Questão 2cd250a5-b0
Prova:FATEC 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Morfologia - Verbos, Colocação Pronominal, Problemas da língua culta, Coesão e coerência, Conjunções: Relação de causa e consequência, Flexão verbal de modo (indicativo, subjuntivo, imperativo), Morfologia, Morfologia - Pronomes

Assinale a alternativa que apresenta a afirmação correta sobre o trecho selecionado do texto.

Leia o texto para responder a questão.

Aptidão
– Bom dia, Senhor Pacheco. Sente-se, por favor. Temos uma ótima notícia. Como o senhor deve saber, contratamos uma firma de psicomputocratas para fazer testes de aptidão nos dez mil empregados desta firma. Precisamos nos atualizar. Acompanhar os tempos.
 – Sim, senhor.
– Os dez mil testes foram submetidos a um computador, e os resultados estão aqui. O senhor é o primeiro a ser chamado porque o computador nos forneceu os resultados em rigorosa ordem alfabética.
– Mas o meu nome começa com P.
– Hum, sim, deixa ver. Pacheco. Sim, sim. Deve ser por ordem alfabética do primeiro nome, então. Este computador é de última geração. Nunca erra. Como é seu primeiro nome?
– Xisto.
– Bom, isso não tem importância. Vamos adiante. Vejo aqui pela sua ficha que o senhor está conosco há vinte e oito anos. Sempre na seção de entorte de fresos. O senhor nunca falhou no serviço, nunca tirou férias e já recebeu várias vezes nosso prêmio de produção.
– Sim, senhor.
– O senhor começou na seção de entorte de fresos como faxineiro, depois passou a assistente de entortador, depois entortador, e hoje é o chefe de entorte. Me diga uma coisa, o senhor nunca se sentiu atraído para outra função, além do entorte de fresos? Nunca achou que entortar não era bem sua vocação?
– Nunca, não senhor.
– Pois veja só! O computador nos revela que a sua verdadeira vocação não é o entorte de fresos e sim o bistoque de tronas! O senhor é um bistocador de tronas nato, segundo o computador. Não é fantástico? E ainda tem gente que critica a tecnologia. O senhor era um homem deslocado no entorte de fresos e não sabia. Se não fosse o teste, nunca ficaria sabendo. Claro que essa situação vai ser corrigida. O senhor, a partir deste minuto, deixa de entortar.
– Sim, senhor.
– Só tem uma coisa, Senhor Pacheco. Nossa firma não trabalha com tronas. Pensando bem, ninguém trabalha com tronas, hoje em dia.
– Olha, tanto faz. Eu estou perfeitamente satisfeito no entorte e faltam só vinte anos pra me aposentar...
 – Então a firma gasta um dinheirão para descobrir a sua verdadeira vocação e o senhor quer jogá-la fora? Reconheço que o senhor tem sido um chefe de entorte perfeito. Aliás, o computador não descobriu ninguém com aptidão para o entorte. Vai ser um problema substituí-lo. Mas não podemos contestar a tecnologia. O senhor está despedido. Por favor, mande entrar o seguinte e passe bem.
(VERÍSSIMO, Luís Fernando. O nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 2003. Adaptado)

A
– Bom dia, Senhor Pacheco. Sente-se, por favor. (1º parágrafo): usa-se o imperativo, pois esse modo verbal é característico da linguagem literária.
B
– Mas o meu nome começa com P. (4º parágrafo): a conjunção mas expressa ideia de conclusão.
C
Vejo aqui pela sua ficha que o senhor está conosco há vinte e oito anos. (7º parágrafo): de acordo com a gramática normativa, a forma verbal pode ser substituída por fazem.
D
Me diga uma coisa, o senhor nunca se sentiu atraído para outra função... (9º parágrafo): a colocação do pronome oblíquo me na oração é considerada marca de linguagem falada.
E
– Então a firma gasta um dinheirão para descobrir a sua verdadeira vocação e o senhor quer jogá-la fora? (último parágrafo): de acordo com a gramática normativa, a expressão jogá-la pode ser substituída no texto por jogar-lhe.

Gabarito comentado

M
Marcela PascalMentora Qconcursos

Gabarito: D

Fundamento decisivo: No trecho "Me diga uma coisa, o senhor nunca se sentiu atraído para outra função...", a próclise em início de oração é o elemento decisivo: na tradição normativa, prefere-se "Diga-me", enquanto a forma do texto é reconhecida como marca de oralidade no português brasileiro. Isso confirma a alternativa D.

Tema central: colocação pronominal
Análise das alternativas
A
Errada
O erro está na justificativa atribuída ao imperativo. Em "Sente-se, por favor", o imperativo aparece porque há interlocução com valor de solicitação/comando cortês. Isso não autoriza dizer que o imperativo é característico da linguagem literária. O critério decisivo aqui é o valor discursivo do modo verbal no diálogo, e não uma suposta marca própria da literatura.
B
Errada
Em "Mas o meu nome começa com P.", a conjunção "mas" introduz oposição à fala anterior sobre a ordem alfabética. Portanto, seu valor é adversativo, não conclusivo. A alternativa erra no valor semântico do conectivo.
C
Errada
No trecho "há vinte e oito anos", o verbo "haver" indica tempo decorrido e, nessa construção, é impessoal. Por isso, a substituição normativa correta seria por "faz", no singular, e não por "fazem". O erro da alternativa está na concordância inadequada da forma substituta.
D
Certa
A alternativa D está correta porque descreve com precisão o funcionamento do trecho citado. Em "Me diga uma coisa", o pronome oblíquo átono aparece no início da oração, posição que a tradição normativa evita nesse contexto, preferindo formulação como "Diga-me". No entanto, a forma usada no texto é amplamente reconhecida no português brasileiro como traço de oralidade e de fala coloquial, especialmente em diálogo. O item acerta justamente por identificar valor de uso e registro, não por afirmar correção normativa estrita.
E
Errada
Em "jogá-la fora", o pronome "la" retoma "a sua verdadeira vocação" como objeto direto. A forma "lhe" exerce função de objeto indireto. Assim, trocar "jogá-la" por "jogar-lhe" altera a função sintática do pronome e a regência do verbo, sem preservar a estrutura original.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre norma-padrão e uso efetivo da língua: em D, muitos eliminam o item por perceberem que "Me diga" não é a forma preferida pela tradição normativa, mas a alternativa não cobra isso; cobra o reconhecimento de que essa colocação é marca de linguagem falada.
Dica para questões semelhantes
  • Se a alternativa tratar de pronome oblíquo, verifique primeiro a posição do pronome e depois pergunte se a questão cobra norma-padrão ou marca de oralidade.
  • Em conectivos, identifique a relação de sentido no contexto imediato; "mas" introduz contraste, não conclusão.
  • Com "haver" e "fazer" indicando tempo decorrido, observe a impessoalidade: a forma fica no singular.
  • Na troca de pronomes, confira a função sintática retomada: objeto direto não pode ser substituído por pronome de objeto indireto sem mudança de estrutura.

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