Questão 3f749861-b0
Prova:PUC-MINAS 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Assinale a alternativa que traz consideração analítica adequada sobre o texto.
Assinale a alternativa que traz consideração analítica adequada sobre o texto.
O FASCÍNIO DO ÃORoberto Pompeu de Toledo
1º § O novo estádio do Corinthians, em São Paulo, em tese destinado à abertura da Copa do Mundo de 2014, é
por enquanto um rasgo de imaginação sobre um terreno baldio, mas já tem nome de guerra. O leitor adivinha qual
é? Aí vai uma pista: o local escolhido é o bairro de Itaquera. Agora ficou fácil. O nome é Itaquerão, claro. Antes, os
estádios precisavam ao menos ser construídos, para receber o enobrecimento do “ão” na última sílaba do apelido.
Não mais. Não se sabe sequer quem vai pagar a conta do estádio, ou suposto estádio, do Corinthians, nem existe
projeto definido. Mas o nome já lhe foi pespegado.
2º § O uso do aumentativo para designar estádios de futebol começou com a inauguração, em 1965, do
Mineirão, em Belo Horizonte – oficialmente Estádio Magalhães Pinto, mas desde o primeiro momento, e para
sempre, Mineirão. Fazia sentido. O majestoso Mineirão, com capacidade para 130000 pessoas, nascia como o
segundo estádio brasileiro, só atrás do Maracanã, “o maior do mundo”. Dali em diante, a moda pegou, e a febre de
construção de estádios que assolou o país, a partir do “milagre brasileiro” [...], espalhou ãos pelo país afora.
3º § Era uma questão de honra, para os governadores, construir estádios na capital do estado. A exemplo do
caso mineiro, o governador que iniciasse as obras ganhava, por direito divino, o mimo de ter o nome emprestado
ao do colosso. Mas as homenagens devidas ao governador, à cidade, ao estado e ao estádio não estariam
completas se ao nome não se juntasse um apelido em que se engatasse um ão. Seguiu-se uma floração da qual
constaram, entre outros, o Batistão de Aracaju (Estádio Lourival Batista, 1969), o Castelão de Fortaleza (Estádio
Plácido Castelo, 1973), o Albertão de Teresina (Estádio Alberto Silva, 1976) e o Castelão de São Luís (Estádio
João Castelo, 1982). Os estádios, assim como o próprio campeonato brasileiro de futebol, que chegou a abrigar
quarenta clubes, em 1973, para agradar ao maior número de praças possível, integravam a estratégia panem et
circenses do regime. Sendo que, no caso dos estádios, o circenses incluía um ão que convenientemente
espelhava a grandeza da Pátria Grande concebida para embalar a fantasia dos brasileiros.
4º § Tal era sua força que o ão se disseminou por cidades do interior. Em Presidente Prudente, interior de São
Paulo, surgiu o Prudentão (1982), um entre muitos exemplos. Com o fim do regime militar, ou, antes, com o fim do
milagre econômico e de sua contrapartida de Pátria Grande, transcorreram mais de duas décadas de seca na
construção de estádios. Mesmo porque, nos centros mais óbvios, ou mais vistosos, sob o ponto de vista político, já
tinham sido todos construídos. Mas não desapareceu a memória do ão. Quando, para os Jogos Pan-Americanos,
em 2007, foi inaugurado no Rio de Janeiro o Estádio João Havelange, que apelido ganhou? O leitor não adivinha?
Pista: fica no bairro de Engenho de Dentro. Claro: é Engenhão. No caso do eventual e futuro estádio do
Corinthians, o apelido de ltaquerão prova que o ão sobrevive mesmo à moda recente de chamar estádio de
“arena” (Arena da Baixada, Arena Barueri). E no entanto...
5º § No entanto, o inho é que melhor caracterizaria o brasileiro. Sérgio Buarque de Holanda escreveu, no
clássico Raízes do Brasil (um pouco de erudição faz bem, especialmente ao autor, que se convence de estar
falando coisa séria): “A terminação inho, aposta às palavras, serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou
os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relevo. É a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e
também de aproximá-los do coração”. A passagem está no famoso capítulo do “homem cordial”, isto é, o homem
regido pelo coração, que seria o brasileiro.
6º § [...] Somos a terra do jeitinho, do favorzinho e do probleminha, invocados sobretudo quando o jeito é
complicado, o favor é grande e o problema insolúvel. Por esse caminho, para melhor se aninhar no coração dos
brasileiros, o Mineirão deveria ser Mineirinho, o Castelão, Castelinho e o Batistão, Batistinha. Ocorre que estádios pertencem a outra esfera. Não foram feitos para cativar, mas para impressionar. Não pedem carinho, mas
reverência, a si mesmos e a seus criadores. Cumprem no Brasil o que há de mais próximo ao papel das catedrais
e das pirâmides, em outras épocas e lugares. Mesmo no caso de uma entidade que é puro espírito, como o
propalado estádio do Corinthians, o brasileiro é levado a considerar uma indelicadeza não chamá-lo de ão.(Veja, 9 mar. 2011, p. 102.)
