Questão 07499e89-29
Prova:UNIFESP 2005
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Sobre Manuel Bandeira, é correto afirmar que

INSTRUÇÃO: Leia o poema de Manuel Bandeira para responder às questões

Versos de Natal


Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico, Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

A
a insistência em temas relacionados ao sonho e à fantasia aponta para uma concepção de vida fugidia e distanciada da realidade. Dessa forma, entende- se o poeta na transição entre o Realismo e Modernismo.
B
sua obra é muito pouco alinhada ao Modernismo, pois sua expressão exclui por completo a linguagem popular, priorizando a erudição e a contenção criadora.
C
o desapego aos temas do cotidiano o aponta como um poeta que, embora inserido no Modernismo, está muito distanciado das causas sociais e da busca de uma identidade nacional, como fizeram seus contemporâneos.
D
o movimento modernista teve com seu trabalho e com o de poetas como Oswald e Mário de Andrade a base de sua criação. Bandeira recriou literariamente suas experiências pessoais, com temas como o amor, a morte e a solidão, aos quais conferiu um valor mais universal
E
o poeta trata de temas bastante recorrentes ao Romantismo, como a saudade, a infância e a solidão. Além disso, expressa- se como os românticos, já que tem uma visão idealizada do mundo. Daí seu distanciamento dos demais modernistas da primeira fase.

Gabarito comentado

C
Camila RodriguesMonitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é literário-textual: o poema articula marcas concretas do envelhecimento e da memória infantil para sugerir a permanência da infância interior, o que sustenta a alternativa D.

Tema central: Bandeira no Modernismo
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra em dois pontos específicos. Primeiro, atribui predominância a “sonho e fantasia”, mas o poema se apoia no real concreto: “Tu refletes as minhas rugas, / Os meus cabelos brancos, / Os meus olhos míopes e cansados.” e ainda nomeia o espelho como “Mestre do realismo exato e minucioso,”. Segundo, é inadequado situar Bandeira como poeta de transição entre Realismo e Modernismo; a base exige reconhecê-lo como autor central do Modernismo. A expressão “se fosses mágico” não instaura fuga da realidade: serve apenas para aprofundar a interioridade do eu lírico.
B
Errada
A alternativa é incompatível com a caracterização literária dada na base, porque afirma que a obra de Bandeira é “muito pouco alinhada ao Modernismo” e que exclui por completo a linguagem popular. A base aponta o contrário: ele deve ser reconhecido como poeta central do Modernismo. Além disso, o poema apresenta dicção simples, direta e ligada ao cotidiano, sem erudição ostensiva, o que invalida a ideia de exclusão completa da linguagem popular e de prioridade absoluta da erudição.
C
Errada
O erro decisivo está em afirmar “desapego aos temas do cotidiano”. O próprio poema se constrói com elementos concretos e cotidianos: espelho, rugas, cabelos brancos, olhos cansados e “chinelinhos atrás da porta”. A interioridade do texto nasce desses dados do real, não de afastamento deles. A alternativa também generaliza indevidamente a posição de Bandeira no Modernismo, contrariando a base que o insere de modo central no movimento.
D
Certa
A alternativa D está correta porque reconhece dois pontos sustentados pela base: a inserção de Manuel Bandeira como poeta fundamental do Modernismo brasileiro e o modo como sua poesia converte matéria pessoal em sentido universal. No poema, o corpo envelhecido aparece de forma concreta em “Tu refletes as minhas rugas, / Os meus cabelos brancos, / Os meus olhos míopes e cansados.”; depois, essa experiência individual se amplia para temas existenciais em “Penetrarias até ao fundo desse homem triste, / Descobririas o menino que sustenta esse homem,” e em “O menino que não quer morrer, / Que não morrerá senão comigo,”. Assim, envelhecimento, tristeza, infância e morte deixam de ser apenas dados biográficos e passam a valer como reflexão humana mais ampla, exatamente no sentido indicado pela alternativa.
E
Errada
A alternativa explora uma semelhança temática superficial para chegar a uma filiação estética errada. É verdade que o poema mobiliza infância, saudade afetiva e tristeza, mas isso não autoriza concluir que Bandeira “expressa-se como os românticos” nem que tenha visão idealizada do mundo. O texto faz o contrário: assume a velhice e a tristeza sob o signo do “realismo exato e minucioso”. Por isso, a presença de temas também recorrentes no Romantismo não prova idealização romântica nem distanciamento de Bandeira em relação aos modernistas da primeira fase.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre tema e filiação estética: infância, saudade e subjetividade podem levar o candidato a marcar Romantismo ou evasão fantasiosa, mas o poema se organiza pelo real concreto e pela universalização modernista da experiência pessoal.
Dica para questões semelhantes
  • Não classifique escola literária apenas pelo tema; verifique a visão de mundo e o tratamento dado ao tema no texto.
  • Quando aparecer experiência íntima no poema, observe se ela fica só no autobiográfico ou se se amplia para uma condição humana mais geral.
  • Se o texto traz marcas concretas do cotidiano e do corpo, isso pesa contra leituras de fuga da realidade ou de idealização.

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