Questõesde UNICAMP sobre Português

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UNICAMP 2020 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Os letramentos são, em si mesmos, tecnologias e nos dão as chaves para usar tecnologias mais amplas. Eles também produzem uma chave entre o eu e a sociedade: o meio através do qual agimos, participamos e nos tornamos moldados por sistemas e redes “ecossociais” mais amplos. De forma crescente, membros das nossas comunidades on-line virão de histórias culturais não europeias ou estadunidenses. Precisaremos aprender a nos comunicar efetivamente com eles e a aprender efetivamente a partir deles. Nosso sucesso econômico, nossas oportunidades intelectuais e a causa da paz e harmonia mundiais talvez dependam do nosso sucesso nisto. Por termos estado no topo por tanto tempo, será mais difícil para muitos estadunidenses e europeus de classe média e alta aprender a ouvir através das diferenças culturais.

(Adaptado de Jay Lemke, “Letramento metamidiático: transformando significados e mídias. Trabalhos em Linguística Aplicada, 49 (2). Campinas: IEL/Unicamp, 2010. Disponível em https://www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-18132010000200009&lang= pt. Acessado em 09/11/2020.)

A partir do excerto acima, é correto afirmar:

A
Os letramentos e a tecnologia impactam a diversidade do conhecimento, mas os desdobramentos nas relações econômicas não podem ser mensurados.
B
As manifestações visuais e textuais da cultura da internet criam lógicas de construção de significados que, aparentando ser diversificadas, reiteram o poder da Europa e dos EUA.
C
As redes sociais mais amplas demandam a supressão de saberes e linguagens, e a prática de homogeneização dos letramentos como estratégia de poder das grandes potências.
D
O conceito de letramento é importante para identificar a dinâmica social das linguagens e suas contínuas transformações na era da tecnologia.
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UNICAMP 2020 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

“Segundo Michiko Kakutani, em seu livro A morte da verdade, a direita populista contemporânea se apropriou dos argumentos pós-modernistas e seu repúdio filosófico da objetividade. A rejeição dos ideais do Esclarecimento pela Nova Esquerda, como razão e progresso, passou, ironicamente, a ser compartilhada pelas novas expressões populistas. Negacionistas de todas as estirpes – revisionistas do Holocausto, do golpe civil-militar de 1964 no Brasil, por exemplo – exploram o argumento de que não existem verdades e que todas aquelas que são proferidas carregam uma parcialidade e/ou são arbitrárias.”

(Rodrigo Caldeira, “A pandemia do anti-intelectualismo”. Estado da Arte. 25/03/2020. Disponível em https://estadodaarte.estadao.com.br/ a-pandemia-do-anti-intelectualismo/. Acessado em 11/10/2020.)

Assinale a alternativa correta a partir da leitura do fragmento.

A
O negacionismo é uma atitude anti-intelectual e pessoal, que tem como princípio vontades particulares e subjetivas, sem conotação com fenômenos políticos.
B
O uso de perspectivas epistemológicas pós-modernas pela direita populista é uma apropriação metodológica dos estudos que questionam a existência de verdades absolutas.
C
A questão da arbitrariedade ou parcialidade da verdade não significa, de acordo com as teorias pósmodernas, a negação de fatos, eventos e evidências.
D
A perspectiva pós-moderna contribui para os revisionismos por se opor a princípios iluministas e ter como método a especulação filosófica inspirada pelos céticos gregos.
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UNICAMP 2020 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

“A América está ameaçada não só pelo autoritarismo, mas pelo fascismo que opera como um culto explicitamente antidemocrático, centrado em torno de uma liderança que promete restauração nacional ante uma humilhação supostamente causada por minorias, liberais e marxistas. Como o fascismo glorifica a violência e a militarização da política, devemos ficar alertas ao fato de Trump ter se recusado a assumir compromisso com uma transferência pacífica do poder. (...)
Ao normalizar discurso e ideologia antidemocráticos, Trump está cada vez mais normalizando também um governo autoritário. A estratégia de Trump de enfraquecer as regras democráticas e a legitimidade da eleição está cada vez mais, e de modo assombroso, lembrando a destruição das democracias latino-americanas nas décadas de 60 e 70, quando ditadores criaram um clima em que atos anteriormente considerados ilegais, de uma hora para outra, se tornaram o novo padrão.”

