Questão 3c5de591-ed
Prova:CÁSPER LÍBERO 2012
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Assinale a opção que identifica corretamente o argumento central do texto:
Assinale a opção que identifica corretamente o argumento central do texto:
Leia o texto a seguir e responda à questão.
Jeitinho e jeitão: uma tentativa de interpretação do caráter brasileiro
Nascido inicialmente das contradições entre uma ordem liberal formal e uma realidade
escravista, o jeitinho transformou-se em código geral de sociabilidade.
Recordo um caso pessoal, passado há muito tempo. Eu trabalhava com Celso Furtado
(rigorosamente antijeitinho), que recebia um diretor do Banco Interamericano de
Desenvolvimento, por sinal um conterrâneo seu. Este, vendo-me por perto, e julgando que
eu não era parte da conversa, pediu-me água. Pediu a primeira, a segunda e a terceira vez.
Fui obrigado a dizer-lhe que não confundisse gentileza com servilismo, e que da próxima vez
ele mesmo se servisse. Não ocorria àquele senhor que alguém que não fosse da sua grei
pudesse tomar parte de uma conversa com altos representantes da banca interamericana.
A origem do jeitinho, assim como a da cordialidade teorizada por Sérgio Buarque, se explica
pela incompletude das relações mercantis capitalistas. Parece sempre que as pessoas estão
“sobrando”. Elas são como que resquícios de relações não mercantis, não cabem no universo
da civilidade. E às pessoas que sobram pode ser pedida qualquer coisa, já que é obrigação do
dominado servir ao dominante.
Qualquer reunião brasileira está cheia de batidinhas nas costas na hora do cumprimento,
impondo logo de saída uma intimidade que é intimatória e intimidatória. Um dos
cumprimentos mais característicos de Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, é bater com as
costas da mão na barriga dos interlocutores. Mesmo em encontros formais, o primeiro gesto
de Lula ao se aproximar de qualquer pessoa é tocar-lhe a barriga.
A matriz desses gestos encontra-se evidentemente no longo período escravagista. Nele, o corpo
dos negros era propriedade, podia ser tocado e usado. O surpreendente é que esses gestos e
costumes tenham persistido ao longo de 100 anos de vigência de um capitalismo pleno.
O escravismo e a escravidão não explicam inteiramente a “longa duração” da informalidade
generalizada e dos hábitos que a acompanham. Os Estados Unidos tiveram um sistema
escravista que chegou até a organizar fazendas de criação de negros. A ruptura com o
escravismo custou à nação norte-americana uma guerra civil que deixou marcas até hoje.
Mas o jeitinho não foi o expediente que usaram para superar os problemas colocados pelo
capitalismo que avança.
Aqui, o jeitinho das classes dominantes se impôs na abolição da escravatura. Primeiro veio a
Lei do Ventre Livre: garotos e garotas negros eram libertados em meio à escravidão. Mas
como inexistia a perspectiva de terem terra, emprego ou salário, a libertação não lhes servia
para quase nada. Depois veio a Lei dos Sexagenários. Aos 60 anos, os negros que ainda estivessem vivos
eram libertados. Ora, já se sabia que a vida média de um escravo não alcançava os 40 anos.
Como mostrou Luiz Felipe de Alencastro em O Tratado dos Viventes, depois de décadas
de labuta no eito, o consumo do trabalho pelo capital não era uma metáfora: o negro
era um molambo de gente, e não um homem livre, mesmo quando libertado pela Lei dos
Sexagenários.
O que parecia cautela e previsão era, na verdade, o jeitinho (e o jeitão) em movimento.
Gradualmente, até a chamada Lei Áurea, a escravidão persistiu. Isso criou uma
superpopulação trabalhadora que o sistema produtivo não tinha como incorporar. Com a
industrialização, tão sonhada pelos modernos, o problema se agravou. Tendo que copiar
uma industrialização de matriz exógena, que tende sempre à economia do trabalho, os
excedentes populacionais cresceram exponencialmente.
