Questão 49ff1059-dc
Prova:Esamc 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Coesão e coerência, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
O título do texto “Um olhar estrangeiro” se refere:
O título do texto “Um olhar estrangeiro” se refere:
Um olhar estrangeiro
Vanessa Jurgenfeld
Há anos, o americano James Green se dedica ao ensino de história
do Brasil na Universidade Brown, nos Estados Unidos. Em junho, ele
desembarcou no Rio de Janeiro para o que seria apenas mais um simpósio internacional, mas foi surpreendido pela magnitude das manifestações de rua que tornariam junho um mês histórico. Green não teve dúvidas: com as atividades da conferência suspensas um pouco mais cedo,
decidiu ouvir de perto as vozes das ruas.
Assim como Green, outros brasilianistas passaram pelo país nos últimos dias. O historiador Bryan McCann, da Universidade Georgetown,
e o economista Werner Baer, da Universidade de Illinois. Aproveitando
as férias de verão nos Estados Unidos e o recesso das aulas, visitaram o
Brasil para tocar pesquisas sobre assuntos como favelas no Rio e infraestrutura. Depararam-se, porém, com as manifestações, e agora tentam
interpretar suas causas e possíveis consequências.
Green faz ressalvas a comparações internacionais. Para ele, os pesquisadores têm grande dificuldade para analisar os fatos de fora porque,
muitas vezes, não entendem as complexidades internas dos países.
“Achei inadequadas as análises que imediatamente fizeram analogias
com o Oriente Médio. A única coisa em comum é que se usou o mesmo
meio [o Facebook] para a mobilização.” Segundo ele, as ansiedades e as
preocupações dos manifestantes são totalmente diferentes. “Não dá para comparar o regime autoritário que estava no Egito antes da “Primavera Árabe” com o Brasil, que antes das manifestações tinha um governo
com 70% de aprovação.”
Diferentemente de Green, McCann e Baer acreditam que a onda global recente de protestos indica que o Brasil pode não ser um caso único.
Para McCann, comparações com os episódios na Turquia e mesmo com
o movimento Occupy Wall Street, que ocorreu nos Estados Unidos em
2011, são pertinentes. “Certamente, as características brasileiras são um
pouco diferentes. Mas as manifestações deixam claro que a mídia social
e a comunicação instantânea ajudam a espalhar um modo de agir, ajudam a levantar pessoas.” Numa comparação com a Turquia, McCann diz
que, embora o Brasil seja “muito mais democrático”, o perfil dos manifestantes é similar. “É uma faixa parecida da população - os jovens -, e
o que se poderia chamar de nova classe média. São manifestações de
consumidores e de cidadãos que estão exigindo um nível melhor de serviços do governo e de transparência.” Assim como no Occupy Wall
Street, McCann identifica nas manifestações no Brasil uma insatisfação
com a distribuição de renda e o entendimento de que o crescimento
econômico em si não é bom para todo mundo. No Brasil, apesar de a desigualdade cair nos últimos 20 anos, o fato é que alguns enriquecem
muito mais rapidamente e de forma mais expressiva do que a maioria,
que continua com problemas cotidianos de saúde e transporte público,
e não vai comprar mais a ideia de que tudo está ótimo porque tem as
Olimpíadas e a Copa do Mundo.” Para o historiador Bryan McCann, as
mobilizações acabaram com a utopia de que o Brasil tinha resolvido
todos os seus problemas. Baer concorda que as manifestações no Brasil
não devem ser vistas de maneira isolada. Mas diz que aqui parece existir
insatisfação com questões específicas, como o reaparecimento da inflação e os atrasos em obras de infraestrutura. “É uma mistura de fatos que
deixou a população insatisfeita. Não tenho uma teoria nova, são as mesmas especulações que todo mundo está fazendo. Combinando essas
insatisfações em geral com o acesso à rede social, resulta esse tipo de
acontecimento.” Mas o que o deixou um pouco surpreso é que, embora
haja uma taxa de crescimento baixa da economia brasileira, o desemprego - que vem sendo objeto de manifestações em diversos países desenvolvidos - não aumentou. “Então, é muito difícil saber exatamente o que
acontece. Acho que ninguém tem uma teoria certa. Nenhuma pessoa
honesta pode dizer exatamente: “eu sei a causa de tudo isso””.
Os brasilianistas observam diferenças nas atitudes dos governos dos
diferentes países frente às manifestações. “De certa maneira, o governo
brasileiro está reagindo”, diz Baer. “Parece que a presidente Dilma
Rousseff sabe que alguma coisa precisa ser feita para atender às reivindicações. McCann concorda que o governo brasileiro procura responder aos protestos, diferentemente do que faz o primeiro-ministro
turco, Recep Tayyip Erdogan, “que está tapando os ouvidos”. A presidenta
Dilma, segundo ele, está acenando para o movimento popular. “Se vai dar em alguma coisa, não sei. A reforma política é necessária e isso está
claro há uns dez anos. Green argumenta que, para se compreender o
encadeamento de protestos no Brasil, é preciso pensar na relação com
“as promessas de uma social-democracia justa e ampla que não estão
sendo cumpridas por um governo que diz que tudo está melhorando”.