(Jason Stanley, Federico Finchelstein e Pablo Piccato, “O fascismo vai ganhar a eleição nos EUA?”. Project Sindicate. Disponível em https://www.project-syndicate.org/commentary/trumpian-threat-of-fasci st-authoritarianism-after-election-by-federico-finchelstein-et-al-2020-10 /portuguese. Acessado em 09/11/2020.)

A partir do texto, é correto afirmar que os autores

A
consideram autoritarismo e fascismo como um mesmo fenômeno, marcado pelo apego ao poder e pelo descumprimento das regras eleitorais.
B
Identificam o personalismo do presidente dos EUA como uma resposta à emergência de um discurso radical feito por minorias, liberais e marxistas.
C
criticam a postura de violência política no processo eleitoral norte-americano e buscam referências em outros processos históricos de deslegitimação da democracia.
D
argumentam que a restauração nacional é uma postura ideológica incompatível com a defesa da democracia.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Morfologia - Verbos, Variação Linguística, Flexão verbal de modo (indicativo, subjuntivo, imperativo), Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Entre todas as palavras do momento, a mais flamejante talvez seja desigualdade. E nem é uma boa palavra, incomoda. Começa com des. Des de desalento, des de desespero, des de desesperança. Des, definitivamente, não é um bom prefixo.
Desigualdade. A palavra do ano, talvez da década, não importa em que dicionário. Doravante ouviremos falar muito nela. 
De-si-gual-da-de. Há quem não veja nem soletre, mas está escrita no destino de todos os busões da cidade, sentido centro/subúrbio, na linha reta de um trem. Solano Trindade, no sinal fechado, fez seu primeiro rap, “tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome”, somente com esses substantivos. Você ainda não conhece o Solano? Corra, dá tempo. Dá tempo para você entender que vivemos essa desigualdade. Pegue um busão da Avenida Paulista para a Cidade Tiradentes, passe o valetransporte na catraca e simbora – mais de 30 quilômetros. O patrão jardinesco vive 23 anos a mais, em média, do que um humaníssimo habitante da Cidade Tiradentes, por todas as razões sociais que a gente bem conhece. 
Evitei as estatísticas nessa crônica. Podia matar de desesperança os leitores, os números rendem manchete, mas carecem de rostos humanos. Pega a visão, imprensa, só há uma possibilidade de fazer a grande cobertura: mirese na desigualdade, talvez não haja mais jeito de achar que os pontos da bolsa de valores signifiquem a ideia de fazer um país.

(Adaptado de Xico Sá, A vidinha sururu da desigualdade brasileira. Em El País, 28/10/2019. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/28/opinion/1572287747_637859.html?fbclid=IwAR1VPA7qDYs1Q0Ilcdy6UGAJTwBO_snM DUAw4yZpZ3zyA1ExQx_XB9Kq2qU. Acessado em 25/05/2020.)

Assinale a alternativa que identifica corretamente recursos linguísticos explorados pelo autor nessa crônica.

A
Uso de verbos no imperativo, linguagem informal, texto impessoal.
B
Marcas de coloquialidade, uso de primeira pessoa, linguagem objetiva.
C
Marcas de oralidade, uso expressivo de recursos ortográficos, subjetividade do autor.
D
Uso de variação linguística, linguagem neutra, apelo ao tom coloquial.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

De acordo com Heloísa Starling, “Sertão é uma palavra carregada de ambiguidade. Sertão pode indicar a formação de um espaço interno, a fronteira aberta, ou um pedaço da geografia brasileira onde a terra se torna mais árida, o clima é seco, a vegetação escassa. Mas a palavra é igualmente utilizada para apontar uma realidade política: a inexistência de limites, o território do vazio, a ausência de leis, a precariedade dos direitos. Sertão é, paradoxalmente, o potencial de liberdade e o risco da barbárie – além de ser também uma paisagem fadada a desaparecer.

(Adaptado de Heloisa Murgel Starling, A palavra “sertão” e uma história pouco edificante sobre o Brasil. Disponível em https://www.suplementopernambuco. com.br/artigos/2243-a-palavra-sert%C3%A3o-e-uma-hist%C3%B3ria-pouco-edifi cante-sobre-o-brasil.html. Acessado em 06/08/2020.)

Assinale o excerto que corresponde à ideia de sertão desenvolvida pela autora.