Assim, o chamado trabalho informal tornou-se estrutural no capitalismo brasileiro. É ele
que regula a taxa de salários, e não as normas trabalhistas fundadas por Vargas. A partir daí
todas as burlas são permitidas e estimuladas. A pergunta que um candidato a emprego mais
ouve é: com carteira ou sem carteira? O funcionário com carteira resulta em descontos para
a Previdência. Ou, se o salário for um pouquinho melhor, até para o Imposto de Renda. A
resposta do candidato ao emprego é óbvia: sem carteira.
Quando o trabalhador ou trabalhadora que têm consciência dos seus direitos recusam o
emprego sem carteira, às vezes, escutam “malandro, não quer trabalhar”.
Em qualquer setor, em qualquer atividade, o jeitinho se impõe. O executivo de terno italiano
de grife, o apresentador da televisão e a atriz de um musical não são assalariados. São pessoas
jurídicas, PJs, unicamente para que empresas paguem menos impostos. Advogados, dentistas
e prestadores de serviços oferecem seus préstimos com ou sem recibo, e esse último é mais
barato. Bancários, telefonistas, vendedores e outras tantas categorias viram sua profissão
periclitar: eles são agora atendentes de call centers, terceirizados por grandes empresas.
O jeitinho é a regra não escrita, sem exigência legal, mas seguida ao pé da letra nas relações
micro e macrossociais. Está tão estabelecido, é tão natural que estranhá-lo (hoje menos do
que ontem, reconheça-se) pode ser entendido como pedantismo, arrogância ou ignorância:
“Nego metido a besta”, é a sentença. A não resolução da questão do trabalho, o seu
estatuto social, é no fundo a matriz do jeitinho. Simpático, ele é uma das maiores marcas do
moderno atraso brasileiro. (Francisco de Oliveira, revista piauí n. 73, outubro 2012, excerto).
Leia o texto a seguir e responda à questão.
Jeitinho e jeitão: uma tentativa de interpretação do caráter brasileiro
Nascido inicialmente das contradições entre uma ordem liberal formal e uma realidade
escravista, o jeitinho transformou-se em código geral de sociabilidade.
Recordo um caso pessoal, passado há muito tempo. Eu trabalhava com Celso Furtado
(rigorosamente antijeitinho), que recebia um diretor do Banco Interamericano de
Desenvolvimento, por sinal um conterrâneo seu. Este, vendo-me por perto, e julgando que
eu não era parte da conversa, pediu-me água. Pediu a primeira, a segunda e a terceira vez.
Fui obrigado a dizer-lhe que não confundisse gentileza com servilismo, e que da próxima vez
ele mesmo se servisse. Não ocorria àquele senhor que alguém que não fosse da sua grei
pudesse tomar parte de uma conversa com altos representantes da banca interamericana.
A origem do jeitinho, assim como a da cordialidade teorizada por Sérgio Buarque, se explica
pela incompletude das relações mercantis capitalistas. Parece sempre que as pessoas estão
“sobrando”. Elas são como que resquícios de relações não mercantis, não cabem no universo
da civilidade. E às pessoas que sobram pode ser pedida qualquer coisa, já que é obrigação do
dominado servir ao dominante.
Qualquer reunião brasileira está cheia de batidinhas nas costas na hora do cumprimento,
impondo logo de saída uma intimidade que é intimatória e intimidatória. Um dos
cumprimentos mais característicos de Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, é bater com as
costas da mão na barriga dos interlocutores. Mesmo em encontros formais, o primeiro gesto
de Lula ao se aproximar de qualquer pessoa é tocar-lhe a barriga.
A matriz desses gestos encontra-se evidentemente no longo período escravagista. Nele, o corpo
dos negros era propriedade, podia ser tocado e usado. O surpreendente é que esses gestos e
costumes tenham persistido ao longo de 100 anos de vigência de um capitalismo pleno.
O escravismo e a escravidão não explicam inteiramente a “longa duração” da informalidade
generalizada e dos hábitos que a acompanham. Os Estados Unidos tiveram um sistema
escravista que chegou até a organizar fazendas de criação de negros. A ruptura com o
escravismo custou à nação norte-americana uma guerra civil que deixou marcas até hoje.
