade Brown, nos Estados Unidos. Em junho, ele
desembarcou no Rio de Janeiro para o que seria apenas mais um simpósio internacional, mas foi surpreendido pela magnitude das manifestações de rua que tornariam junho um mês histórico. Green não teve dúvidas: com as atividades da conferência suspensas um pouco mais cedo,
decidiu ouvir de perto as vozes das ruas.
Assim como Green, outros brasilianistas passaram pelo país nos últimos dias. O historiador Bryan McCann, da Universidade Georgetown,
e o economista Werner Baer, da Universidade de Illinois. Aproveitando
as férias de verão nos Estados Unidos e o recesso das aulas, visitaram o
Brasil para tocar pesquisas sobre assuntos como favelas no Rio e infraestrutura. Depararam-se, porém, com as manifestações, e agora tentam
interpretar suas causas e possíveis consequências.
Green faz ressalvas a comparações internacionais. Para ele, os pesquisadores têm grande dificuldade para analisar os fatos de fora porque,
muitas vezes, não entendem as complexidades internas dos países.
“Achei inadequadas as análises que imediatamente fizeram analogias
com o Oriente Médio. A única coisa em comum é que se usou o mesmo
meio [o Facebook] para a mobilização.” Segundo ele, as ansiedades e as
preocupações dos manifestantes são totalmente diferentes. “Não dá para comparar o regime autoritário que estava no Egito antes da “Primavera Árabe” com o Brasil, que antes das manifestações tinha um governo
com 70% de aprovação.”
Diferentemente de Green, McCann e Baer acreditam que a onda global recente de protestos indica que o Brasil pode não ser um caso único.
Para McCann, comparações com os episódios na Turquia e mesmo com
o movimento Occupy Wall Street, que ocorreu nos Estados Unidos em
2011, são pertinentes. “Certamente, as características brasileiras são um
pouco diferentes. Mas as manifestações deixam claro que a mídia social
e a comunicação instantânea ajudam a espalhar um modo de agir, ajudam a levantar pessoas.” Numa comparação com a Turquia, McCann diz
que, embora o Brasil seja “muito mais democrático”, o perfil dos manifestantes é similar. “É uma faixa parecida da população - os jovens -, e
o que se poderia chamar de nova classe média. São manifestações de
consumidores e de cidadãos que estão exigindo um nível melhor de serviços do governo e de transparência.” Assim como no Occupy Wall
Street, McCann identifica nas manifestações no Brasil uma insatisfação
com a distribuição de renda e o entendimento de que o crescimento
econômico em si não é bom para todo mundo. No Brasil, apesar de a desigualdade cair nos últimos 20 anos, o fato é que alguns enriquecem
muito mais rapidamente e de forma mais expressiva do que a maioria,
que continua com problemas cotidianos de saúde e transporte público,
e não vai comprar mais a ideia de que tudo está ótimo porque tem as
Olimpíadas e a Copa do Mundo.” Para o historiador Bryan McCann, as
mobilizações acabaram com a utopia de que o Brasil tinha resolvido
todos os seus problemas. Baer concorda que as manifestações no Brasil
não devem ser vistas de maneira isolada. Mas diz que aqui parece existir
insatisfação com questões específicas, como o reaparecimento da inflação e os atrasos em obras de infraestrutura. “É uma mistura de fatos que
deixou a população insatisfeita. Não tenho uma teoria nova, são as mesmas especulações que todo mundo está fazendo. Combinando essas
insatisfações em geral com o acesso à rede social, resulta esse tipo de
acontecimento.” Mas o que o deixou um pouco surpreso é que, embora
haja uma taxa de crescimento baixa da economia brasileira, o desemprego - que vem sendo objeto de manifestações em diversos países desenvolvidos - não aumentou. “Então, é muito difícil saber exatamente o que
acontece. Acho que ninguém tem uma teoria certa. Nenhuma pessoa
honesta pode dizer exatamente: “eu sei a causa de tudo isso””.
Os brasilianistas observam diferenças nas atitudes dos governos dos
diferentes países frente às manifestações. “De certa maneira, o governo
brasileiro está reagindo”, diz Baer. “Parece que a presidente Dilma
Rousseff sabe que alguma coisa precisa ser feita para atender às reivindicações. McCann concorda que o governo brasileiro procura responder aos protestos, diferentemente do que faz o primeiro-ministro
turco, Recep Tayyip Erdogan, “que está tapando os ouvidos”. A presidenta
Dilma, segundo ele, está acenando para o movimento popular. “Se vai dar em alguma coisa, não sei. A reforma política é necessária e isso está
claro há uns dez anos. Green argumenta que, para se compreender o
encadeamento de protestos no Brasil, é preciso pensar na relação com
“as promessas de uma social-democracia justa e ampla que não estão
sendo cumpridas por um governo que diz que tudo está melhorando”.
