Questão 0455e086-8d
Prova:UNESP 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
A leitura do fragmento como um todo permite concluir que, para o autor,
A leitura do fragmento como um todo permite concluir que, para o autor,
Instrução: A questão toma por base duas passagens do livro A linguagem harmônica da Bossa Nova, do docente e pesquisador da Unesp José Estevam Gava.
Momento Bossa Nova
Nos anos 1940, o samba-canção já era uma alternativa para o samba tradicional, batucado, quadrado. Em sua gênese foram empregados recursos correntes na música erudita europeia e na música popular norte-americana. Já era algo mais sofisticado, praticado por compositores e arranjadores com maior preparo musical e sempre de ouvido aberto para as soluções propostas pela música estrangeira. O jazz, por exemplo, mais tarde permitiria fusões interessantes como o “samba-jazz” e o “samba moderno”, com arranjos grandiosos e com base nos instrumentos de sopro. Mas, em termos de poesia e expressividade, o samba-canção tendia a manter seu caráter escuro, sombrio, com muitos elementos que lembravam a atmosfera tensa e pessimista do tango argentino e do bolero, gêneros latinos por excelência.
O samba-canção esteve desde logo ambientado em Copacabana, lugar de vida noturna intensa, boates enfumaçadas, mulheres adultas e fatais envoltas num clima de pecado e traição, enquanto a Bossa Nova ambientou-se mais para o Sul, em Ipanema, além de tornar-se representativa de um público mais jovem, amante do sol e da praia. Nesse ambiente solar, a mulher passou a ser a garota da praia, a namorada. Deu-se um descanso às imagens de “amante proibida e vingativa, com uma navalha na liga. E as letras da Bossa Nova não tinham nada de enfumaçado. Eram uma saga oceânica: a nado, numa prancha ou num barquinho, seus compositores prestaram todas as homenagens possíveis ao mar e ao verão. Esse mar e esse verão eram os de Ipanema” (Castro, 1999, p. 59).
A Bossa Nova levou aos extremos a tendência intimista de cantar sobre temas do cotidiano, sem muita complicação poética. Em vez da negatividade do samba-canção, explorou ao máximo a positividade expressiva e um otimismo sem precedentes. Esse foi o grande traço distintivo entre a Bossa Nova e o samba-canção. O otimismo diante do amor trouxe consigo imagens de paz e estabilidade possibilitadas por relacionamentos amorosos felizes e amores correspondidos, sem as cores patológicas e dramáticas que tanto marcavam os sambas-canções. Mesmo a dor, quando ocorria, era encarada como um estágio passageiro, deixando de assumir o antigo caráter terminal.
Em plenos anos 1950, quando nas rádios predominava o derramamento vocal e sentimental, Tom Jobim já buscava um retraimento expressivo pautado por um discurso poético/musical mais sereno, mais em tom de conversa do que de súplica. Se os mais jovens identificavam-se com essas coisas novas, os mais velhos e tradicionalistas viam-nas com estranheza, sendo compreensível que as descrevessem como canções bobas e ingênuas, não obstante a sofisticação harmônica e rítmica.
(José Estevam Gava. A linguagem harmônica da Bossa Nova. São Paulo: Editora Unesp, 2002.)
Instrução: A questão toma por base duas passagens do livro A linguagem harmônica da Bossa Nova, do docente e pesquisador da Unesp José Estevam Gava.
Momento Bossa Nova
Nos anos 1940, o samba-canção já era uma alternativa para o samba tradicional, batucado, quadrado. Em sua gênese foram empregados recursos correntes na música erudita europeia e na música popular norte-americana. Já era algo mais sofisticado, praticado por compositores e arranjadores com maior preparo musical e sempre de ouvido aberto para as soluções propostas pela música estrangeira. O jazz, por exemplo, mais tarde permitiria fusões interessantes como o “samba-jazz” e o “samba moderno”, com arranjos grandiosos e com base nos instrumentos de sopro. Mas, em termos de poesia e expressividade, o samba-canção tendia a manter seu caráter escuro, sombrio, com muitos elementos que lembravam a atmosfera tensa e pessimista do tango argentino e do bolero, gêneros latinos por excelência.
O samba-canção esteve desde logo ambientado em Copacabana, lugar de vida noturna intensa, boates enfumaçadas, mulheres adultas e fatais envoltas num clima de pecado e traição, enquanto a Bossa Nova ambientou-se mais para o Sul, em Ipanema, além de tornar-se representativa de um público mais jovem, amante do sol e da praia. Nesse ambiente solar, a mulher passou a ser a garota da praia, a namorada. Deu-se um descanso às imagens de “amante proibida e vingativa, com uma navalha na liga. E as letras da Bossa Nova não tinham nada de enfumaçado. Eram uma saga oceânica: a nado, numa prancha ou num barquinho, seus compositores prestaram todas as homenagens possíveis ao mar e ao verão. Esse mar e esse verão eram os de Ipanema” (Castro, 1999, p. 59).