Mas o jeitinho não foi o expediente que usaram para superar os problemas colocados pelo
capitalismo que avança.
Aqui, o jeitinho das classes dominantes se impôs na abolição da escravatura. Primeiro veio a
Lei do Ventre Livre: garotos e garotas negros eram libertados em meio à escravidão. Mas
como inexistia a perspectiva de terem terra, emprego ou salário, a libertação não lhes servia
para quase nada.
Depois veio a Lei dos Sexagenários. Aos 60 anos, os negros que ainda estivessem vivos
eram libertados. Ora, já se sabia que a vida média de um escravo não alcançava os 40 anos.
Como mostrou Luiz Felipe de Alencastro em O Tratado dos Viventes, depois de décadas
de labuta no eito, o consumo do trabalho pelo capital não era uma metáfora: o negro
era um molambo de gente, e não um homem livre, mesmo quando libertado pela Lei dos
Sexagenários.
O que parecia cautela e previsão era, na verdade, o jeitinho (e o jeitão) em movimento.
Gradualmente, até a chamada Lei Áurea, a escravidão persistiu. Isso criou uma
superpopulação trabalhadora que o sistema produtivo não tinha como incorporar. Com a
industrialização, tão sonhada pelos modernos, o problema se agravou. Tendo que copiar
uma industrialização de matriz exógena, que tende sempre à economia do trabalho, os
excedentes populacionais cresceram exponencialmente.
Assim, o chamado trabalho informal tornou-se estrutural no capitalismo brasileiro. É ele
que regula a taxa de salários, e não as normas trabalhistas fundadas por Vargas. A partir daí
todas as burlas são permitidas e estimuladas. A pergunta que um candidato a emprego mais
ouve é: com carteira ou sem carteira? O funcionário com carteira resulta em descontos para
a Previdência. Ou, se o salário for um pouquinho melhor, até para o Imposto de Renda. A
resposta do candidato ao emprego é óbvia: sem carteira.
Quando o trabalhador ou trabalhadora que têm consciência dos seus direitos recusam o
emprego sem carteira, às vezes, escutam “malandro, não quer trabalhar”.
Em qualquer setor, em qualquer atividade, o jeitinho se impõe. O executivo de terno italiano
de grife, o apresentador da televisão e a atriz de um musical não são assalariados. São pessoas
jurídicas, PJs, unicamente para que empresas paguem menos impostos. Advogados, dentistas
e prestadores de serviços oferecem seus préstimos com ou sem recibo, e esse último é mais
barato. Bancários, telefonistas, vendedores e outras tantas categorias viram sua profissão
periclitar: eles são agora atendentes de call centers, terceirizados por grandes empresas.
O jeitinho é a regra não escrita, sem exigência legal, mas seguida ao pé da letra nas relações
micro e macrossociais. Está tão estabelecido, é tão natural que estranhá-lo (hoje menos do
que ontem, reconheça-se) pode ser entendido como pedantismo, arrogância ou ignorância:
“Nego metido a besta”, é a sentença. A não resolução da questão do trabalho, o seu
estatuto social, é no fundo a matriz do jeitinho. Simpático, ele é uma das maiores marcas do
moderno atraso brasileiro. (Francisco de Oliveira, revista piauí n. 73, outubro 2012, excerto).
A
O jeitinho brasileiro nasceu durante a escravidão, quando o corpo dos negros era
propriedade dos senhores e podia ser tocado e usado, dando origem a uma série de gestos
e costumes que persistiram ao longo do século XX, no qual o capitalismo brasileiro se
estabeleceu.
B
O trabalho informal tornou-se estrutural no capitalismo brasileiro, regulando a taxa de
salários e desrespeitando as normas trabalhistas criadas por Getúlio Vargas. A origem desse
processo remonta ao fim da escravidão, quando burlar as normas passou a ser permitido e
estimulado.
C
As regras não escritas do jeitinho brasileiro são seguidas de maneira tão rigorosa pela
sociedade brasileira que todo aquele que se recusa a praticá-lo acaba sendo tachado de
pedante, arrogante ou ignorante.