A
“Se achardes no Sertão muito sertão, lembrai-vos que ele é infinito, e a vida ali não tem esta variedade que não nos faz ver que as casas são as mesmas, e os homens não são outros.” (Machado de Assis)
B
“Nessa época o sertão parece a terra combusta do profeta; dir-se-ia que por aí passou o fogo e consumiu toda a verdura, que é o sorriso dos campos e a gala das árvores, ou o seu manto, como chamavam poeticamente os indígenas.” (José de Alencar)
C
“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade.” (Guimarães Rosa)
D
“Dilatam-se os horizontes. O firmamento, sem o azul carregado dos desertos, alteia-se, mais profundo, ante o expandir revivescente da terra. E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono.” (Euclides da Cunha)

(José de Alencar, O sertanejo. São Paulo: Ática, 1995, p.15; Machado de Assis, Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, v. 3, p. 765; Euclides da Cunha, Os sertões. São Paulo: Ateliê, 2001, p. 135; João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956, p. 8.)
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Coesão e coerência, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

“Repartimos a vida em idades, em anos, em meses, em dias, em horas, mas todas estas partes são tão duvidosas, e tão incertas, que não há idade tão florente, nem saúde tão robusta, nem vida tão bem regrada, que tenha um só momento seguro.”

(Antonio Vieira, “Sermão de Quarta-feira de Cinza – ano de 1673”, em A arte de morrer. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 79.)

Nesta passagem de um sermão proferido em 1673, Antônio Vieira retomou os argumentos da pregação que fizera no ano anterior e acrescentou novas características à morte. Para comover os ouvintes, recorreu ao uso de anáforas.

Assinale a alternativa que corresponde ao efeito produzido pelas repetições no sermão.

A
A repetição busca sensibilizar os fiéis para o desengano da passagem do tempo.
B
A repetição busca demonstrar aos fiéis o temor de uma vida longeva.
C
A repetição busca sensibilizar os fiéis para o valor de cada etapa da vida.
D
A repetição busca demonstrar aos fiéis a insegurança de uma vida cristã.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

“Se Cabral tivesse uma vaga noção d’ACAPA de hoje, véspera do 22 de abril de 2020, provavelmente teria desviado o curso de suas caravelas rumo a outras terras.” 



(ACAPA. Disponível em https://www.facebook.com/acapabr/. Acessado em 30/ 04/2020.)


ACAPA é um perfil de Facebook, que publica capas possíveis de revista. O efeito humorístico na leitura dessa edição de ACAPA decorre mais precisamente do uso

A
da expressão “terra à vista”, que remete à época em que a terra ainda era plana.
B
da expressão “abundam birutas”, em referência aos povos originários do Brasil.
C
do pronome relativo “cujo” para indicar o destino traçado para a terra plana há 520 anos.
D
da imagem de uma biruta mostrando a direção do vento, aliada à referência a “birutas” atuais.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

A Equipe AzMina fez um experimento buscando no Google “frases para o Dia das Mães”. E o resultado foi um festival de frases que romantizam a maternidade. Ativaram, então, “sua caneta desromantizadora” para “corrigir” essas frases que estamos tão acostumados a ouvir, e muitas vezes reproduzir.



(Adaptado de Equipe AzMina, Caneta desromantizadora de mensagens de dia das mães. Disponível em https://azmina.com.br/reportagens/caneta-desroman tizadora-de-mensagens-de-dia-das-maes/. Acessado em 09/05/2020.)

As frases são “desromantizadas” porque a Equipe AzMina reconhece 

A
o sofrimento como condição para a vocação materna e para a realização feminina .
B
o amor materno como herança familiar, mesmo quando ele é remunerado.
C
a sobrecarga das mães na criação dos filhos, considerando também outras formas de maternidade.
D
a maternidade como sendo difícil, trabalhosa e, ainda assim, heroica e instintiva.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Entre todas as palavras do momento, a mais flamejante talvez seja desigualdade. E nem é uma boa palavra, incomoda. Começa com des. Des de desalento, des de desespero, des de desesperança. Des, definitivamente, não é um bom prefixo.
Desigualdade. A palavra do ano, talvez da década, não importa em que dicionário. Doravante ouviremos falar muito nela.
De-si-gual-da-de. Há quem não veja nem soletre, mas está escrita no destino de todos os busões da cidade, sentido centro/subúrbio, na linha reta de um trem. Solano Trindade, no sinal fechado, fez seu primeiro rap, “tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome”, somente com esses substantivos. Você ainda não conhece o Solano? Corra, dá tempo. Dá tempo para você entender que vivemos essa desigualdade. Pegue um busão da Avenida Paulista para a Cidade Tiradentes, passe o valetransporte na catraca e simbora – mais de 30 quilômetros. O patrão jardinesco vive 23 anos a mais, em média, do que um humaníssimo habitante da Cidade Tiradentes, por todas as razões sociais que a gente bem conhece.
Evitei as estatísticas nessa crônica. Podia matar de desesperança os leitores, os números rendem manchete, mas carecem de rostos humanos. Pega a visão, imprensa, só há uma possibilidade de fazer a grande cobertura: mire-se na desigualdade, talvez não haja mais jeito de achar que os pontos da bolsa de valores signifiquem a ideia de fazer um país.  