A energia política liberada nas ruas, em diferentes manifestações de insatisfação, precisaria, num processo de desdobramento natural, ser
combinada com um vigor correspondente na realização das mudanças
reclamadas. Os protestos poderão incentivar uma disputa mais acirrada
na próxima eleição presidencial. “Acho que a percepção é de que vai
haver mais competição política e que a reeleição de Dilma não está
garantida. Agora há realmente um debate, o que também é algo positivo”, diz McCann.
(Adaptado de Valor Econômico, 19/07/2013, pp. 11-13.)
Um olhar estrangeiro
Vanessa Jurgenfeld
Há anos, o americano James Green se dedica ao ensino de história
do Brasil na Universidade Brown, nos Estados Unidos. Em junho, ele
desembarcou no Rio de Janeiro para o que seria apenas mais um simpósio internacional, mas foi surpreendido pela magnitude das manifestações de rua que tornariam junho um mês histórico. Green não teve dúvidas: com as atividades da conferência suspensas um pouco mais cedo,
decidiu ouvir de perto as vozes das ruas.
Assim como Green, outros brasilianistas passaram pelo país nos últimos dias. O historiador Bryan McCann, da Universidade Georgetown,
e o economista Werner Baer, da Universidade de Illinois. Aproveitando
as férias de verão nos Estados Unidos e o recesso das aulas, visitaram o
Brasil para tocar pesquisas sobre assuntos como favelas no Rio e infraestrutura. Depararam-se, porém, com as manifestações, e agora tentam
interpretar suas causas e possíveis consequências.
Green faz ressalvas a comparações internacionais. Para ele, os pesquisadores têm grande dificuldade para analisar os fatos de fora porque,
muitas vezes, não entendem as complexidades internas dos países.
“Achei inadequadas as análises que imediatamente fizeram analogias
com o Oriente Médio. A única coisa em comum é que se usou o mesmo
meio [o Facebook] para a mobilização.” Segundo ele, as ansiedades e as
preocupações dos manifestantes são totalmente diferentes. “Não dá para comparar o regime autoritário que estava no Egito antes da “Primavera Árabe” com o Brasil, que antes das manifestações tinha um governo
com 70% de aprovação.”
Diferentemente de Green, McCann e Baer acreditam que a onda global recente de protestos indica que o Brasil pode não ser um caso único.
Para McCann, comparações com os episódios na Turquia e mesmo com
o movimento Occupy Wall Street, que ocorreu nos Estados Unidos em
2011, são pertinentes. “Certamente, as características brasileiras são um
pouco diferentes. Mas as manifestações deixam claro que a mídia social
e a comunicação instantânea ajudam a espalhar um modo de agir, ajudam a levantar pessoas.” Numa comparação com a Turquia, McCann diz
que, embora o Brasil seja “muito mais democrático”, o perfil dos manifestantes é similar. “É uma faixa parecida da população - os jovens -, e
o que se poderia chamar de nova classe média. São manifestações de
consumidores e de cidadãos que estão exigindo um nível melhor de serviços do governo e de transparência.” Assim como no Occupy Wall
Street, McCann identifica nas manifestações no Brasil uma insatisfação
com a distribuição de renda e o entendimento de que o crescimento
econômico em si não é bom para todo mundo. No Brasil, apesar de a desigualdade cair nos últimos 20 anos, o fato é que alguns enriquecem
muito mais rapidamente e de forma mais expressiva do que a maioria,
que continua com problemas cotidianos de saúde e transporte público,
e não vai comprar mais a ideia de que tudo está ótimo porque tem as
Olimpíadas e a Copa do Mundo.” Para o historiador Bryan McCann, as
mobilizações acabaram com a utopia de que o Brasil tinha resolvido
todos os seus problemas. Baer concorda que as manifestações no Brasil
não devem ser vistas de maneira isolada. Mas diz que aqui parece existir
insatisfação com questões específicas, como o reaparecimento da inflação e os atrasos em obras de infraestrutura. “É uma mistura de fatos que
deixou a população insatisfeita. Não tenho uma teoria nova, são as mesmas especulações que todo mundo está fazendo. Combinando essas
insatisfações em geral com o acesso à rede social, resulta esse tipo de
acontecimento.” Mas o que o deixou um pouco surpreso é que, embora
haja uma taxa de crescimento baixa da economia brasileira, o desemprego - que vem sendo objeto de manifestações em diversos países desenvolvidos - não aumentou. “Então, é muito difícil saber exatamente o que
acontece. Acho que ninguém tem uma teoria certa. Nenhuma pessoa
honesta pode dizer exatamente: “eu sei a causa de tudo isso””.
