Questão 046b7cca-8d
Prova:UNESP 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Homonímia, Paronímia, Sinonímia e Antonímia, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Quem é do chão não se trepa.
Fabiano emprega duas vezes este provérbio para retratar com certo determinismo sua situação, que ele considera impossível
de ser mudada. Há outros que poderiam ser utilizados para retratar essa atitude de desânimo ante algo que parece irreversível. Na relação de provérbios abaixo, aponte aquele que não poderia substituir o empregado por Fabiano, em virtude de não corresponder àquilo que a personagem queria significar.

Instrução: A questão  toma por base uma passagem do romance regionalista Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953).

                                                                               Contas

Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa.
Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repende estourava:
– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.

                                                               (Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1974.)

A
Quem nasce na lama morre na bicharia.
B
Quem semeia ventos colhe tempestades.
C
Quem nasceu pra tostão não chega a milhão.
D
Quem nasceu pra ser tatu morre cavando.
E
Os paus, uns nasceram para santos, outros para tamancos.

Gabarito comentado

C
Camila Nogueira Monitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a compatibilidade semântica entre o provérbio do texto-base e os provérbios propostos: em "Tolite, quem é do chão não se trepa" e "– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa", o sentido é de fatalismo, resignação e impossibilidade de ascensão social. Assim, a alternativa correta é a B, porque introduz causa e consequência moral, e não essa ideia de condição social imutável.

Tema central: sentido de provérbios
Análise das alternativas
A
Errada
Pode substituir o provérbio do texto porque preserva a ideia de origem degradada ligada à permanência na mesma condição, sem deslocar o sentido para culpa moral.
B
Certa
A alternativa B é a correta porque "Quem semeia ventos colhe tempestades" não corresponde ao que Fabiano quer significar. Esse provérbio remete a consequência negativa decorrente de uma ação anterior do sujeito, isto é, retribuição causal ou moral. No texto, porém, o provérbio é usado para expressar que a condição de Fabiano é vista como impossível de mudar, num tom de determinismo social e resignação.
C
Errada
Pode substituir o provérbio do texto porque mantém a noção de limitação de destino econômico e de impossibilidade de ascensão.
D
Errada
Pode substituir o provérbio do texto porque também comunica destino fixo e permanência numa condição já determinada.
E
Errada
Pode substituir o provérbio do texto porque expressa distribuição desigual e fixa de destinos, compatível com a ideia de predestinação social.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre tom negativo geral e equivalência precisa de sentido: a alternativa B parece compatível por também terminar mal, mas seu sentido é de consequência moral de uma ação, não de condição social vista como imutável.
Dica para questões semelhantes
  • Compare o eixo de sentido do enunciado original com o das alternativas; aqui, o eixo era determinismo social, não simples negatividade.
  • Em substituição de provérbio, não basta ser proverbial ou pessimista: precisa preservar a relação de sentido que o texto constrói.
  • Desconfie de alternativas que introduzem causalidade moral quando o texto expressa resignação diante de uma condição.
  • Leia o comando com precisão: a questão pede a que não poderia substituir, isto é, a semanticamente incompatível.

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