(Adaptado de Xico Sá, A vidinha sururu da desigualdade brasileira. Em El País, 28/10/2019. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/28/opinion/ 1572287747_637859.html?fbclid=IwAR1VPA7qDYs1Q0Ilcdy6UGAJTwBO_snM DUAw4yZpZ3zyA1ExQx_XB9Kq2qU. Acessado em 25/05/2020.) A crônica instiga o leitor a ficar atento à desigualdade na cidade de São Paulo.

Assinale a alternativa que identifica corretamente os recursos expressivos (estilísticos e literários) de que se vale o autor. 

A
A desigualdade está escrita nas linhas de trens e ressoa nos versos de Solano Trindade: onomatopeia.
B
No destino dos transportes coletivos no sentido centro subúrbio é possível viver a desigualdade: eufemismo.
C
A desigualdade se mostra na expectativa de vida dos moradores de bairros bem situados e periferias: alusão.
D
Na cobertura da imprensa, números da desigualdade perdem para pontos da bolsa de valores: ambiguidade.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Figuras de Linguagem, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Entre os versos de Gilberto Gil transcritos a seguir, podemos identificar uma relação paradoxal em:

A
“Sou viramundo virado / pelo mundo do sertão.”
B
“Louvo a luta repetida / da vida pra não morrer.”
C
“De dia, Diadorim, / de noite, estrela sem fim.”
D
“Toda saudade é presença / da ausência de alguém.”
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía*.
(Luís Vaz de Camões)

*soía: terceira pessoa do pretérito imperfeito do indicativo do verbo “soer” (costumar, ser de costume).

(Luís de Camões, 20 sonetos. Campinas: Editora da Unicamp, p.91.)

Indique a afirmação que se aplica ao soneto escrito por Camões.

A
O poema retoma o tema renascentista da mudança das coisas, que o poeta sente como motivo de esperança e de fé na vida.
B
A ideia de transformação refere-se às coisas do mundo, mas não afeta o estado de espírito do poeta, em razão de sua crença amorosa.
C
Tudo sempre se renova, diferentemente das esperanças do poeta, que acolhem suas mágoas e saudades.
D
Não apenas o estado de espírito do poeta se altera, mas também a experiência que ele tem da própria mudança.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

No conto “O espelho”, de Machado de Assis, uma personagem assume a palavra e narra uma história. Assinale a alternativa que explicita sua interlocução com os cavalheiros presentes.

A
“Lembra-me de alguns rapazes que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo.”
B
“Ah! pérfidos! Mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.”
C
“Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver.”
D
“O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo.”
(Machado de Assis, O espelho. Campinas: Editora da Unicamp, 2019.)
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

“Era Noca, que vinha toda alterada.
─ Nossa Senhora! Quebrou-se o espelho grande do salão!
─ Quem foi que o quebrou? Perguntou Nina, para dizer alguma coisa.
─ Ninguém sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho quebrado: morte ou ruína.
─ Morte! Se fosse a minha...”
(Júlia Lopes de Almeida, A Falência. Campinas: Editora da Unicamp, 2018, p. 257.)

O diálogo apresenta a reação das personagens femininas ao incidente doméstico com o objeto de decoração no palacete de Botafogo. Assinale a alternativa que justifica a fala final de Nina.

