Questão 173a84c3-de
Prova:UEPB 2009, UEPB 2009
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Em “Os olhos da mulher, súplica e esperança, o meio sorriso, ferida aberta no meio da cara [...] Mas ela nada diz de sua boca, impõe com as mãos febris, com as pernas magras, com o corpo esquálido de bicho fêmea que ele lhe entregue seu corpo duro de bicho macho [...] Ela vê volume nos bolsos dele, mete as mãos e as traz cheias de brita que atira pela janela, o dinheiro, cadê o dinheiro?” (p.16-17) e em “Irene [...] provado devagarinho, por primeira vez, quem sabe?, o sabor que pode ter tocar-se o corpo de um homem por nada, só por carinho” (p. 57), é possível afirmar

I - que o fio de esperança por dias melhores, alimentado por Irene, depois de conhecer Rosálio, opera uma mudança na sua forma de ver e de sentir o outro.

II - que, embora lutando por sobreviver e alimentar um “guri e uma velha”, Irene encontra momentos para pensar em si, cuidar de si, ao mesmo tempo em que cuida do outro (Rosálio);

III - que não há alusão a uma possível mudança na forma de Irene sentir a si e ao outro: ela apenas quis agradá-lo (como mostra o fragmento), depois retoma a dura vida de prostituta, uma vez que a sobrevivência é um imperativo maior que “o prazer de ler”;


Está(ão) correta(s) apenas a(s) proposição(ões)

A
II
B
I e III
C
I
D
I e II
E
III

Gabarito comentado

C
Célia MontalvãoMonitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o contraste semântico-discursivo entre “o dinheiro, cadê o dinheiro?” / “o sabor que pode ter tocar-se o corpo de um homem por nada, só por carinho”: no primeiro fragmento, a relação corporal está submetida à urgência material; no segundo, aparece uma experiência nova, afetiva e não utilitária, reforçada por “por primeira vez”. Essa oposição autoriza inferir mudança na forma como Irene sente o outro e a si mesma, sustentando I e II e excluindo III.

Tema central: transformação afetiva de Irene
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque limita a resposta à proposição II e exclui I, mas I é sustentada pelo texto. As expressões “por primeira vez” e “por nada, só por carinho” autorizam inferir alteração no modo de Irene perceber e sentir o outro; portanto, não é possível reduzir a resposta apenas a II.
B
Errada
Está errada porque inclui III, e III contradiz o núcleo do segundo fragmento. Dizer que “não há alusão a uma possível mudança” é incompatível com “por primeira vez” e com a oposição entre a busca de dinheiro e o toque “só por carinho”. O texto não mostra mera repetição da vida anterior sem deslocamento interior.
C
Errada
Está errada porque reconhece corretamente I, mas elimina II. Pela base, II é compatível com o enunciado, já que o segundo trecho permite inferir que Irene, mesmo submetida à sobrevivência, encontra espaço subjetivo para si e para o outro. A formulação de II não é literal, mas decorre legitimamente da transformação afetiva mostrada no contraste entre os excertos.
D
Certa
A alternativa D está correta porque reúne as duas proposições compatíveis com os fragmentos. I se sustenta diretamente na passagem da lógica da sobrevivência para a descoberta de um contato “por nada, só por carinho”, com marca explícita de novidade em “por primeira vez”, o que indica mudança subjetiva. II também se mantém, porque o segundo excerto mostra que, mesmo em contexto de privação e luta material, Irene acessa uma dimensão afetiva própria e de cuidado na relação com Rosálio. Já III cai por negar exatamente a mudança que o segundo fragmento sugere.
E
Errada
Está errada porque toma como correta apenas III, que é justamente a proposição incompatível com os fragmentos. O valor semântico de “por primeira vez” e “só por carinho” impede afirmar ausência de mudança ou simples intenção de agradá-lo; o segundo excerto introduz novidade afetiva, não continuidade automática.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de tomar a dureza da vida da personagem como se ela anulasse qualquer transformação afetiva. Isso favorece III, mas o próprio texto a desmente ao marcar novidade e gratuidade afetiva em “por primeira vez” e “só por carinho”.
Dica para questões semelhantes
  • Compare os fragmentos pelo eixo de sentido dominante de cada um; aqui, dinheiro e sobrevivência em um, carinho e descoberta no outro.
  • Dê peso decisivo a marcas lexicais de mudança, como “por primeira vez”, porque elas costumam definir a inferência correta.
  • Não descarte uma proposição só porque ela não repete literalmente o texto, se ela decorrer diretamente do contraste construído pelos fragmentos.
  • Quando uma alternativa negar uma mudança que o texto sinaliza expressamente, ela deve ser eliminada.

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