Questão f610e7bd-e3
Prova:UCPEL 2018
Disciplina:História
Assunto:Período Colonial: produção de riqueza e escravismo, História do Brasil

O Brasil foi o país americano que mais recebeu escravos vindos da África e a forte presença negra fez com que houvesse uma multiplicidade de relações sociais, culturais e de poder com os brancos. Nesse contexto, a bipolarização proprietário-propriedade não é capaz de explicar os espaços de convivência e de resistência construídos pelos negros ao longos dos mais de trezentos anos de escravidão.
Um exemplo de situação que ocorria no Brasil escravocrata e que contesta a visão tradicional sobre a escravidão e o papel do negro na sociedade brasileira é:

A
a presença de escravos que eram pagos, principalmente nas cidades, por atividades que iam da venda de doces à contratação para tratar escravos machucados ou doentes.
B
a busca do caminho judicial para a criminalização dos donos de escravos, o que levou à elaboração de uma série de leis específicas para a punição dos que abusavam dos castigos sobre seus escravos já no período colonial.
C
a existência de negros cristianizados que se associavam aos jesuítas no processo de catequização dos povos indígenas e que lutaram ao lado destes nas Guerras Guaraníticas.
D
o enriquecimento de escravos negros durante a mineração, o que levou à formação de uma elite mineradora negra que se engajou em movimentos abolicionistas e no apoio aos quilombos que se espalhavam pelas Gerais.
E
a consciência dos negros a respeito dos horrores da escravidão que fazia com que, nos quilombos, a igualdade entre seus integrantes fosse a regra em uma sociedade na qual se estruturavam de forma coletiva.

Gabarito comentado

G
Gabrielle FrancoMonitor do Qconcursos

Alternativa correta: A

Tema central: a questão avalia a compreensão sobre a diversidade de relações sociais na sociedade escravocrata brasileira — isto é, situações que mostram que a dinâmica entre proprietário e propriedade era mais complexa do que a simples dicotomia senhor/escravo.

Resumo teórico: além do trabalho forçado nas fazendas, muitos escravos urbanos exerciam atividades remuneradas ou por conta própria (vender alimentos, fazer serviços, contratar-se para trabalhos temporários). Havia formas de negociação, economias próprias, possibilidade de poupar e, em casos, comprar alforria. Esses fatos são demonstrativos de autonomia parcial e redes sociais negras dentro do sistema escravista (ver Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala; João José Reis sobre práticas de resistência e vivência cotidiana).

Justificativa da alternativa A: historicamente documenta‑se a presença de escravos urbanos que vendiam doces, eram ambulantes, barbeiros, curandeiros ou que eram contratados para cuidar de enfermos — por vezes recebendo pagamento próprio ou pagando parte ao dono (“ganhavam” ou “trabalhavam por conta”). Isso demonstra práticas econômicas e socioculturais que relativizam a visão unidimensional de escravo apenas como “propriedade”.

Por que as outras alternativas estão erradas?

B — Embora existissem normas que regulavam castigos (Ordenações do Reino, práticas locais) e ações judiciais pontuais, não houve um movimento sistemático colonial ou jurídico para criminalizar amplamente os senhores por maus‑tratos; a lei raramente foi aplicada de modo a desmontar a lógica punitiva do sistema escravista.

C — Alguns negros foram cristianizados e houve contatos com jesuítas, mas a ideia de negros organizados com jesuítas catequizando indígenas e combatendo nas Guerras Guaraníticas é imprecisa: as Guerras Guaraníticas envolveram sobretudo indígenas missioneiros contra Portugal/Espanha; participação negra organizada nesse contexto não é fonte sólida.

D — Há relatos de libertos e ex‑escravos que alcançaram certa riqueza nas Minas, mas a afirmação de uma “elite mineradora negra” ampla e influente, que coordenou abolicionismo e apoio a quilombos de modo massivo, é exagerada e anacrônica.

E — Quilombos exibiam forte solidariedade e práticas coletivas, mas não eram sociedades homogêneas regidas por igualdade absoluta; havia variações internas, hierarquias e estratégias diversas de organização.

Dica de interpretação: procure provas históricas concretas (fontes, documentos, relatos de viajantes) e desconfiem de termos absolutos como “sempre”, “regra”, “elite generalizada”.

Fontes sugeridas: Gilberto Freyre, Casa‑Grande & Senzala; João José Reis, estudos sobre escravidão e resistência; Ordenações do Reino (para regulação jurídica colonial).

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