Questão bcfdb8cf-e1
Prova:UCPEL 2004
Disciplina:História
Assunto:Mercantilismo, Colonialismo e a ocupação portuguesa no Brasil, História do Brasil

"Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem."
CHANDEIGNE, Michel (org.). Lisboa ultramarina: 1415- 1580 a invenção do mundo pelos navegadores portugueses. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 164.

Apesar dos apelos de Pero Vaz de Caminha de que no Brasil tudo era possível, o país nos trinta primeiros anos após o "descobrimento", permaneceu em uma condição de abandono. Sobre os motivos para esta tardia ocupação, considere as afirmativas:

I Os interesses da metrópole e da burguesia mercantil portuguesa estavam direcionados às Índias Orientais (especiarias e produtos de luxo) e às riquezas africanas (escravos negros, sal, marfim, etc.).
II Portugal não dispunha de capitais suficientes nem interesse em desviar o lucrativo comércio afroasiático para uma colônia que não possuía mercado consumidor nem produtor.
III O ouro encontrado no Brasil, à época do "descobrimento", não despertou o interesse imediato da burguesia mercantil portuguesa, isto justifica a situação de quase total abandono do país no referido período.
IV Os primeiros portugueses que chegaram no país encontraram populações indígenas que praticavam uma economia natural e autosuficiente, portanto, sem produção de excedentes comerciais, esta situação contribuiu para o descaso português em relação ao Brasil.

Estão corretas:

A
I e III somente.
B
II, III e IV somente.
C
I, II e IV somente.
D
II e IV somente.
E
todas.

Gabarito comentado

A
Anderson MaiaMonitor do Qconcursos

Resposta: Alternativa C — I, II e IV somente

Tema central: explica por que, após 1500, o território brasileiro sofreu ocupação tardia pelos portugueses. É preciso ligar prioridades econômicas e limitações materiais da metrópole ao tipo de sociedade indígena encontrada.

Resumo teórico: Nos primeiros 30 anos após o "descobrimento" Portugal priorizou o comércio afro-asiático (Índias e África), que oferecia lucros imediatos com especiarias, escravos e marfim. A coroa e a burguesia mercantil tinham recursos limitados e optaram por rotas e investimentos já lucrativos. Além disso, as sociedades indígenas praticavam economias de subsistência, sem excedentes facilmente incorporáveis ao comércio europeu, o que tornava o território pouco atraente economicamente naquele momento.

Fontes úteis: Carta de Pero Vaz de Caminha (texto-epítome da percepção inicial); sínteses de Boris Fausto e Sérgio Buarque de Holanda; estudos sobre política ultramarina de Evaldo Cabral de Mello.

Justificativa da alternativa C:

  • I (correta): confirma a prioridade luso pelas Índias e África — motivo central da pouca atenção ao Brasil.
  • II (correta): explica a limitação de capitais e a falta de interesse em desviar o comércio lucrativo para uma colônia sem mercado ou produção exportável.
  • IV (correta): a existência de economias indígenas majoritariamente naturais e sem excedente comercial dificultava a atração de investimentos e instalação de sociedades coloniais imediatas.

Análise das alternativas incorretas:

  • III (incorreta): afirma que ouro foi encontrado à época do "descobrimento" e não despertou interesse. Isso é anacrônico — as grandes descobertas de ouro no Brasil ocorreram no século XVII; no início do século XVI não havia indicação de riquezas minerais que justificassem interesse imediato.
  • Portanto, alternativas que incluem III (A, B, E) são falsas. A opção D omite I, que é explicação essencial, logo também incorreta.

Dica de prova: busque sinais de anacronismo (p.ex. riquezas que só aparecem séculos depois). Verifique se a alternativa capta tanto a prioridade mercantil/imperial quanto as condições locais (economia indígena) — ambas costumam ser exigidas juntos.

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