A energia política liberada nas ruas, em diferentes manifestações de insatisfação, precisaria, num processo de desdobramento natural, ser
combinada com um vigor correspondente na realização das mudanças
reclamadas. Os protestos poderão incentivar uma disputa mais acirrada
na próxima eleição presidencial. “Acho que a percepção é de que vai
haver mais competição política e que a reeleição de Dilma não está
garantida. Agora há realmente um debate, o que também é algo positivo”, diz McCann.
(Adaptado de Valor Econômico, 19/07/2013, pp. 11-13.)
Um olhar estrangeiro
Vanessa Jurgenfeld
Há anos, o americano James Green se dedica ao ensino de história
do Brasil na Universidade Brown, nos Estados Unidos. Em junho, ele
desembarcou no Rio de Janeiro para o que seria apenas mais um simpósio internacional, mas foi surpreendido pela magnitude das manifestações de rua que tornariam junho um mês histórico. Green não teve dúvidas: com as atividades da conferência suspensas um pouco mais cedo,
decidiu ouvir de perto as vozes das ruas.
Assim como Green, outros brasilianistas passaram pelo país nos últimos dias. O historiador Bryan McCann, da Universidade Georgetown,
e o economista Werner Baer, da Universidade de Illinois. Aproveitando
as férias de verão nos Estados Unidos e o recesso das aulas, visitaram o
Brasil para tocar pesquisas sobre assuntos como favelas no Rio e infraestrutura. Depararam-se, porém, com as manifestações, e agora tentam
interpretar suas causas e possíveis consequências.
Green faz ressalvas a comparações internacionais. Para ele, os pesquisadores têm grande dificuldade para analisar os fatos de fora porque,
muitas vezes, não entendem as complexidades internas dos países.
“Achei inadequadas as análises que imediatamente fizeram analogias
com o Oriente Médio. A única coisa em comum é que se usou o mesmo
meio [o Facebook] para a mobilização.” Segundo ele, as ansiedades e as
preocupações dos manifestantes são totalmente diferentes. “Não dá para comparar o regime autoritário que estava no Egito antes da “Primavera Árabe” com o Brasil, que antes das manifestações tinha um governo
com 70% de aprovação.”
Diferentemente de Green, McCann e Baer acreditam que a onda global recente de protestos indica que o Brasil pode não ser um caso único.
Para McCann, comparações com os episódios na Turquia e mesmo com
o movimento Occupy Wall Street, que ocorreu nos Estados Unidos em
2011, são pertinentes. “Certamente, as características brasileiras são um
pouco diferentes. Mas as manifestações deixam claro que a mídia social
e a comunicação instantânea ajudam a espalhar um modo de agir, ajudam a levantar pessoas.” Numa comparação com a Turquia, McCann diz
que, embora o Brasil seja “muito mais democrático”, o perfil dos manifestantes é similar. “É uma faixa parecida da população - os jovens -, e
o que se poderia chamar de nova classe média. São manifestações de
consumidores e de cidadãos que estão exigindo um nível melhor de serviços do governo e de transparência.” Assim como no Occupy Wall
Street, McCann identifica nas manifestações no Brasil uma insatisfação
com a distribuição de renda e o entendimento de que o crescimento
econômico em si não é bom para todo mundo. No Brasil, apesar de a desigualdade cair nos últimos 20 anos, o fato é que alguns enriquecem
muito mais rapidamente e de forma mais expressiva do que a maioria,
que continua com problemas cotidianos de saúde e transporte público,
e não vai comprar mais a ideia de que tudo está ótimo porque tem as
Olimpíadas e a Copa do Mundo.” Para o historiador Bryan McCann, as
mobilizações acabaram com a utopia de que o Brasil tinha resolvido
todos os seus problemas. Baer concorda que as manifestações no Brasil
não devem ser vistas de maneira isolada. Mas diz que aqui parece existir
insatisfação com questões específicas, como o reaparecimento da inflação e os atrasos em obras de infraestrutura. “É uma mistura de fatos que
deixou a população insatisfeita. Não tenho uma teoria nova, são as mesmas especulações que todo mundo está fazendo. Combinando essas
insatisfações em geral com o acesso à rede social, resulta esse tipo de
acontecimento.” Mas o que o deixou um pouco surpreso é que, embora
haja uma taxa de crescimento baixa da economia brasileira, o desemprego - que vem sendo objeto de manifestações em diversos países desenvolvidos - não aumentou. “Então, é muito difícil saber exatamente o que
acontece. Acho que ninguém tem uma teoria certa. Nenhuma pessoa
honesta pode dizer exatamente: “eu sei a causa de tudo isso””.