A
A destruição do espelho a leva a desejar a morte, pois sugere o alívio para a frustração amorosa.
B
A quebra do espelho lhe provoca o temor da morte, uma vez que antecipa a ruína financeira.
C
A destruição do espelho traz a certeza da morte, pois sinaliza o suicídio do ser amado.
D
A quebra do espelho a faz desejar a morte, pois sugere a catástrofe amorosa do casamento.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Certas imagens literárias podem tornar-se nucleares para uma cultura. Assim, por exemplo, a figura do marinheiro em Portugal. Ela adquire significados diferentes em períodos históricos distintos, mas conserva um elemento permanente. A semelhança entre a imagem do marinheiro em Camões e em Fernando Pessoa reside

A
no realismo moral do povo português, resultado da era das grandes navegações e da expansão do catolicismo.
B
na representação de uma identidade coletiva e individual sob o signo da mudança, do risco e da travessia.
C
na alegoria da degradação moral dos amantes e dos aventureiros, movidos pelo desejo sexual e pela cobiça material.
D
na simbolização dos ideais econômicos de Portugal, com reflexos na vida espiritual.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Esses artifícios de montagem, mixagem e scratching dão ao rap uma variedade de formas de apropriação que parecem tão volúveis e imaginativas quanto as das artes maiores – como, digamos, as exemplificadas na “Mona Lisa de bigode” de Duchamp e nas múltiplas reduplicações de imagens comerciais pré-fabricadas de Andy Warhol. O rap também apresenta uma variedade de conteúdos. Não apenas utiliza trechos de canções populares, como também absorve ecleticamente elementos da música clássica, de apresentações de TV, de jingles de publicidade e da música eletrônica de videogames. Ele se apropria até mesmo de conteúdos não musicais, como reportagens de jornais na TV e fragmentos de discursos de Malcom X e Martin Luther King.
(Richard Shusterman, Vivendo a arte. São Paulo: Editora 34, 1998, p.149.)

(Marcel Duchamp, “Mona Lisa de Bigode”, 1919.)

A emergência e a consolidação do rap como linguagem artística foram cercadas de polêmicas de natureza ética, política e cultural. Com base no excerto acima e no quadro de Marcel Duchamp, assinale a alternativa correta.

A
Os elementos poéticos do rap não podem ser comparados aos procedimentos das artes maiores, pois sua preocupação é mais política do que artística.
B
A incorporação das referências culturais nas canções dos Racionais Mc’s é comparável ao gesto de Marcel Duchamp ao pintar um bigode na Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Ambos são apropriações imaginativas e críticas.
C
O modernismo de Marcel Duchamp, os quadros do pintor norte-americano Andy Wahrol e as canções de rap não têm valor artístico, pois expressam a degradação e o ecletismo de uma sociedade de massas.
D
O rap dos Racionais Mc’s e as artes modernas não fazem distinção entre a cultura erudita e a de massa, misturam os seus elementos e produzem obras destituídas de crítica social.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

TEXTO 1


antipoema


é preciso rasurar o cânone

distorcer as regras

as rimas as métricas


o padrão

a norma que prende a língua


os milionários que se beneficiam do nosso silêncio


do medo de se dizer poeta,


só assim será livre a palavra.


(Ma Njanu é idealizadora do “Clube de Leitoras” na periferia de Fortaleza e da “Pretarau, Sarau das Pretas”, coletivo de artistas negras. Disponível em http://recantodasletras.com.br/poesias/6903974. Acessado em 20/05/2020.)


TEXTO 2

“O povo não é estúpido quando diz ‘vou na escola’, ‘me deixe’, ‘carneirada’, ‘mapear’, ‘farra’, ‘vagão’, ‘futebol’. É antes inteligentíssimo nessa aparente ignorância porque, sofrendo as influências da terra, do clima, das ligações e contatos com outras raças, das necessidades do momento e de adaptação, e da pronúncia, do caráter, da psicologia racial, modifica aos poucos uma língua que já não lhe serve de expressão porque não expressa ou sofre essas influências e a transformará afinal numa outra língua que se adapta a essas influências.”

(Carta de Mário a Drummond, 18 de fevereiro de 1925, em Lélia Coelho Frota, Carlos e Mário: correspondência completa entre Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2002, p. 101.)


Apesar de passados quase 100 anos, a carta de Mário de Andrade ecoa no poema de Ma Njanu. Ambos os textos manifestam

A
a ignorância ratificada do povo em sua luta para se expressar.
B
a necessidade de diversificar a língua segundo outros costumes.
C
a inteligência do povo e dos poetas livres de influências.
D
a ingenuidade em se crer na possibilidade de escapar às regras.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Texto 1

“Algumas vozes nacionais estão tentando atualmente encaminhar a discussão em torno da identidade ‘mestiça’, capaz de reunir todos os brasileiros (brancos, negros e mestiços). Vejo nesta proposta uma nova sutileza ideológica para recuperar a ideia da unidade nacional não alcançada pelo fracassado branqueamento físico. Essa proposta de uma nova identidade mestiça, única, vai na contramão dos movimentos negros e de outras chamadas minorias, que lutam pela construção de uma sociedade plural e de identidades múltiplas.”

