Questão 36e35194-e6
Prova:UFMT 2008
Disciplina:Português
Assunto:Análise sintática, Sintaxe, Orações coordenadas sindéticas: Aditivas, Adversativas, Alternativas, Conclusivas..., Orações coordenadas assindéticas, Orações subordinadas substantivas: Subjetivas, Objetivas diretas, Objetivas indiretas...

Sobre aspectos da sintaxe em Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga., assinale a afirmativa correta.

Fobias

        Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até treiskaidekafobia (medo do número treze), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri a lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.
        Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência – e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.
        Mas, e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
        - Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina...
        - Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
        - Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
        - Não é possível! O que você faz durante a noite?
        - Tricô.
        Uma esperança!
        - Com manual?
        - Não. Danação.
        - Você não tem nada para ler?
        - Bem ... Tem uma carta da mamãe.
        - Manda!

(VERÍSSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. São Paulo: Objetiva, 2001.)

A
O período é composto por duas orações subordinadas.
B
A expressão Uma vez inicia uma oração principal.
C
A oração e pedi uma Amiga é coordenada sindética aditiva.
D
A primeira oração do período classifica-se como subordinada subjetiva.
E
Os verbos ligar e pedir tornam as orações assindéticas.

Gabarito comentado

O
Otávio Pereira Monitor com apoio de IA

Gabarito: C

Fundamento decisivo: No trecho "Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.", a expressão "Uma vez" funciona como locução adverbial de tempo e há duas orações com verbos finitos, "liguei" e "pedi", ligadas pela conjunção "e"; por isso, a segunda oração é coordenada sindética aditiva, o que invalida as alternativas que pressupõem subordinação ou assíndeto.

Tema central: coordenação entre orações
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o período não traz subordinação. As duas orações identificáveis pelos verbos "liguei" e "pedi" não exercem função sintática uma da outra; portanto, a relação é de coordenação, não de subordinação.
B
Errada
Está errada porque "Uma vez" não é oração e não pode ser classificada como principal. Esse segmento funciona como locução adverbial de tempo, equivalente a "certa vez", modificando o verbo "liguei".
C
Certa
A alternativa C está correta porque "e pedi uma Amiga" integra a segunda oração do período e vem introduzida pela conjunção "e", que, no contexto, apenas soma a ação de pedir à ação de ligar. Não há dependência sintática entre as orações, de modo que a classificação adequada é oração coordenada sindética aditiva.
D
Errada
Está errada porque a primeira oração, "Uma vez liguei para a telefonista de madrugada", não exerce função de sujeito de outra oração. Logo, não se trata de oração subordinada subjetiva.
E
Errada
Está errada porque a presença da conjunção "e" exclui a classificação de assindéticas. Coordenação assindética ocorre sem conectivo expresso; aqui há conectivo expresso ligando as duas orações.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar "Uma vez" por oração, quando é apenas locução adverbial de tempo, e ignorar que a conjunção "e" marca coordenação sindética, não assindética nem subordinação.
Dica para questões semelhantes
  • Conte os verbos finitos do período para localizar quantas orações estão em jogo.
  • Verifique se uma oração exerce função sintática da outra; se não exerce, a relação tende a ser de coordenação.
  • Se houver conjunção expressa ligando orações, descarte assíndeto e observe o valor semântico desse conectivo.
  • Não trate locução adverbial, como "Uma vez", como se fosse oração.

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