Questão 030dbf14-de
Prova:CESMAC 2015
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Observe o seguinte trecho: “Não há dúvida de que o mito das agruras superlativas do português diz muito sobre a falência educacional brasileira, cupim que rói as fundações de qualquer projeto de desenvolvimento social que vá além da promoção de um maior acesso da população a shopping centers”. Nesse trecho, o foco da observação principal cai sobre:

    TEXTO 1


Português, a língua mais difícil do mundo? 

Conta outra! . Alguns mitos resistentes rondam como mosquitos chatos a língua portuguesa falada no Brasil. Diante deles, argumentações fundadas em fatos e um mínimo de racionalidade são tão inúteis quanto tapas desferidos às cegas no escuro do quarto em pernilongos zumbidores. Os tapas acertam o vazio, os zumbidos continuam lá.

A lenda de que se fala no estado do Maranhão o português mais “correto” do Brasil é uma dessas balelas aceitas por aí como verdades reveladas – e nem os tristíssimos índices educacionais maranhenses podem fazer nada contra isso. Tapas no vazio.

Outra bobagem de grande prestígio é aquela que sustenta ser o português “a língua mais difícil do mundo”. Baseada, talvez, na dor de cabeça real que acomete estrangeiros confrontados com a arquitetura barroca de nossos verbos, a afirmação é categórica o bastante para dispensar a necessidade de uma prova.

O sujeito erra o gênero da palavra alface e pronto, lá vem a desculpa universal: “Ah, também, como é difícil a porcaria dessa língua! Ah, se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses!” Não, claro que isso não quer dizer que o queixoso saiba falar holandês. É justamente na imensa parcela monoglota da população que a crença na dificuldade insuperável da língua portuguesa encontra solo mais fértil.

Não é uma conclusão a que se chegue depois de estudar judiciosamente latim, alemão, húngaro, russo e japonês. Ninguém precisa ter encarado um idioma em que se use declinação – vespeiro do qual a gramática portuguesa nos poupou – para sair deplorando em altos brados o desafio invencível da crase. Não há dúvida de que o mito das agruras superlativas do português diz muito sobre a falência educacional brasileira, cupim que rói as fundações de qualquer projeto de desenvolvimento social que vá além da promoção de um maior acesso da população a shopping centers.

Temo, porém, que suas raízes sejam mais profundas. Percebe-se aí uma mistura tóxica de autocomplacência, autodepreciação, ufanismo, fuga da realidade e desculpa esfarrapada que pode ser ainda mais difícil de derrotar do que nosso vicejante semianalfabetismo.

http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/cronica/portugues-a-lingua-mais-dificil-do-mundo-conta-outra/ 

A
as excentricidades do português que, entre outros, se fixa em noções dos superlativos.
B
o acesso da população a uma maior e mais eficiente promoção social e econômica.
C
o colapso por que tem passado o projeto educacional brasileiro.
D
a carência que sofre o desenvolvimento social.
E
a luta sócio-educacional que deve favorecer o acesso de toda a população aos bens de consumo.

Gabarito comentado

F
Fernando LopesMonitor do Qconcursos

Tema central da questão: Interpretação de Texto, com foco na identificação da ideia principal e na análise de coerência textual. A habilidade central aqui é extrair do excerto qual é a verdadeira preocupação do autor com relação ao “mito das agruras superlativas do português”.

Justificativa da alternativa correta (C):

A alternativa C) “o colapso por que tem passado o projeto educacional brasileiro” é a correta. O excerto trata da crença de que o português é a língua mais difícil do mundo, analisando como essa ideia está relacionada à falência educacional brasileira. O autor emprega a metáfora do “cupim que rói as fundações de qualquer projeto de desenvolvimento social” para mostrar que a precariedade da educação corrói as bases do progresso social, indo além da simples inclusão em shopping centers. Pelos critérios da coerência textual (cf. Bechara), o núcleo do trecho não é a dificuldade do idioma em si, mas a “falência educacional” como entrave ao desenvolvimento.

Por que as demais alternativas estão incorretas?

A) “Excentricidades do português fixadas nos superlativos” — O texto não discute características gramaticais do idioma nem faz análise técnica de superlativo, mas sim o mito sobre sua suposta dificuldade.

B) “Acesso a promoção social e econômica” — Desvia do foco. O texto cita o acesso a shopping centers apenas como comparação, não como objetivo ou questão central.

D) “Carência do desenvolvimento social” — Apesar do desenvolvimento social ser citado, não é ele o alvo principal, mas sim a causa da sua precariedade: o colapso educacional.

E) “Luta sócio-educacional pelo acesso a bens de consumo” — Deturpa o sentido; o texto não propõe uma luta nem restringe a discussão ao acesso aos bens de consumo.

Estratégias para acertar questões como esta:

Busque identificar palavras-chave e metáforas que apontam o argumento central (“cupim que rói as fundações” = falência educacional). Leia atentamente, evitando selecionar alternativas baseadas em termos secundários que apenas aparecem no texto, mas não constituem seu tema central, estratégia essencial recomendada por Cunha & Cintra e nos principais manuais de redação.

Resumo: O trecho critica o mito da dificuldade do português e destaca a falência educacional como problema central que prejudica o desenvolvimento social. Alternativa correta: C.

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