(Kabengele Munanga, Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: Identidade Nacional versus Identidade Negra. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 16.)


Texto 2

“Os meus olhos coloridos/ Me fazem refletir/ Eu estou sempre na minha/ E não posso mais fugir/ Meu cabelo enrolado/ Todos querem imitar/ Eles estão baratinados/ Também querem enrolar/ Você ri da minha roupa/ Você ri do meu cabelo/ Você ri da minha pele/ Você ri do meu sorriso/ A verdade é que você,/ (Todo brasileiro tem!)/ Tem sangue crioulo/ Tem cabelo duro/ Sarará crioulo.”

(Macau, “Olhos Coloridos”, 1981, gravada por Sandra de Sá. Álbum: “Sandra de Sá”. RCA.)


Considerando o alerta de Munanga em relação a algumas “vozes nacionais”, a canção de Macau

A
resgata o antigo ideal da identidade nacional única.
B
aponta a possibilidade de uma identidade múltipla.
C
atesta que a pluralidade se opõe ao movimento negro.
D
insiste nas lutas das minorias por uma unidade.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Dizer que Caetano falou "X” porque "é um leonino vaidoso" quer dizer que: a) todo leonino é vaidoso (se leonino, vaidoso), ou b) que ele pertence a um subconjunto de leoninos, os vaidosos? (o que dá, no primeiro caso, "leonino, que é vaidoso" e no segundo, "leonino que é vaidoso").
(Sírio Possenti, postagem na rede social Facebook, 8 de agosto de 2020.)

Entre os comentários à postagem, qual deles responde corretamente à pergunta do autor?

A
“Em um determinado universo de crenças, leoninos são vaidosos. Isso é um clichê, um senso comum.”
B
“‘É um leonino vaidoso’ = é como qualquer leonino, no caso, vaidoso. É vaidoso porque é vaidoso. Alternativa a.”
C
“Entendo como a opção 2. Para que eu entendesse como opção 1, deveria ser: ‘como todo leonino, é vaidoso’, ou algo do tipo.”
D
“Fico com a restritiva ‘leonino que é vaidoso’. Entendo que, ao trazer vaidoso a leonino, acentua o vaidoso já implicado em leonino.”
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas. O cafona fura filas, canta pneus e passa sermões. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos. Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.

(Adaptado de Fernanda Young, Bando de cafonas. Publicado em https: //oglobo.globo.com/cultura/em-sua-ultima-coluna-fernanda-young-sent enciacafonice-detesta-arte-23903168. Acessado em 27/05/2020.)

*cafona: quem tem ou revela mau gosto (roupa cafona); que revela gosto ou atitude vulgares. (Adaptado de aulete.com.br.)

Essa releitura do significado de “cafona” salienta

A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas. O cafona fura filas, canta pneus e passa sermões. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos. Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.

(Adaptado de Fernanda Young, Bando de cafonas. Publicado em https: //oglobo.globo.com/cultura/em-sua-ultima-coluna-fernanda-young-sent enciacafonice-detesta-arte-23903168. Acessado em 27/05/2020.)   

A
a importância das atitudes de determinado grupo de pessoas em relação aos problemas que o país de fato enfrenta.
B
o controle do poder político nas mãos de pessoas desprovidas de ética e educação nas formas como se relacionam com o meio ambiente.
C
a incorporação de padrões de comportamento e de convivência social baseada na vulnerabilidade das classes minoritárias.
D
o privilégio de uma parcela da sociedade em relação a outras e a forma como isso determina os dilemas enfrentados pelo país.
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UNICAMP 2021 - Português - Interpretação de Textos, Coesão e coerência, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Em relação aos recursos de coesão usados na construção do texto, é correto afirmar que:

A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas. O cafona fura filas, canta pneus e passa sermões. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos. Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.

(Adaptado de Fernanda Young, Bando de cafonas. Publicado em https: //oglobo.globo.com/cultura/em-sua-ultima-coluna-fernanda-young-sent enciacafonice-detesta-arte-23903168. Acessado em 27/05/2020.)   

A
a “economia estagnada” é retomada no uso da expressão “dar carteiradas”.
B
o uso de “isso”, no final do texto, retoma as ideias de cafonice e honestidade.
C
“apesar de tudo”, na penúltima linha, retoma o que a autora denomina “império da cafonice”.
D
o “porque”, na última linha, explica que o país precisa do bom gosto dos cafonas.