Atente para o seguinte excerto:
“A miscigenação que largamente se praticou aqui
corrigiu a distância social que de outro modo se teria
conservado enorme entre a casa-grande e a senzala.
O que a monocultura latifundiária e escravocrata
realizou no sentido de aristocratização, extremando a
sociedade brasileira em Senhores e escravos, com
uma rala e insignificante lambujem de gente livre
sanduichada entre esses dois extremos antagônicos,
foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais
da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio,
depois a mulata, a cabrocha, a quadrarona, a
oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até
esposas legítimas dos senhores brancos, agiram
poderosamente no sentido de democratização social
do Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo
ilegítimos, havidos delas pelos Senhores brancos,
subdividiu-se parte considerável das grandes
propriedades, quebrando-se assim a força das
sesmarias feudais e dos latifúndios do tamanho de
reinos”.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala: formação da
família brasileira sob o regime patriarcal. 52ª ed. São Paulo:
Global, 2013.
O sociólogo brasileiro Gilberto Freyre aponta, na
citação acima, a criação de uma “democracia racial”
na história da relação entre senhores e escravos no
Brasil escravocrata. Assim, mesmo que se possa
criticar tal concepção, a perspectiva teórico-sociológica de Freyre afirma que
Gabarito comentado
Alternativa correta: A
Tema central: a questão trata da interpretação da tese de Gilberto Freyre sobre os efeitos da miscigenação na sociedade colonial brasileira — a ideia de que o contato íntimo entre senhores e mulheres indígenas/africanas/mestiças teria amenizado distâncias sociais, gerando uma forma de “democratização social” (o que deu origem ao debate sobre o chamado mito da democracia racial).
Resumo teórico progressivo: - Gilberto Freyre (Casa-Grande & Senzala) defende que a miscigenação teve papel social democratizante ao inserir mestiços na herança e nas relações familiares, atenuando a polarização entre casa‑grande e senzala. - Críticas posteriores (p.ex. Florestan Fernandes e outros autores) apontam que isso não eliminou a desigualdade racial e a hierarquia social — por isso fala‑se em “mito” da democracia racial: a convivência íntima não significou igualdade política, econômica ou social plena. Fontes: G. Freyre, Casa‑Grande & Senzala; debates críticos sobre o “mito da democracia racial” em sociologia brasileira.
Por que A é correta A reproduz a leitura do excerto: Freyre afirma que a miscigenação aproximou socialmente senhores e escravos/mestiços, contribuindo para uma democratização social relativa. A alternativa reflete corretamente a tese apresentada pelo autor.
Por que as outras estão erradas B — afirma o oposto absoluto. O excerto reconhece que o latifúndio/escravidão tendiam a aristocratizar, mas que a miscigenação contrabalançou essa força; portanto dizer “distâncias insuperáveis” contraria o trecho. C — incorreto porque o texto destaca especialmente o papel das mulheres (índia, negra‑mina, mulata etc.) na formação de laços e descendência mestiça; não atribui a primazia aos homens negros. D — exagera o alcance: Freyre fala de “democratização social” por efeitos familiares e de propriedade, não de uma “vigorosa democracia social de governo” nem de igualdade política entre negros e brancos no período colonial. A alternativa distorce natureza e intensidade do processo descrito.
Dica de prova/estratégia: identifique palavras-chave do enunciado (quem atua, que efeito, âmbito social vs. político) e desconfiar de termos absolutos (insuperáveis, vigorosa democracia) — essas são pegadinhas frequentes.
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