Questão 40a69c86-e7
Prova:UEFS 2009
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Umas poucas pessoas, gente da Ladeira, espiavam o cadáver quando Vanda chegou. O
santeiro informava em voz baixa:
— É a filha. Tinha filha, genro, irmãos. Gente distinta. O genro é funcionário, mora em
Itapagipe. Casa de primeira... [...]
Era um morto pouco apresentável, cadáver de vagabundo falecido ao azar, sem decência na
morte, sem respeito, rindo-se cinicamente, rindo-se dela, com certeza de Leonardo, do resto da
família. Cadáver para necrotério, para ir no rabecão da polícia servir depois aos alunos da
Faculdade de Medicina nas aulas práticas, ser finalmente enterrado em cova rasa, sem cruz e
sem inscrição. Era o cadáver de Quincas Berro Dágua, cachaceiro, debochado e jogador, sem
família, sem lar, sem flores e sem rezas. Não era Joaquim Soares da Cunha, correto funcionário
da Mesa de Rendas Estadual, aposentado após vinte e cinco anos de bons e leais serviços,
esposo modelar, a quem todos tiravam o chapéu e apertavam a mão.
AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. 44. ed. Rio de Janeiro: Record, 1979. p. 26-27.
O texto apresenta
Umas poucas pessoas, gente da Ladeira, espiavam o cadáver quando Vanda chegou. O
santeiro informava em voz baixa:
— É a filha. Tinha filha, genro, irmãos. Gente distinta. O genro é funcionário, mora em
Itapagipe. Casa de primeira... [...]
Era um morto pouco apresentável, cadáver de vagabundo falecido ao azar, sem decência na
morte, sem respeito, rindo-se cinicamente, rindo-se dela, com certeza de Leonardo, do resto da
família. Cadáver para necrotério, para ir no rabecão da polícia servir depois aos alunos da
Faculdade de Medicina nas aulas práticas, ser finalmente enterrado em cova rasa, sem cruz e
sem inscrição. Era o cadáver de Quincas Berro Dágua, cachaceiro, debochado e jogador, sem
família, sem lar, sem flores e sem rezas. Não era Joaquim Soares da Cunha, correto funcionário
da Mesa de Rendas Estadual, aposentado após vinte e cinco anos de bons e leais serviços,
esposo modelar, a quem todos tiravam o chapéu e apertavam a mão.
AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. 44. ed. Rio de Janeiro: Record, 1979. p. 26-27.
O texto apresenta
A
apreensão objetiva da realidade por meio de um narrador observador distanciado dos fatos e dos
personagens.
B
morte como instrumento de libertação de uma vida socialmente miserável.
C
contraste de ordem social marcando fases distintas da vida do morto.
D
relação pai/filha caracterizada por respeito e afeto sinceros.
E
nivelação dos indivíduos através da morte.
Gabarito comentado
D
Denise FreitasMonitor com apoio de IA
Gabarito: C
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a antítese textual entre duas identidades sociais do mesmo morto, explicitada em: "Era o cadáver de Quincas Berro Dágua, cachaceiro, debochado e jogador, sem família, sem lar, sem flores e sem rezas. Não era Joaquim Soares da Cunha, correto funcionário da Mesa de Rendas Estadual, aposentado após vinte e cinco anos de bons e leais serviços, esposo modelar, a quem todos tiravam o chapéu e apertavam a mão." Esse contraste lexical, valorativo e social marca fases distintas da vida da personagem e conduz diretamente à alternativa C.
Tema central: contraste de identidades sociais
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o narrador não é neutro nem distanciado. O texto traz avaliação explícita em expressões como "morto pouco apresentável", "sem decência na morte" e "rindo-se cinicamente", o que exclui a ideia de apreensão objetiva da realidade. A terceira pessoa aqui não produz objetividade automática.
B
Errada
Está errada porque o excerto não apresenta a morte como libertação. O campo semântico dominante é o da degradação e da indignidade: "sem decência na morte", "para necrotério", "cova rasa, sem cruz e sem inscrição". Esses elementos são incompatíveis com a ideia de morte libertadora.
C
Certa
A alternativa C está correta porque o excerto se organiza pela oposição entre a condição marginal de "Quincas Berro Dágua" e a antiga respeitabilidade de "Joaquim Soares da Cunha". Não se trata de simples mudança de nome: os qualificadores de cada designação constroem dois estatutos sociais incompatíveis, correspondentes a dois momentos da trajetória do mesmo indivíduo. Esse é o eixo de sentido dominante do texto.
D
Errada
Está errada porque o trecho não caracteriza a relação pai/filha por respeito e afeto sinceros. A presença da filha na cena não basta para essa conclusão, e a descrição do cadáver e da situação aponta antes para constrangimento e tensão familiar. Não há marcas textuais de afeto recíproco que sustentem a alternativa.
E
Errada
Está errada porque o texto não nivela os indivíduos pela morte; faz exatamente o contrário. O excerto insiste em distinguir socialmente as duas imagens do morto, contrapondo o marginal "Quincas Berro Dágua" ao respeitável "Joaquim Soares da Cunha". O foco não é uma universalização da morte, mas um contraste social específico.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar a narração em terceira pessoa como sinal de objetividade e trocar o núcleo do excerto por uma reflexão genérica sobre a morte, quando o texto está centrado na oposição entre duas imagens sociais do mesmo personagem.
Dica para questões semelhantes
- Identifique se o texto se organiza por contraste; aqui, a oposição entre duas nomeações do mesmo personagem é o centro da construção de sentido.
- Não trate terceira pessoa como sinônimo de narrador neutro; procure marcas de avaliação no vocabulário.
- Evite generalizações temáticas sobre morte, família ou condição humana quando o excerto focaliza uma situação e uma personagem específicas.