O FASCÍNIO DO ÃO
Roberto Pompeu de Toledo
1º § O novo estádio do Corinthians, em São Paulo, em tese destinado à abertura da Copa do Mundo de 2014, é
por enquanto um rasgo de imaginação sobre um terreno baldio, mas já tem nome de guerra. O leitor adivinha qual
é? Aí vai uma pista: o local escolhido é o bairro de Itaquera. Agora ficou fácil. O nome é Itaquerão, claro. Antes, os
estádios precisavam ao menos ser construídos, para receber o enobrecimento do “ão” na última sílaba do apelido.
Não mais. Não se sabe sequer quem vai pagar a conta do estádio, ou suposto estádio, do Corinthians, nem existe
projeto definido. Mas o nome já lhe foi pespegado.
2º § O uso do aumentativo para designar estádios de futebol começou com a inauguração, em 1965, do
Mineirão, em Belo Horizonte – oficialmente Estádio Magalhães Pinto, mas desde o primeiro momento, e para
sempre, Mineirão. Fazia sentido. O majestoso Mineirão, com capacidade para 130000 pessoas, nascia como o
segundo estádio brasileiro, só atrás do Maracanã, “o maior do mundo”. Dali em diante, a moda pegou, e a febre de
construção de estádios que assolou o país, a partir do “milagre brasileiro” [...], espalhou ãos pelo país afora.
3º § Era uma questão de honra, para os governadores, construir estádios na capital do estado. A exemplo do
caso mineiro, o governador que iniciasse as obras ganhava, por direito divino, o mimo de ter o nome emprestado
ao do colosso. Mas as homenagens devidas ao governador, à cidade, ao estado e ao estádio não estariam
completas se ao nome não se juntasse um apelido em que se engatasse um ão. Seguiu-se uma floração da qual
constaram, entre outros, o Batistão de Aracaju (Estádio Lourival Batista, 1969), o Castelão de Fortaleza (Estádio
Plácido Castelo, 1973), o Albertão de Teresina (Estádio Alberto Silva, 1976) e o Castelão de São Luís (Estádio
João Castelo, 1982). Os estádios, assim como o próprio campeonato brasileiro de futebol, que chegou a abrigar
quarenta clubes, em 1973, para agradar ao maior número de praças possível, integravam a estratégia panem et
circenses do regime. Sendo que, no caso dos estádios, o circenses incluía um ão que convenientemente
espelhava a grandeza da Pátria Grande concebida para embalar a fantasia dos brasileiros.
4º § Tal era sua força que o ão se disseminou por cidades do interior. Em Presidente Prudente, interior de São
Paulo, surgiu o Prudentão (1982), um entre muitos exemplos. Com o fim do regime militar, ou, antes, com o fim do
milagre econômico e de sua contrapartida de Pátria Grande, transcorreram mais de duas décadas de seca na
construção de estádios. Mesmo porque, nos centros mais óbvios, ou mais vistosos, sob o ponto de vista político, já
tinham sido todos construídos. Mas não desapareceu a memória do ão. Quando, para os Jogos Pan-Americanos,
em 2007, foi inaugurado no Rio de Janeiro o Estádio João Havelange, que apelido ganhou? O leitor não adivinha?
Pista: fica no bairro de Engenho de Dentro. Claro: é Engenhão. No caso do eventual e futuro estádio do
Corinthians, o apelido de ltaquerão prova que o ão sobrevive mesmo à moda recente de chamar estádio de
“arena” (Arena da Baixada, Arena Barueri). E no entanto...
5º § No entanto, o inho é que melhor caracterizaria o brasileiro. Sérgio Buarque de Holanda escreveu, no
clássico Raízes do Brasil (um pouco de erudição faz bem, especialmente ao autor, que se convence de estar
falando coisa séria): “A terminação inho, aposta às palavras, serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou
os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relevo. É a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e
também de aproximá-los do coração”. A passagem está no famoso capítulo do “homem cordial”, isto é, o homem
regido pelo coração, que seria o brasileiro.
