Leia o trecho da crônica O vestuário feminino, de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934).
É uma esquisitice muito comum entre senhoras intelectuais, envergarem paletó, colete e colarinho
de homem, ao apresentarem-se em público, procurando confundir-se, no aspecto físico, com os
homens, como se lhes não bastassem as aproximações igualitárias do espírito.
Esse desdém da mulher pela mulher faz pensar que: ou as doutoras julgam, como os homens, que
a mentalidade da mulher é inferior, e que, sendo elas exceção da grande regra, pertencem mais ao
sexo forte, do que do nosso, fragílimo; ou que isso revela apenas pretensão de despretensão.
Seja o que for, nem a moral nem a estética ganham nada com isso. Ao contrário; se uma mulher
triunfa da má vontade dos homens e das leis, dos preconceitos do meio e da raça, todas as vezes que
for chamada ao seu posto de trabalho, com tanta dor, tanta esperança, e tanto susto adquirido, deve
ufanar-se em apresentar-se como mulher. Seria isso um desafio?
Não; naturalíssimo pareceria a toda a gente que uma mulher se apresentasse em público como
todas as outras. [...]
Os colarinhos engomados, as camisas de peito chato, dão às mulheres uma linha pouco sinuosa,
e contrafeita, porque é disfarçada. [...]
Nas cidades, sobre o asfalto das ruas ou o saibro das alamedas, não sabe a gente verdadeiramente
para que razão apelar, quando vê, cingidas a corpos femininos, essas toilettes híbridas, compostas de
saias de mulher, coletes e paletós de homem... Nem tampouco é fácil de perceber o motivo por que,
em vez da fita macia, preferem essas senhoras especar o pescoço num colarinho lustrado a ferro, e
duro como um papelão!
Considere as seguintes afirmações sobre o trecho.
I - A crônica, publicada em 1906, registra as exigências que uma sociedade patriarcal impõe a
mulheres que circulam no âmbito público.
II - A crônica apresenta um chamado para que mulheres de atuação pública – espaço majoritariamente
masculino – mantenham características convencionadas como femininas, em especial no vestuário.
III- A autora, ao falar do vestuário feminino, está tratando também de meio, raça e gênero, temas
estruturantes do debate literário no final do século XIX, início do XX.
Quais estão corretas?
Leia o trecho da crônica O vestuário feminino, de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934).
É uma esquisitice muito comum entre senhoras intelectuais, envergarem paletó, colete e colarinho de homem, ao apresentarem-se em público, procurando confundir-se, no aspecto físico, com os homens, como se lhes não bastassem as aproximações igualitárias do espírito.
Esse desdém da mulher pela mulher faz pensar que: ou as doutoras julgam, como os homens, que a mentalidade da mulher é inferior, e que, sendo elas exceção da grande regra, pertencem mais ao sexo forte, do que do nosso, fragílimo; ou que isso revela apenas pretensão de despretensão.
Seja o que for, nem a moral nem a estética ganham nada com isso. Ao contrário; se uma mulher triunfa da má vontade dos homens e das leis, dos preconceitos do meio e da raça, todas as vezes que for chamada ao seu posto de trabalho, com tanta dor, tanta esperança, e tanto susto adquirido, deve ufanar-se em apresentar-se como mulher. Seria isso um desafio?
Não; naturalíssimo pareceria a toda a gente que uma mulher se apresentasse em público como todas as outras. [...]
Os colarinhos engomados, as camisas de peito chato, dão às mulheres uma linha pouco sinuosa, e contrafeita, porque é disfarçada. [...]
Nas cidades, sobre o asfalto das ruas ou o saibro das alamedas, não sabe a gente verdadeiramente para que razão apelar, quando vê, cingidas a corpos femininos, essas toilettes híbridas, compostas de saias de mulher, coletes e paletós de homem... Nem tampouco é fácil de perceber o motivo por que, em vez da fita macia, preferem essas senhoras especar o pescoço num colarinho lustrado a ferro, e duro como um papelão!
Considere as seguintes afirmações sobre o trecho.
I - A crônica, publicada em 1906, registra as exigências que uma sociedade patriarcal impõe a mulheres que circulam no âmbito público.
II - A crônica apresenta um chamado para que mulheres de atuação pública – espaço majoritariamente masculino – mantenham características convencionadas como femininas, em especial no vestuário.
III- A autora, ao falar do vestuário feminino, está tratando também de meio, raça e gênero, temas estruturantes do debate literário no final do século XIX, início do XX.
Quais estão corretas?
Gabarito comentado
Gabarito: E) I, II e III.
Tema central: Interpretação de texto com foco em análise crítica do contexto histórico, construção de sentidos, e implicações sociais do discurso. A exigência principal da questão é a leitura atenta e a capacidade de perceber como as ideias da autora se articulam em relação ao papel da mulher, considerando o momento histórico (início do século XX) e os valores sociais ali vigorantes.
Justificativa da alternativa correta:
A alternativa E é correta pois todas as afirmações (I, II e III) estão de acordo com o conteúdo e o subtexto da crônica.
I - O texto expõe as restrições e cobranças sociais que incidem sobre mulheres no espaço público. Veja o trecho: “nem a moral nem a estética ganham nada com isso”. Percebe-se crítica à sociedade patriarcal e às normas que limitam a expressão feminina.
II - A autora valoriza a manutenção da identidade feminina e espera que, mesmo em ambientes masculinos, a mulher preserve características femininas, especialmente no vestuário: “deve ufanar-se em apresentar-se como mulher”. Observa-se chamado claro ao orgulho da condição feminina.
III - Ao abordar “meio, raça e gênero”, a autora amplia o debate ao contexto da época. O texto mostra preocupação com pressões sociais, os preconceitos do meio e da raça, elementos discutidos por estudiosos como Fiorin e Ingedore Koch – essenciais no debate literário da virada do século XIX para o XX.
Por que as demais alternativas estão incorretas?
As alternativas A, B, C e D eliminam uma ou mais afirmações corretas. Isso ocorre geralmente por confundir temas subentendidos e explicitamente tencionados pela autora.
Pegadinha: Fique atento a afirmações que englobam implicações históricas, pois muitas vezes a análise do ambiente sociocultural é essencial para a correta interpretação do texto, como reforçam Cunha & Cintra e Bechara.
Estratégia de prova: Ao analisar textos históricos, busque conectar as ideias à sociedade da época, analisando o implicado e o explícito na argumentação. Observe sempre o discurso direto e indireto e os recursos coesivos usados, como “ao contrário”, que reforçam a posição crítica da autora.
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