Questão 36d353f9-e6
Prova:UFMT 2008
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
O narrador afirma que Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a
minha salvação, embora não no modo pretendido. o trecho assinalado sugere que a Bíblia é colocada nos quartos de hotel
para
O narrador afirma que Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a
minha salvação, embora não no modo pretendido. o trecho assinalado sugere que a Bíblia é colocada nos quartos de hotel
para
Fobias
Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares
fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura), collorfobia (medo do que ele vai nos
aprontar agora) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até treiskaidekafobia
(medo do número treze), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei
que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência
patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no
banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei
o travesseiro, ajustei a luz e abri a lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens,
seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer
coisa. Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação,
embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma
insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência – e
uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e
“João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.
Mas, e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga. - Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina... - Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
- Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
- Não é possível! O que você faz durante a noite? - Tricô.
Uma esperança!
- Com manual?
- Não.
Danação. - Você não tem nada para ler?
- Bem ... Tem uma carta da mamãe.
- Manda!
(VERÍSSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. São Paulo: Objetiva, 2001.)
Fobias
Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares
fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura), collorfobia (medo do que ele vai nos
aprontar agora) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até treiskaidekafobia
(medo do número treze), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei
que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência
patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no
banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei
o travesseiro, ajustei a luz e abri a lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens,
seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer
coisa.
Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação,
embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma
insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência – e
uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e
“João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.
Mas, e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
- Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina...
- Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
- Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
- Não é possível! O que você faz durante a noite?
- Tricô.
Uma esperança!
- Com manual?
- Não.
Danação.
- Você não tem nada para ler?
- Bem ... Tem uma carta da mamãe.
- Manda!
(VERÍSSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. São Paulo: Objetiva, 2001.)
A
entreter os hóspedes.
B
difundir a Sagrada Escritura.
C
impor respeito aos hóspedes.
D
servir de decoração do ambiente.
E
mostrar a opção religiosa do hotel.
Gabarito comentado
C
Camila Costa Monitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: O trecho “Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido.” é decisivo porque a locução concessiva “embora não no modo pretendido” opõe a finalidade prevista para a Bíblia no quarto ao uso que o narrador faz dela; assim, o gabarito se define pela inferência de que ela está ali para a leitura da Sagrada Escritura, isto é, para sua difusão.
Tema central: inferência textual
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque “entreter os hóspedes” corresponde ao uso pessoal e humorístico que o narrador faz da Bíblia para enfrentar a insônia, justamente em contraste com o “modo pretendido”. A alternativa confunde o uso efetivo do narrador com a finalidade institucional sugerida pelo trecho.
B
Certa
A alternativa B se sustenta porque o texto mostra que o narrador usa a Bíblia como material de leitura para suprir sua compulsão por ler, e esse uso é explicitamente apresentado como diferente do “modo pretendido”. Logo, a intenção de deixá-la no quarto não é servir ao passatempo do insone, mas oferecer ao hóspede a leitura da Escritura sagrada. Nesse contexto, “difundir a Sagrada Escritura” traduz corretamente a finalidade inferida.
C
Errada
Está errada porque o texto não menciona intimidação moral, vigilância ou respeito imposto pela presença da Bíblia. Essa finalidade não decorre de nenhum trecho e constitui extrapolação sem apoio textual.
D
Errada
Está errada porque a Bíblia aparece no texto no campo semântico da leitura, não da ornamentação. O narrador a lê, comenta seu conteúdo e a trata como recurso para a insônia; nada indica função decorativa.
E
Errada
Está errada porque o trecho não sugere que o hotel queira declarar sua identidade religiosa. A inferência autorizada é apenas a de disponibilização da Escritura ao hóspede, não a de exibição de credo institucional.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre a finalidade original da Bíblia no quarto e o uso que o narrador faz dela. Como ele a trata como leitura envolvente, pode parecer que a função é entreter; mas o trecho “embora não no modo pretendido” exclui essa leitura.
Dica para questões semelhantes
- Quando o texto opõe uso real e “modo pretendido”, separe quem usa do modo como usa e da finalidade original do objeto.
- Em inferência textual, elimine primeiro as alternativas que apenas repetem o efeito produzido no narrador, se o texto pede a intenção presumida de quem disponibilizou o objeto.
- Não transforme presença de elemento religioso em prova de decoração, imposição moral ou confissão institucional sem apoio expresso no texto.