Os brasilianistas observam diferenças nas atitudes dos governos dos
diferentes países frente às manifestações. “De certa maneira, o governo
brasileiro está reagindo”, diz Baer. “Parece que a presidente Dilma
Rousseff sabe que alguma coisa precisa ser feita para atender às reivindicações. McCann concorda que o governo brasileiro procura responder aos protestos, diferentemente do que faz o primeiro-ministro
turco, Recep Tayyip Erdogan, “que está tapando os ouvidos”. A presidenta
Dilma, segundo ele, está acenando para o movimento popular. “Se vai dar em alguma coisa, não sei. A reforma política é necessária e isso está
claro há uns dez anos. Green argumenta que, para se compreender o
encadeamento de protestos no Brasil, é preciso pensar na relação com
“as promessas de uma social-democracia justa e ampla que não estão
sendo cumpridas por um governo que diz que tudo está melhorando”.
A energia política liberada nas ruas, em diferentes manifestações de insatisfação, precisaria, num processo de desdobramento natural, ser
combinada com um vigor correspondente na realização das mudanças
reclamadas. Os protestos poderão incentivar uma disputa mais acirrada
na próxima eleição presidencial. “Acho que a percepção é de que vai
haver mais competição política e que a reeleição de Dilma não está
garantida. Agora há realmente um debate, o que também é algo positivo”, diz McCann.
(Adaptado de Valor Econômico, 19/07/2013, pp. 11-13.)
A
à unanimidade de opiniões dos pesquisadores estrangeiros sobre as causas das manifestações em junho no Brasil.
B
à posição de três pesquisadores estrangeiros em relação à manifestações ocorridas em junho no Brasil.
C
ao valor que a mídia estrangeira legou à cobertura das manifestações ocorridas em junho no Brasil.
D
à falta de capacidade de pesquisadores estrangeiros de avaliarem as causas e consequências das manifestações em junho no
Brasil.
E
às coincidências entre as manifestações ocorridas em junho no
Brasil e aquelas ocorridas em países do Oriente Médio.
Gabarito comentado
B
Bruno LimaMonitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a relação entre o título e o desenvolvimento temático do texto. A citação obrigatória que sustenta a resposta é: "Assim como Green, outros brasilianistas passaram pelo país nos últimos dias. O historiador Bryan McCann, da Universidade Georgetown, e o economista Werner Baer, da Universidade de Illinois. (...) Depararam-se, porém, com as manifestações, e agora tentam interpretar suas causas e possíveis consequências." Esse recorte mostra que o título aponta para o enfoque nas análises de pesquisadores estrangeiros sobre as manifestações de junho no Brasil, o que sustenta a alternativa B.
Tema central: olhar estrangeiro
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não constrói unanimidade entre os pesquisadores. Ao contrário, explicita divergência: "Diferentemente de Green, McCann e Baer acreditam que a onda global recente de protestos indica que o Brasil pode não ser um caso único." Essa marca de oposição elimina a ideia de concordância geral sobre as causas das manifestações.
B
Certa
A alternativa B está correta porque nomeia o referente do título no texto: os pesquisadores estrangeiros que analisam as manifestações de junho no Brasil. O texto apresenta essas posições e as contrapõe, de modo que "olhar estrangeiro" não se refere a mídia, unanimidade, incapacidade ou a uma comparação específica.
C
Errada
Está errada por inadequação temática. O texto não trata da cobertura da mídia estrangeira nem do valor dado por ela aos acontecimentos. O foco recai sobre pesquisadores estrangeiros e suas interpretações. Troca-se, indevidamente, o referente específico do título — os brasilianistas — por um referente que não é desenvolvido como tema do texto.
D
Errada
Está errada porque transforma uma dificuldade relativa em incapacidade absoluta. Green afirma que pesquisadores de fora têm "grande dificuldade" para analisar fatos externos, mas o texto não conclui falta de capacidade; ao contrário, apresenta interpretações efetivas desses pesquisadores sobre causas e consequências das manifestações. Há mudança indevida de sentido.
E
Errada
Está errada porque reduz o título a um recorte específico e ainda contrariado pelo texto. A comparação com o Oriente Médio aparece apenas para ser rejeitada por Green: "A única coisa em comum é que se usou o mesmo meio [o Facebook] para a mobilização." Logo, essas coincidências não definem o sentido de “Um olhar estrangeiro”.
Pegadinha da questão
A banca explora a troca do referente do título: em vez de perceber que “olhar estrangeiro” resume o conjunto das posições de três pesquisadores estrangeiros, o candidato pode cair em leituras indevidas como unanimidade entre eles, mídia estrangeira, incapacidade analítica ou comparação com o Oriente Médio.
Dica para questões semelhantes
- Em questões sobre título, localize o tema que organiza o texto inteiro, não um detalhe pontual de um parágrafo.
- Verifique quem é o referente real da expressão do título no desenvolvimento textual; aqui, são os pesquisadores estrangeiros, não a mídia.
- Quando o texto traz contraste entre posições, elimine alternativas que falem em unanimidade.
- Não amplie sentido de palavras do texto: “dificuldade” não autoriza concluir “incapacidade”.






