Questão 047225dc-8d
Prova:UNESP 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Lendo atentamente o fragmento de Vidas secas, percebe-se que o foco principal é o das transações entre Fabiano e o proprietário da fazenda. Aponte a alternativa que não corresponde ao que é efetivamente exposto pelo texto.
Lendo atentamente o fragmento de Vidas secas, percebe-se que o foco principal é o das transações entre Fabiano e o proprietário da fazenda. Aponte a alternativa que não corresponde ao que é efetivamente exposto pelo texto.
Instrução: A questão toma por base uma passagem do romance regionalista Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953).
Contas
Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa.
Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repende estourava:
– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
(Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1974.)
Instrução: A questão toma por base uma passagem do romance regionalista Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953).
Contas
Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa.
Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repende estourava:
– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
(Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1974.)
A
O proprietário era, na verdade, um benfeitor para Fabiano.
B
Fabiano declarava-se “um bruto” ao proprietário.
C
O proprietário levava sempre vantagem na partilha do gado.
D
Fabiano sabia que era enganado nas contas, mas não conseguia provar.
E
Fabiano aceitava a situação e se resignava, por medo de ficar sem trabalho.
Gabarito comentado
Y
Yasmin Moraes Monitor com apoio de IA
Gabarito: A
Fundamento decisivo: O enunciado pede a alternativa que não corresponde ao que o texto efetivamente expõe. O trecho decisivo é: “Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.” Esse recorte mostra exploração e desvantagem de Fabiano, o que inviabiliza a ideia de que o proprietário fosse benfeitor.
Tema central: exploração econômica de Fabiano
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa A é a única incompatível com o fragmento, porque atribui ao proprietário uma condição de benfeitor que o texto não autoriza. O trecho apresenta relação desigual nas transações e prejuízo recorrente para Fabiano, não benevolência.
B
Certa
Não pode ser eliminada, porque corresponde diretamente ao texto. Fabiano se autodeclara “bruto” no confronto com o patrão: “Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto” e “Era bruto, não fora ensinado.” O critério decisivo aqui é a correspondência verbal explícita com o fragmento.
C
Errada
Não pode ser eliminada, porque o texto sustenta a vantagem recorrente do proprietário nas partilhas. A repetição aparece em “daquela vez, como das outras”, e o resultado da conta confirma a desvantagem de Fabiano: “na hora das contas davam-lhe uma ninharia.” A palavra “sempre” da alternativa é compatível com essa reiteração textual.
D
Errada
Não pode ser eliminada, porque, embora a formulação da alternativa seja um pouco mais forte que a literalidade do trecho, ela decorre de inferência autorizada. O texto diz “Não se conformou: devia haver engano”, depois informa “Não se descobriu o erro”, e ainda mostra que Fabiano “não sabia ler”. O conjunto sustenta que ele percebia a desvantagem nas contas, mas não conseguia prová-la.
E
Errada
Não pode ser eliminada, porque o motivo da resignação está expresso no texto: “Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se.” O critério decisivo é a relação direta de causa e efeito: medo de perder a permanência e o sustento na fazenda, seguido de submissão.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: inverter o comando e marcar uma alternativa verdadeira, e confundir dependência econômica com benevolência do proprietário. No texto, o adiantamento de recursos e a permanência de Fabiano na fazenda integram uma relação de exploração, não de ajuda.
Dica para questões semelhantes
- Em questão com comando negativo, localize primeiro a alternativa incompatível com o sentido global do texto, não a mais forte ou mais dura.
- Quando o texto mostrar dependência econômica, verifique se ela aparece como ajuda real ou como mecanismo de exploração.
- Aceite inferência apenas quando ela estiver amparada por trechos convergentes do texto, como ocorre aqui com “engano”, “juros” e “não sabia ler”.