Os brasilianistas observam diferenças nas atitudes dos governos dos
diferentes países frente às manifestações. “De certa maneira, o governo
brasileiro está reagindo”, diz Baer. “Parece que a presidente Dilma
Rousseff sabe que alguma coisa precisa ser feita para atender às reivindicações. McCann concorda que o governo brasileiro procura responder aos protestos, diferentemente do que faz o primeiro-ministro
turco, Recep Tayyip Erdogan, “que está tapando os ouvidos”. A presidenta
Dilma, segundo ele, está acenando para o movimento popular. “Se vai dar em alguma coisa, não sei. A reforma política é necessária e isso está
claro há uns dez anos. Green argumenta que, para se compreender o
encadeamento de protestos no Brasil, é preciso pensar na relação com
“as promessas de uma social-democracia justa e ampla que não estão
sendo cumpridas por um governo que diz que tudo está melhorando”.
A energia política liberada nas ruas, em diferentes manifestações de insatisfação, precisaria, num processo de desdobramento natural, ser
combinada com um vigor correspondente na realização das mudanças
reclamadas. Os protestos poderão incentivar uma disputa mais acirrada
na próxima eleição presidencial. “Acho que a percepção é de que vai
haver mais competição política e que a reeleição de Dilma não está
garantida. Agora há realmente um debate, o que também é algo positivo”, diz McCann.
(Adaptado de Valor Econômico, 19/07/2013, pp. 11-13.)
A
analogias entre as manifestações brasileiras e as do Oriente Médio são errôneas e inconsequentes;
B
tanto as manifestações brasileiras quanto as do Oriente Médio
foram facilitadas pelas redes sociais;
C
as manifestações de Occupy Wall Street podem ser comparadas
às brasileiras, mas não as do Oriente Médio;
D
diferente do que aconteceu nos países do Oriente Médio, no Brasil a reforma política enfim foi iniciada.
E
no Brasil, as manifestações são incompreensíveis, devido ao desenvolvimento da social-democracia.
Gabarito comentado
J
Juliana SantosMonitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: O comando pede que se identifique o ponto de concordância entre falas apresentadas como divergentes. Pela leitura global, essa convergência está no papel das redes sociais na mobilização dos protestos: Green afirma que “A única coisa em comum é que se usou o mesmo meio [o Facebook] para a mobilização.”; McCann diz que “a mídia social e a comunicação instantânea ajudam a espalhar um modo de agir, ajudam a levantar pessoas.”; e Baer relaciona o fato ao “acesso à rede social”. Esse critério textual decide a alternativa B.
Tema central: convergência parcial de sentido
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por generalização indevida. O texto não mostra que os três considerem errôneas e inconsequentes as analogias com o Oriente Médio. Essa restrição aparece na fala de Green, e ainda assim de modo limitado: ele diz que achou “inadequadas” análises que imediatamente fizeram analogias, mas admite uma semelhança específica quanto ao meio de mobilização. Não há consenso dos três nesses termos absolutos.
B
Certa
A alternativa B explicita o ponto comum efetivamente sustentado pelas falas de Green, McCann e Baer. Green restringe a semelhança com o Oriente Médio ao uso do Facebook para mobilização. McCann atribui às mídias sociais e à comunicação instantânea a capacidade de espalhar um modo de agir e levantar pessoas. Baer também inclui o acesso à rede social na explicação do acontecimento. Portanto, a coincidência entre os três está no papel das redes sociais como fator de mobilização.
C
Errada
A alternativa atribui concordância coletiva a uma comparação que o texto apresenta como posição de McCann. É ele quem considera pertinentes comparações com a Turquia e com o Occupy Wall Street. Green não é apresentado como alguém que concorde com a comparação com o Occupy Wall Street, e o texto também não mostra esse ponto como consenso dos três. Portanto, há atribuição indevida de concordância.
D
Errada
A alternativa contradiz o texto ao transformar possibilidade ou necessidade em fato consumado. McCann afirma: “Se vai dar em alguma coisa, não sei” e “A reforma política é necessária e isso está claro há uns dez anos.” Isso não autoriza dizer que a reforma política “enfim foi iniciada”. O texto fala em reação do governo e aceno às reivindicações, não em início comprovado da reforma.
E
Errada
A alternativa deturpa o sentido da referência à social-democracia. Green fala em “as promessas de uma social-democracia justa e ampla que não estão sendo cumpridas”, ou seja, em frustração de promessas, não em desenvolvimento realizado que tornaria os protestos incompreensíveis. Além disso, o texto não sustenta que as manifestações sejam incompreensíveis; Baer apenas reconhece dificuldade para determinar exatamente suas causas.
Pegadinha da questão
A banca opõe Green a McCann e Baer no início do parágrafo para induzir leitura de divergência total; a solução depende de perceber que a pergunta cobra uma concordância parcial, e ela está restrita ao papel das redes sociais na mobilização.
Dica para questões semelhantes
- Quando o enunciado disser “apesar do que é anunciado”, não pare na oposição inicial; procure um ponto de contato entre as falas.
- Se um trecho trouxer restrição como “A única coisa em comum”, trate essa expressão como limite exato da concordância possível.
- Elimine alternativas que transformam opinião individual em consenso ou hipótese em fato realizado.