6º § [...] Somos a terra do jeitinho, do favorzinho e do probleminha, invocados sobretudo quando o jeito é
complicado, o favor é grande e o problema insolúvel. Por esse caminho, para melhor se aninhar no coração dos
brasileiros, o Mineirão deveria ser Mineirinho, o Castelão, Castelinho e o Batistão, Batistinha. Ocorre que estádios pertencem a outra esfera. Não foram feitos para cativar, mas para impressionar. Não pedem carinho, mas
reverência, a si mesmos e a seus criadores. Cumprem no Brasil o que há de mais próximo ao papel das catedrais
e das pirâmides, em outras épocas e lugares. Mesmo no caso de uma entidade que é puro espírito, como o
propalado estádio do Corinthians, o brasileiro é levado a considerar uma indelicadeza não chamá-lo de ão.
(Veja, 9 mar. 2011, p. 102.)
A
O objetivo central do texto é criticar o apreço dos brasileiros pelo futebol, o que se manifesta sobretudo pela
forma de referência aos estádios.
B
O autor traz pistas de que o uso do aumentativo para os nomes dos estádios funcionaria como uma espécie
de metonímia dos seus criadores.
C
A explicação que o autor apresenta, no primeiro período do 6º parágrafo, para o uso do diminutivo exemplifica
a função do “-inho” descrita por Sérgio Buarque de Holanda.
D
A ironia se manifesta fundamentalmente na crítica ao resultado semântico que o “ão” imprime ao substantivo
ao qual se acopla.
Gabarito comentado
I
Irene Barreto Monitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a inferência textual autorizada sobre a função discursiva do “-ão” na nomeação dos estádios. No 3º parágrafo, o texto afirma: “A exemplo do caso mineiro, o governador que iniciasse as obras ganhava, por direito divino, o mimo de ter o nome emprestado ao do colosso. Mas as homenagens devidas ao governador, à cidade, ao estado e ao estádio não estariam completas se ao nome não se juntasse um apelido em que se engatasse um ão.” Assim, o aumentativo integra uma cadeia de homenagem e remissão ao criador político, o que sustenta a alternativa B.
Tema central: valor discursivo do -ão
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra o eixo temático do texto. O texto não tem como objetivo central criticar o apreço dos brasileiros pelo futebol; seu foco é o uso do “-ão” como marca de monumentalização, homenagem política e encenação de grandeza em torno dos estádios. Confundir “texto sobre estádios de futebol” com “crítica ao gosto nacional pelo futebol” desloca a tese textual.
B
Certa
A alternativa B está correta porque o texto permite ler o aumentativo dos nomes dos estádios como representação indireta de seus criadores e homenageados políticos. O estádio recebe o nome ligado ao governador, e o apelido em “-ão” completa essa homenagem. Além disso, o texto associa esses nomes à monumentalização e à encenação de grandeza política, como em “o circenses incluía um ão que convenientemente espelhava a grandeza da Pátria Grande” e em “Não pedem carinho, mas reverência, a si mesmos e a seus criadores.” Por isso, a formulação “como uma espécie de metonímia” é compatível com a leitura inferencial sustentada pelo texto.
C
Errada
A alternativa reduz indevidamente o 1º período do 6º parágrafo a simples exemplificação da definição de Sérgio Buarque de Holanda. No texto, “jeitinho”, “favorzinho” e “probleminha” aparecem com inflexão crítica e irônica, sobretudo porque são usados “quando o jeito é complicado, o favor é grande e o problema insolúvel”. Portanto, o diminutivo aí não apenas familiariza ou aproxima afetivamente; ele também ameniza e torna mais palatáveis situações complexas, o que não coincide integralmente com a formulação citada.
D
Errada
A alternativa erra o alvo principal da ironia. A ironia do texto não se concentra fundamentalmente em criticar o efeito semântico abstrato do sufixo “-ão” sobre o substantivo. O alvo discursivo é a grandiloquência política, a lógica de homenagem aos criadores, a fantasia de grandeza nacional e até o caráter propagandístico ou imaginário de certos estádios. Reduzir isso a uma crítica ao sufixo em si empobrece o funcionamento da ironia no texto.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: levar o tema “estádios de futebol” para uma suposta crítica ao futebol e interpretar “metonímia” de modo rígido demais, ignorando que a alternativa fala em “como uma espécie de metonímia”, isto é, uma leitura analítica inferida do texto, não uma classificação retórica literal dada pelo autor.
Dica para questões semelhantes
- Identifique primeiro a tese central do texto; não troque o tema aparente por outro mais amplo ou genérico.
- Quando a alternativa usar expressão mitigada, como “funcionaria como” ou “uma espécie de”, verifique se o texto autoriza a inferência, mesmo sem nomeá-la tecnicamente.
- Separe valor morfológico do sufixo e valor discursivo no contexto: aqui o “-ão” não é só aumentativo, mas parte de uma lógica de exaltação política.
- Em textos irônicos, localize o alvo da ironia no projeto discursivo do autor, não apenas na palavra isolada.






