Questão 46c36366-e4
Prova:USP 2012
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Ao comentar o romance Til e, inclusive, a cena do capítulo “O samba”, aqui reproduzida, Araripe Jr., parente do autor e estudioso de sua obra, observou que esses são provavelmente os textos em que Alencar “mais se quis aproximar dos padrões” de uma “nova escola”, deixando, neles, reconhecível que, “no momento” em que os escreveu, “algum livro novo o impressionara, levando-o pelo estímulo até superfetar* a sua verdadeira índole de poeta”. Alguns dos procedimentos estilísticos empregados na cena aqui reproduzida indicam que a “nova escola” e o “livro novo” a que se refere o crítico pertencem ao que historiadores da literatura chamaram de

(*) “superfetar” = exceder, sobrecarregar, acrescentar-se (uma coisa a outra).

            V - O samba

            À direita do terreiro, adumbra-se* na escuridão um maciço de construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento.
            (...)
            É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas.
            Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, dançam os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar- se.
            Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães, ou se enrolam nas saias das aparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar como um peixe em seco. (...)


                                                                                                José de Alencar, Til.

(*) “adumbra-se” = delineia-se, esboça-se.

A
Romantismo-Condoreirismo.
B
Idealismo-Determinismo.
C
Realismo-Naturalismo.
D
Parnasianismo-Simbolismo.
E
Positivismo-Impressionismo.

Gabarito comentado

M
Marcela PascalMentora Qconcursos

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O comando pede identificar a "nova escola" pelos procedimentos estilísticos da cena, e o trecho decisivo — "dançam os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar-se." — concentra a observação concreta do corpo, o movimento convulsivo e a materialidade física que apontam para o Realismo-Naturalismo.

Tema central: Realismo-Naturalismo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque a questão não pede a filiação geral de José de Alencar, mas a "nova escola" sugerida por esta cena específica. O Condoreirismo se associa a tom oratório, grandiloquente e libertário, enquanto o excerto se organiza por observação física minuciosa, crueza descritiva e focalização do corpo em convulsão.
B
Errada
Está errada por desajuste categorial. A alternativa reúne rótulos filosóficos e científicos, mas o enunciado pede a denominação histórico-literária da "nova escola". Ainda que a ideia de determinismo possa se aproximar do Naturalismo, isso não autoriza substituir o nome da escola por um par conceitual que não corresponde à classificação literária pedida.
C
Certa
A alternativa C está correta porque a passagem apresenta observação concreta e intensificada do comportamento corporal, com descrição física minuciosa, energia coletiva quase instintiva e comparações animalizantes, como em "à guisa de sapos" e "como um peixe em seco". Esses procedimentos deslocam a cena para a fisicalidade, a crueza material e a exacerbação fisiológica, traços compatíveis com a aproximação ao campo realista-naturalista indicada no comentário crítico do enunciado.
D
Errada
Está errada porque os traços dominantes do trecho não são nem o rigor formal e a impessoalidade escultórica do Parnasianismo, nem a sugestão vaga e espiritualizada do Simbolismo. A cena insiste em fisicalidade, rudeza sensorial, movimento descontrolado e observação concreta do corpo coletivo, o que exclui esse enquadramento.
E
Errada
Está errada porque Positivismo e Impressionismo não nomeiam, nesse contexto, a escola literária que o enunciado pede reconhecer. Além disso, o excerto não se constrói pela impressão subjetiva fugidia da percepção, mas por descrição concreta e intensificada da realidade física, com peso corporal e social afinado com o Naturalismo.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre a escola do autor e a escola da cena: o ponto não é classificar José de Alencar em bloco, mas perceber que, nesta passagem, ele se aproxima de procedimentos realista-naturalistas. Outra armadilha é aceitar pares de ideias associadas ao movimento, mas que não nomeiam corretamente a escola literária pedida.
Dica para questões semelhantes
  • Leia primeiro o comando: se ele pede a escola sugerida por um trecho, o critério é o procedimento estilístico visível no excerto, não a filiação geral do autor.
  • Quando a descrição enfatiza corpo, impulso, crueza material e comparações animalizantes, o sinal aponta mais para Naturalismo do que para idealização romântica.
  • Desconfie de alternativas com rótulos filosóficos ou culturais quando a pergunta exige classificação histórico-literária.
  • Não basta haver descrição; observe que tipo de descrição aparece: aqui ela é física, convulsiva e materializada.

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