D
Com a modernização da sociedade brasileira, a industrialização, de matriz exógena,
privilegiou a economia do trabalho, levando os excedentes populacionais a um crescimento
desordenado que lhes causou a falta de emprego formal.
E
O jeitinho – cuja origem remonta às contradições entre uma ordem liberal formal e
uma realidade escravista e pode ser explicada pela incompletude das relações mercantis
capitalistas – transformou-se em código geral das relações sociais no Brasil.
Gabarito comentado
A
Arthur DominatoMentor Qconcursos
Gabarito: E
Fundamento decisivo: O critério decisivo é identificar a tese mais abrangente do texto, explicitada no trecho “Nascido inicialmente das contradições entre uma ordem liberal formal e uma realidade escravista, o jeitinho transformou-se em código geral de sociabilidade.” Como a questão pede o argumento central, prevalece a formulação que reúne origem histórica e generalização social do fenômeno, o que torna correta a alternativa E.
Tema central: argumento central do texto
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa isola uma explicação localizada do texto: a persistência de certos gestos e costumes ligados à herança escravista, quando “o corpo dos negros era propriedade, podia ser tocado e usado”. Esse ponto aparece como uma matriz específica de comportamentos, não como formulação total da tese. Fica de fora o núcleo decisivo: o jeitinho nasce das contradições entre ordem liberal formal e realidade escravista e se transforma em código geral de sociabilidade.
B
Errada
A alternativa toma um desdobramento socioeconômico relevante — o trabalho informal estrutural — como se fosse o argumento central. O texto realmente afirma que “o chamado trabalho informal tornou-se estrutural no capitalismo brasileiro”, mas isso aparece como desenvolvimento da tese, não como sua formulação principal. Além disso, o foco em normas trabalhistas de Vargas e em sua burla desloca o centro da argumentação para uma consequência histórica posterior, enquanto a tese é mais ampla e anterior.
C
Errada
A alternativa recorta um efeito social da naturalização do jeitinho: quem o recusa ou estranha pode ser visto como “pedante, arrogante ou ignorante”. Isso está no texto, mas funciona como consequência do enraizamento do jeitinho nas relações sociais. Não é a ideia-núcleo que organiza o texto inteiro.
D
Errada
A alternativa seleciona apenas uma passagem explicativa sobre a industrialização de matriz exógena e o crescimento dos excedentes populacionais. Esse trecho integra a argumentação sobre a questão do trabalho, mas não resume o texto. Há redução indevida de um argumento secundário a tese geral, porque desaparecem a origem histórica do jeitinho e sua transformação em código geral de sociabilidade.
E
Certa
A alternativa E recompõe a estrutura completa da tese do autor. Ela retoma a origem do jeitinho nas contradições entre ordem liberal formal e realidade escravista, incorpora a explicação estrutural dada no texto — “A origem do jeitinho, assim como a da cordialidade teorizada por Sérgio Buarque, se explica pela incompletude das relações mercantis capitalistas.” — e preserva sua ampliação para toda a vida social, já anunciada no início e confirmada depois em “O jeitinho é a regra não escrita, sem exigência legal, mas seguida ao pé da letra nas relações micro e macrossociais.” É a única alternativa que não reduz o texto a um exemplo, a uma consequência ou a um recorte do desenvolvimento argumentativo.
Pegadinha da questão
A banca distribuiu alternativas com afirmações verdadeiras do texto, mas verdadeiras apenas como exemplos, efeitos ou etapas do desenvolvimento argumentativo. A confusão real era trocar um recorte importante pela tese central.
Dica para questões semelhantes
- Em questão sobre argumento central, procure primeiro a formulação mais geral, especialmente a que aparece na abertura e é retomada ao longo do texto.
- Elimine alternativas que tragam apenas exemplos concretos, consequências sociais ou recortes temáticos de meio ou fim do texto.
- Confirme a resposta verificando se a alternativa reúne o eixo de origem do fenômeno e sua generalização no texto, e não só uma parte dessa progressão.