A Bossa Nova levou aos extremos a tendência intimista de cantar sobre temas do cotidiano, sem muita complicação poética. Em vez da negatividade do samba-canção, explorou ao máximo a positividade expressiva e um otimismo sem precedentes. Esse foi o grande traço distintivo entre a Bossa Nova e o samba-canção. O otimismo diante do amor trouxe consigo imagens de paz e estabilidade possibilitadas por relacionamentos amorosos felizes e amores correspondidos, sem as cores patológicas e dramáticas que tanto marcavam os sambas-canções. Mesmo a dor, quando ocorria, era encarada como um estágio passageiro, deixando de assumir o antigo caráter terminal.
Em plenos anos 1950, quando nas rádios predominava o derramamento vocal e sentimental, Tom Jobim já buscava um retraimento expressivo pautado por um discurso poético/musical mais sereno, mais em tom de conversa do que de súplica. Se os mais jovens identificavam-se com essas coisas novas, os mais velhos e tradicionalistas viam-nas com estranheza, sendo compreensível que as descrevessem como canções bobas e ingênuas, não obstante a sofisticação harmônica e rítmica.
(José Estevam Gava. A linguagem harmônica da Bossa Nova. São Paulo: Editora Unesp, 2002.)
A
o samba-canção era um gênero superior ao da Bossa Nova, pelo fato de explorar temas mais sérios e adultos.
B
a Bossa Nova buscava agradar ao público jovem com letras simplórias e melodias bastante pobres.
C
tanto a Bossa Nova quanto o samba-canção foram gêneros secundários, sem qualquer influência relevante para a música popular brasileira.
D
o samba autêntico, tradicional, tinha muito mais qualidade e autenticidade que a Bossa Nova e o samba-canção.
E
samba-canção e Bossa Nova representaram desenvolvimentos autênticos do samba tradicional, cada qual com temática própria e estrutura melódica e musical distinta.
Gabarito comentado
C
Camila RodriguesMonitor com apoio de IA
Gabarito: E
Fundamento decisivo: O critério central é a leitura comparativa do fragmento, que apresenta o samba-canção como alternativa ao samba tradicional e a Bossa Nova como outro desenvolvimento desse mesmo campo, distinguindo-os por temática, atmosfera e tratamento poético-musical. Esse conjunto de relações é o que permite identificar a alternativa compatível com o texto e excluir as que introduzem hierarquia, irrelevância ou pobreza estética não sustentadas.
Tema central: Comparação entre gêneros
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque transforma diferença temática em juízo de superioridade. O texto diz que o samba-canção tinha "caráter escuro, sombrio" e que a Bossa Nova explorou "positividade expressiva e um otimismo sem precedentes", mas em nenhum momento afirma que temas mais sérios ou adultos tornam o samba-canção superior. O erro é uma extrapolação valorativa não autorizada pelo fragmento.
B
Errada
Está errada por contrariar diretamente o texto. Dizer que a Bossa Nova buscava agradar ao jovem com "letras simplórias e melodias bastante pobres" distorce dois pontos: "sem muita complicação poética" não significa simploriedade, e a ideia de pobreza musical é refutada por "não obstante a sofisticação harmônica e rítmica." O erro é de mudança indevida de sentido e contradição textual.
C
Errada
Está errada porque o texto não trata os gêneros como secundários nem irrelevantes. Ao contrário, destaca sofisticação, distinções expressivas, fusões musicais e mudança de sensibilidade entre eles. A afirmação de que não tiveram "qualquer influência relevante" é incompatível com a valorização analítica presente no fragmento.
D
Errada
Está errada porque atribui ao autor uma defesa hierárquica do samba tradicional que o texto não faz. A expressão "samba tradicional, batucado, quadrado" serve como referência comparativa anterior, não como afirmação de superioridade em "qualidade e autenticidade". O erro é inventar um juízo comparativo sem apoio textual.
E
Certa
A alternativa E é a única compatível com o fragmento como um todo. O texto mostra o samba-canção como "alternativa para o samba tradicional" e caracteriza a Bossa Nova como outro desenvolvimento desse campo musical, com diferenças de ambientação, de tratamento do amor e de tom expressivo. O contraste central aparece entre a negatividade e o caráter sombrio do samba-canção e a "positividade expressiva" e o "otimismo sem precedentes" da Bossa Nova. A ideia de "desenvolvimentos autênticos" deve ser entendida como inferência autorizada pelo conjunto do texto, já que o autor reconhece a legitimidade de ambos no interior da tradição do samba, com estruturas e efeitos musicais distintos.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre descrever diferenças de tema e de tom expressivo e estabelecer hierarquia de valor. Também tenta induzir a leitura de que simplicidade temática da Bossa Nova significaria pobreza estética, o que o texto nega ao afirmar sua "sofisticação harmônica e rítmica."
Dica para questões semelhantes
- Quando o comando pede conclusão pelo texto como um todo, procure a alternativa que sintetiza várias comparações do fragmento, não um detalhe isolado.
- Separe descrição de juízo de valor: contraste entre sombrio e otimista não autoriza concluir superioridade de um gênero sobre outro.
- Se a alternativa usa termos depreciativos, confira se o texto realmente os sustenta ou se há trecho que os desmente expressamente.






