"Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa
que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por
bem das águas que tem." CHANDEIGNE, Michel (org.). Lisboa ultramarina: 1415-
1580 a invenção do mundo pelos navegadores portugueses.
Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 164.
Apesar dos apelos de Pero Vaz de Caminha de que no
Brasil tudo era possível, o país nos trinta primeiros anos
após o "descobrimento", permaneceu em uma condição
de abandono. Sobre os motivos para esta tardia
ocupação, considere as afirmativas:
I Os interesses da metrópole e da burguesia
mercantil portuguesa estavam direcionados às
Índias Orientais (especiarias e produtos de luxo)
e às riquezas africanas (escravos negros, sal,
marfim, etc.).
II Portugal não dispunha de capitais suficientes nem
interesse em desviar o lucrativo comércio afroasiático para uma colônia que não possuía
mercado consumidor nem produtor.
III O ouro encontrado no Brasil, à época do "descobrimento", não despertou o interesse
imediato da burguesia mercantil portuguesa, isto
justifica a situação de quase total abandono do
país no referido período.
IV Os primeiros portugueses que chegaram no país
encontraram populações indígenas que
praticavam uma economia natural e autosuficiente, portanto, sem produção de excedentes
comerciais, esta situação contribuiu para o
descaso português em relação ao Brasil.
Estão corretas:
II Portugal não dispunha de capitais suficientes nem interesse em desviar o lucrativo comércio afroasiático para uma colônia que não possuía mercado consumidor nem produtor.
III O ouro encontrado no Brasil, à época do "descobrimento", não despertou o interesse imediato da burguesia mercantil portuguesa, isto justifica a situação de quase total abandono do país no referido período.
IV Os primeiros portugueses que chegaram no país encontraram populações indígenas que praticavam uma economia natural e autosuficiente, portanto, sem produção de excedentes comerciais, esta situação contribuiu para o descaso português em relação ao Brasil.
Gabarito comentado
Resposta: Alternativa C — I, II e IV somente
Tema central: explica por que, após 1500, o território brasileiro sofreu ocupação tardia pelos portugueses. É preciso ligar prioridades econômicas e limitações materiais da metrópole ao tipo de sociedade indígena encontrada.
Resumo teórico: Nos primeiros 30 anos após o "descobrimento" Portugal priorizou o comércio afro-asiático (Índias e África), que oferecia lucros imediatos com especiarias, escravos e marfim. A coroa e a burguesia mercantil tinham recursos limitados e optaram por rotas e investimentos já lucrativos. Além disso, as sociedades indígenas praticavam economias de subsistência, sem excedentes facilmente incorporáveis ao comércio europeu, o que tornava o território pouco atraente economicamente naquele momento.
Fontes úteis: Carta de Pero Vaz de Caminha (texto-epítome da percepção inicial); sínteses de Boris Fausto e Sérgio Buarque de Holanda; estudos sobre política ultramarina de Evaldo Cabral de Mello.
Justificativa da alternativa C:
- I (correta): confirma a prioridade luso pelas Índias e África — motivo central da pouca atenção ao Brasil.
- II (correta): explica a limitação de capitais e a falta de interesse em desviar o comércio lucrativo para uma colônia sem mercado ou produção exportável.
- IV (correta): a existência de economias indígenas majoritariamente naturais e sem excedente comercial dificultava a atração de investimentos e instalação de sociedades coloniais imediatas.
Análise das alternativas incorretas:
- III (incorreta): afirma que ouro foi encontrado à época do "descobrimento" e não despertou interesse. Isso é anacrônico — as grandes descobertas de ouro no Brasil ocorreram no século XVII; no início do século XVI não havia indicação de riquezas minerais que justificassem interesse imediato.
- Portanto, alternativas que incluem III (A, B, E) são falsas. A opção D omite I, que é explicação essencial, logo também incorreta.
Dica de prova: busque sinais de anacronismo (p.ex. riquezas que só aparecem séculos depois). Verifique se a alternativa capta tanto a prioridade mercantil/imperial quanto as condições locais (economia indígena) — ambas costumam ser exigidas juntos.
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