À questão colocada por D. João IV, Antônio Vieira
No fim da carta de que V. M.1
me fez mercê me manda
V. M. diga meu parecer sobre a conveniência de haver neste
estado ou dois capitães-mores ou um só governador.
Eu, Senhor, razões políticas nunca as soube, e hoje as
sei muito menos; mas por obedecer direi toscamente o que
me parece.
Digo que menos mal será um ladrão que dois; e que mais
dificultoso serão de achar dois homens de bem que um. Sendo propostos a Catão dois cidadãos romanos para o provimento de duas praças, respondeu que ambos lhe descontentavam: um porque nada tinha, outro porque nada lhe bastava.
Tais são os dois capitães-mores em que se repartiu este governo: Baltasar de Sousa não tem nada, Inácio do Rego não
lhe basta nada; e eu não sei qual é maior tentação, se a 1 ,
se a 2 . Tudo quanto há na capitania do Pará, tirando as
terras, não vale 10 mil cruzados, como é notório, e desta terra
há-de tirar Inácio do Rego mais de 100 mil cruzados em três
anos, segundo se lhe vão logrando bem as indústrias.
Tudo isto sai do sangue e do suor dos tristes índios, aos
quais trata como tão escravos seus, que nenhum tem liberdade nem para deixar de servir a ele nem para poder servir
a outrem; o que, além da injustiça que se faz aos índios, é
ocasião de padecerem muitas necessidades os portugueses
e de perecerem os pobres. Em uma capitania destas confessei uma pobre mulher, das que vieram das Ilhas, a qual me
disse com muitas lágrimas que, dos nove filhos que tivera, lhe
morreram em três meses cinco filhos, de pura fome e desamparo; e, consolando-a eu pela morte de tantos filhos, respondeu-me: “Padre, não são esses os por que eu choro, senão
pelos quatro que tenho vivos sem ter com que os sustentar, e
peço a Deus todos os dias que me os leve também.”
São lastimosas as misérias que passa esta pobre gente
das Ilhas, porque, como não têm com que agradecer, se algum índio se reparte não lhe chega a eles, senão aos poderosos; e é este um desamparo a que V. M. por piedade deverá
mandar acudir.
Tornando aos índios do Pará, dos quais, como dizia, se
serve quem ali governa como se foram seus escravos, e os
traz quase todos ocupados em seus interesses, principalmente no dos tabacos, obriga-me a consciência a manifestar
a V. M. os grandes pecados que por ocasião deste serviço se
cometem.
(Sérgio Rodrigues (org.). Cartas brasileiras, 2017. Adaptado.)
1V. M.: Vossa Majestade.
No fim da carta de que V. M.1 me fez mercê me manda V. M. diga meu parecer sobre a conveniência de haver neste estado ou dois capitães-mores ou um só governador.
Eu, Senhor, razões políticas nunca as soube, e hoje as sei muito menos; mas por obedecer direi toscamente o que me parece.
Digo que menos mal será um ladrão que dois; e que mais dificultoso serão de achar dois homens de bem que um. Sendo propostos a Catão dois cidadãos romanos para o provimento de duas praças, respondeu que ambos lhe descontentavam: um porque nada tinha, outro porque nada lhe bastava. Tais são os dois capitães-mores em que se repartiu este governo: Baltasar de Sousa não tem nada, Inácio do Rego não lhe basta nada; e eu não sei qual é maior tentação, se a 1 , se a 2 . Tudo quanto há na capitania do Pará, tirando as terras, não vale 10 mil cruzados, como é notório, e desta terra há-de tirar Inácio do Rego mais de 100 mil cruzados em três anos, segundo se lhe vão logrando bem as indústrias.
Tudo isto sai do sangue e do suor dos tristes índios, aos quais trata como tão escravos seus, que nenhum tem liberdade nem para deixar de servir a ele nem para poder servir a outrem; o que, além da injustiça que se faz aos índios, é ocasião de padecerem muitas necessidades os portugueses e de perecerem os pobres. Em uma capitania destas confessei uma pobre mulher, das que vieram das Ilhas, a qual me disse com muitas lágrimas que, dos nove filhos que tivera, lhe morreram em três meses cinco filhos, de pura fome e desamparo; e, consolando-a eu pela morte de tantos filhos, respondeu-me: “Padre, não são esses os por que eu choro, senão pelos quatro que tenho vivos sem ter com que os sustentar, e peço a Deus todos os dias que me os leve também.”
São lastimosas as misérias que passa esta pobre gente das Ilhas, porque, como não têm com que agradecer, se algum índio se reparte não lhe chega a eles, senão aos poderosos; e é este um desamparo a que V. M. por piedade deverá mandar acudir.
Tornando aos índios do Pará, dos quais, como dizia, se serve quem ali governa como se foram seus escravos, e os traz quase todos ocupados em seus interesses, principalmente no dos tabacos, obriga-me a consciência a manifestar a V. M. os grandes pecados que por ocasião deste serviço se cometem.
(Sérgio Rodrigues (org.). Cartas brasileiras, 2017. Adaptado.)
1V. M.: Vossa Majestade.
Gabarito comentado
Comentário da questão — Interpretação de Textos
Tema central: Esta questão exige interpretação de texto, habilidade fundamental em concursos e vestibulares, pois requer que o candidato compreenda tanto a argumentação quanto a intenção do autor. Especificamente, é preciso perceber o posicionamento explícito de Antônio Vieira diante de uma pergunta do rei sobre a conveniência de haver um ou dois governantes no estado.
Justificativa da alternativa correta (A):
Vieira responde de maneira categórica, expondo claramente sua opinião. Isso fica evidente na frase: “Digo que menos mal será um ladrão que dois; e que mais dificultoso serão de achar dois homens de bem que um.” Ele opta abertamente por um só governador, justificando-o de forma direta e sem rodeios, demonstrando uma posição inequívoca, que caracteriza a resposta categórica.
Análise das alternativas incorretas:
B) Opta por não emitir uma opinião — Errada: Vieira manifesta opinião clara, contrariando o enunciado.
C) Finge não tê-la compreendido — Errada: O texto revela total compreensão e resposta à pergunta do rei.
D) Admite a incapacidade de respondê-la — Errada: Apesar de dizer não entender de política, ele se posiciona firmemente, mostrando que não foge à resposta.
E) Responde de forma enigmática — Errada: Não há enigmas ou ambiguidades; sua crítica é objetiva e fundamentada.
Elementos centrais para acertar a questão:
Observe as afirmações diretas e a presença de opinião clara. Não se deixe confundir por trechos em que o autor menciona desconhecimento teórico — isso pode ser uma estratégia retórica, não real ausência de opinião.
Dica para provas: Sempre localize frases que explicitam opinião ou resposta à pergunta do enunciado. Segundo a gramática textual de Marcuschi, identificar a tese principal do autor é essencial na interpretação.
Resumo: A alternativa A é a correta, pois evidencia a clareza e assertividade da resposta de Antônio Vieira.
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