Questão 3edbeae6-36
Prova:UFMT 2012
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
No texto, duas narrativas entrecruzam- se: a história vivida pelo narrador e a história encenada na peça Otelo. A semelhança entre elas reside no fato de que ambas
No texto, duas narrativas entrecruzam- se: a história vivida pelo narrador e a história encenada na peça Otelo. A semelhança entre elas reside no fato de que ambas
Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representavase justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço, - um simples lenço! - e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderamse, hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há, e valem só as camisas. Tais eram as ideias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira; não queria expor- me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou- me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.
(Machado de Assis, Dom Casmurro.)
Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representavase justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço, - um simples lenço! - e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderamse, hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há, e valem só as camisas. Tais eram as ideias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira; não queria expor- me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou- me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.
(Machado de Assis, Dom Casmurro.)
(Machado de Assis, Dom Casmurro.)
A
têm em um simples lenço a motivação para o homem sentir ciúmes e desprezo por sua amada.
B
baseiam- se nos ciúmes, devido a uma suspeita de traição praticada pela mulher amada.
C
adquirem status de tragédia, pois se descobre que é fato o que se pensava apenas calúnia.
D
fazem os homens apaixonados tornarem-se cúmplices de uma situação que condenam.
E
condenam à morte as mulheres, como forma de vingar o amor traído e desprezado.
Gabarito comentado
H
Heitor Vasconcelos Monitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a semelhança temática entre as duas narrativas, e não o detalhe particular do lenço em Otelo: o texto explicita que “um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo” e, ao final, ao dizer “O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer.”, autoriza a leitura de que o narrador projeta sua própria história na mesma estrutura de ciúme masculino ligado à suspeita de infidelidade da mulher amada; por isso, a alternativa B é a correta.
Tema central: ciúme e suspeita de traição
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por transformar um elemento particular de Otelo em semelhança entre as duas narrativas. O texto só atribui ao lenço a função de acender os ciúmes de Otelo; isso não aparece como motivo da história do narrador. Além disso, acrescenta "desprezo", sentido que não está sustentado no trecho, que fala em ciúmes e suspeita, não em desprezo pela amada.
B
Certa
A alternativa B acerta porque formula o ponto comum que o trecho constrói entre a peça e a vida do narrador: em Otelo, os ciúmes são explicitamente apresentados; na narrativa do narrador, a identificação aparece quando ele associa Capitu a Desdêmona e a si mesmo à posição do homem tomado pela suspeita. Assim, a semelhança não está em um objeto específico nem em um desfecho idêntico, mas na estrutura emocional do ciúme ligado à suspeita de traição da mulher amada.
C
Errada
A alternativa introduz uma descoberta factual de traição que o texto não autoriza. O trecho menciona que "Iago destilava a sua calúnia", o que afasta a ideia de comprovação da culpa feminina. A aproximação entre as duas narrativas se dá pela suspeita e pelo ciúme, não pela revelação de que a acusação era verdadeira.
D
Errada
A alternativa atribui aos homens uma cumplicidade com uma situação que condenam, mas não há base textual para essa relação. O que o trecho mostra é identificação emocional e projeção do narrador sobre a peça, não cumplicidade moral ou prática com algo que ele próprio reprovaria.
E
Errada
A alternativa generaliza indevidamente a morte da mulher para as duas narrativas. Em Otelo, Desdêmona de fato morre; na história do narrador, há apenas a projeção subjetiva "Capitu devia morrer", não um acontecimento efetivo. Além disso, a explicação causal "como forma de vingar o amor traído e desprezado" acrescenta "vingança" e "desprezado", elementos não textualizados.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre detalhe específico e estrutura comum: o lenço chama atenção, mas é particular de Otelo; a semelhança verdadeira entre as duas narrativas está no ciúme fundado em suspeita, não em traição comprovada nem em desfecho idêntico.
Dica para questões semelhantes
- Quando o enunciado pedir semelhança entre duas narrativas, procure o eixo temático comum, não o detalhe mais chamativo de apenas uma delas.
- Diferencie suspeita de fato comprovado: se o texto não confirma a traição, a leitura correta deve preservar esse limite.
- Verifique se a alternativa transforma projeção subjetiva do narrador em acontecimento efetivo; essa troca costuma invalidar a opção.






