Questão 3ff8b753-df
Prova:UNIR 2008
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Sobre a crônica, assinale a afirmativa correta.
Sobre a crônica, assinale a afirmativa correta.
Mendigo
Eu estava diante de uma banca de jornais na Avenida, quando a mão do mendigo se estendeu. Dei-lhe uma nota
tão suja e tão amassada quanto ele. Guardou-a no bolso, agradeceu com um seco obrigado e começou a ler as manchetes
dos vespertinos. Depois me disse: - Não acredito um pingo em jornalistas. São muito mentirosos. Mas tá certo: mentem para ganhar a vida. O
importante é o homem ganhar a vida, o resto é besteira.
Calou-se e continuou a ler as notícias eleitorais:
- O Brasil ainda não teve um governo que prestasse. Nem rei, nem presidente. Tudo uma cambada só.
Reconheceu algumas qualidades nessa ou naquela figura (aliás, com invulgar pertinência para um mendigo), mas
isso, a seu ver, não queria dizer nada:
- O problema é o fundo da coisa: o caso é que o homem não presta. Ora, se o homem não presta, todos os futuros
presidentes serão ruínas. A natureza humana é que é de barro ordinário. Meu pai, por exemplo, foi um homem bastante
bom. Mas não deu certo ser bom durante muito tempo: então ele virou ruim.
Suspeitando de que eu não estivesse convencido da sua teoria, passou a demonstrar para mim que também ele era
um sujeito ordinário como os outros:
- O senhor não vê? Estou aqui pedindo esmola, quando poderia estar trabalhando. Eu não tenho defeito físico
nenhum e até que não posso me queixar da saúde.
Tirei do bolso uma nota de cinqüenta e lhe ofereci pela sua franqueza.
- Muito obrigado, moço, mas não vá pensar que eu vou tirar o senhor da minha teoria. Vai me desculpar, mas o
senhor também no fundo é igualzinho aos outros. Aliás, quer saber de uma coisa? Houve um homem de fato bom.
Chamava-se Jesus Cristo. Mas o senhor viu o que fizeram com ele?
(Para gostar de ler. Vol. 2. São Paulo: Ática, 1978.)
Mendigo
Eu estava diante de uma banca de jornais na Avenida, quando a mão do mendigo se estendeu. Dei-lhe uma nota
tão suja e tão amassada quanto ele. Guardou-a no bolso, agradeceu com um seco obrigado e começou a ler as manchetes
dos vespertinos. Depois me disse:
- Não acredito um pingo em jornalistas. São muito mentirosos. Mas tá certo: mentem para ganhar a vida. O
importante é o homem ganhar a vida, o resto é besteira.
Calou-se e continuou a ler as notícias eleitorais:
- O Brasil ainda não teve um governo que prestasse. Nem rei, nem presidente. Tudo uma cambada só.
Reconheceu algumas qualidades nessa ou naquela figura (aliás, com invulgar pertinência para um mendigo), mas
isso, a seu ver, não queria dizer nada:
- O problema é o fundo da coisa: o caso é que o homem não presta. Ora, se o homem não presta, todos os futuros
presidentes serão ruínas. A natureza humana é que é de barro ordinário. Meu pai, por exemplo, foi um homem bastante
bom. Mas não deu certo ser bom durante muito tempo: então ele virou ruim.
Suspeitando de que eu não estivesse convencido da sua teoria, passou a demonstrar para mim que também ele era
um sujeito ordinário como os outros:
- O senhor não vê? Estou aqui pedindo esmola, quando poderia estar trabalhando. Eu não tenho defeito físico
nenhum e até que não posso me queixar da saúde.
Tirei do bolso uma nota de cinqüenta e lhe ofereci pela sua franqueza.
- Muito obrigado, moço, mas não vá pensar que eu vou tirar o senhor da minha teoria. Vai me desculpar, mas o
senhor também no fundo é igualzinho aos outros. Aliás, quer saber de uma coisa? Houve um homem de fato bom.
Chamava-se Jesus Cristo. Mas o senhor viu o que fizeram com ele?
(Para gostar de ler. Vol. 2. São Paulo: Ática, 1978.)
A
Intenciona levar o leitor a refletir sobre a relação homem e qualidade de vida.
B
Aborda um momento na vida do mendigo, leitor de jornais, que se posiciona frente às manchetes.
C
Contrasta características inerentes a presidentes com as inerentes a jornalistas.
D
A fala do mendigo, ao usar a si mesmo como exemplo de sujeito ruim, é um argumento incoerente.
E
O cronista, no final do texto, mantém a mesma percepção do mendigo tida no início.
Gabarito comentado
C
Carlos AlvarezMonitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: O critério decisivo é identificar o recorte narrativo apresentado na crônica: o encontro com o mendigo diante da banca e sua leitura das manchetes. O trecho “Dei-lhe uma nota tão suja e tão amassada quanto ele. Guardou-a no bolso, agradeceu com um seco obrigado e começou a ler as manchetes dos vespertinos. Depois me disse:” fixa essa situação central e mostra que a alternativa correta deve corresponder a esse episódio.
Tema central: mendigo leitor de jornais
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa extrapola o tema. O texto não se organiza em torno da relação entre homem e qualidade de vida; seu eixo é a cena do mendigo lendo jornais e formulando uma visão pessimista sobre jornalistas, governantes e a natureza humana. Associar a presença do mendigo a uma discussão ampla sobre qualidade de vida não tem apoio textual suficiente.
B
Certa
A alternativa B é correta porque traduz o episódio narrado sem extrapolações: o texto mostra um mendigo que lê jornais e, a partir dessa leitura, comenta o que vê nas manchetes e nas notícias eleitorais. Isso é evidenciado por “começou a ler as manchetes dos vespertinos” e “Calou-se e continuou a ler as notícias eleitorais”, que delimitam o foco da crônica.
C
Errada
A alternativa erra a organização argumentativa do texto. Não há contraste entre características inerentes a presidentes e a jornalistas. As referências a jornalistas e governantes são exemplos dentro de uma tese mais ampla do personagem, explicitada em “o homem não presta”. Portanto, o texto não opõe dois grupos; subordina ambos a uma crítica geral à natureza humana.
D
Errada
A alternativa atribui incoerência onde há coerência interna. Quando o mendigo diz que também ele é “um sujeito ordinário como os outros”, ele não contradiz sua tese; ele a reforça, incluindo a si mesmo como prova de que o defeito está no ser humano em geral. O próprio texto marca isso ao dizer que ele “passou a demonstrar para mim que também ele era um sujeito ordinário como os outros”.
E
Errada
A alternativa afirma algo não explicitado. O texto não autoriza concluir que o cronista mantém ao final exatamente a mesma percepção inicial do mendigo. Há até um sinal de deslocamento no comentário “com invulgar pertinência para um mendigo”, mas não existe formulação conclusiva que comprove permanência da mesma visão. Logo, a assertiva depende de inferência além do que o texto permite.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de abandonar a cena concreta da crônica e substituir o foco textual por temas genéricos ou inferências amplas: questão social, contraste entre grupos ou leitura da mente do narrador. O acerto depende de ficar no que o texto efetivamente mostra como núcleo da narrativa.
Dica para questões semelhantes
- Identifique primeiro a situação central narrada antes de aceitar alternativas com temas mais amplos.
- Verifique se a alternativa sintetiza o texto inteiro ou se força um recorte secundário como se fosse o principal.
- Não chame de incoerente uma fala que, no próprio texto, funciona como reforço da tese do personagem.
- Não atribua ao narrador conclusões psicológicas ou mudanças de percepção sem marca textual explícita.






