Questão 36cb0329-e6
Prova:UFMT 2008
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Sobre as ideias do texto, marque V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas.


( ) A Bíblia foi denominada best-seller pelo narrador por ser uma obra muito vendida em todo mundo.

( ) O narrador chamou seu problema de gutembergomania, relacionando-o a Gutemberg, inventor da imprensa no século XV.

( ) A recomendação, de maneira enfática e precisa, de algumas partes da Bíblia mostra que o narrador conhece a obra.

( ) O narrador solicitou uma companhia feminina, pois estava com insônia, sozinho em um quarto de hotel.


Assinale a sequência correta.

Fobias

        Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até treiskaidekafobia (medo do número treze), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri a lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.
        Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência – e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.
        Mas, e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
        - Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina...
        - Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
        - Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
        - Não é possível! O que você faz durante a noite?
        - Tricô.
        Uma esperança!
        - Com manual?
        - Não. Danação.
        - Você não tem nada para ler?
        - Bem ... Tem uma carta da mamãe.
        - Manda!

(VERÍSSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. São Paulo: Objetiva, 2001.)

A
V, V, F, F
B
V, F, V, F
C
F, V, F, V
D
F, F, V, V
E
V, V, V, F

Gabarito comentado

P
Pedro Henrique LimaMonitor com apoio de IA

Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é confrontar as assertivas com marcas explícitas do texto e com inferências imediatamente autorizadas por ele: o narrador explica a “gutembergomania”, chama a Bíblia de “best-seller”, recomenda partes específicas da obra e desfaz o mal-entendido sobre “Amiga”, o que sustenta a sequência V, V, V, F.

Tema central: inferência textual contextual
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque marca a terceira assertiva como falsa. Isso contraria o trecho em que o narrador recomenda livros bíblicos de modo específico e avaliativo: “Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática [...]”. Essa enumeração com apreciação precisa comprova conhecimento da obra.
B
Errada
Está errada porque marca a segunda assertiva como falsa. O texto sustenta essa associação ao dizer: “O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa.” O neologismo é explicado pelo próprio narrador como ligado ao universo da impressão, o que torna válida a relação com Gutenberg pretendida na afirmativa.
C
Errada
Está errada em dois pontos. A primeira assertiva não pode ser considerada falsa, porque “Nada como um best-seller numa hora dessas.” qualifica a Bíblia de forma compatível com a ideia de obra amplamente lida/vendida. E a quarta não pode ser verdadeira, pois o texto desfaz explicitamente essa leitura: “- Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.”
D
Errada
Está errada porque considera falsa a segunda assertiva e verdadeira a quarta. A segunda é sustentada pela explicação do termo “gutembergomania” como dependência da palavra impressa. A quarta é excluída pelo diálogo, já que o narrador não pede companhia feminina; ele corrige a interpretação da telefonista e pede material de leitura.
E
Certa
A alternativa E está correta porque a sequência V, V, V, F é a única compatível com o texto. A primeira assertiva é aceitável pelo sentido contextual de “best-seller”, usado para qualificar a Bíblia como obra amplamente lida/consagrada. A segunda é sustentada pela própria explicação do narrador para “gutembergomania”, ligada à “palavra impressa”, associação compatível com Gutenberg. A terceira é verdadeira porque a recomendação de “Gênesis”, “O cântico dos cânticos”, “Isaías” e “João”, com critérios como “ímpeto narrativo”, “poesia” e “força dramática”, mostra familiaridade com a obra. A quarta é falsa porque o diálogo explicita o mal-entendido: quem interpreta “Amiga” como companhia feminina é a telefonista, mas o narrador esclarece que queria uma revista, isto é, algo para ler.
Pegadinha da questão
A banca explora principalmente a confusão entre a intenção do narrador e a interpretação equivocada da telefonista: o humor do diálogo pode levar à leitura errada de que ele queria companhia feminina, mas o próprio texto desfaz isso.
Dica para questões semelhantes
  • Valide cada assertiva pelo que o texto afirma, sugere ou desmente expressamente; não decida pela impressão geral do trecho.
  • Em texto humorístico, separe o efeito cômico da informação efetiva: o humor não elimina a objetividade de marcas textuais decisivas.
  • Quando houver diálogo com mal-entendido, identifique de quem é a fala equivocada e quem corrige o sentido.
  • Expressões avaliativas como “best-seller” devem ser lidas no contexto do texto, não apenas como dado técnico externo.

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