Atente para a seguinte citação a respeito do
índio:
“O índio não é uma questão de cocar de pena,
urucum e arco e flecha, algo de aparente e evidente
nesse sentido estereotipificante, mas sim uma
questão de ‘estado de espírito’. Um modo de ser e
não um modo de aparecer. Na verdade, algo mais
(ou menos) que um modo de ser: a indianidade
designava para nós um certo modo de devir, algo
essencialmente invisível, mas nem por isso menos
eficaz: um movimento infinitesimal incessante de
diferenciação, não um estado massivo de ‘diferença’
anteriorizada e estabilizada, isto é, uma identidade
(um dia seria bom os antropólogos pararem de
chamar identidade de diferença e vice-versa). A
nossa luta, portanto, era conceitual: nosso problema
era fazer com que o ‘ainda’ do juízo de senso
comum ‘esse pessoal ainda é índio’ (ou ‘não é mais’)
não significasse um estado transitório ou uma etapa
a ser vencida. A ideia é a de que os índios ‘ainda’
não tinham sido vencidos, nem jamais o seriam.
Eles jamais acabar(i)am de ser índios, ‘ainda que’...
Ou justamente porquê. Em suma, a ideia era que
‘índio’ não podia ser visto como uma etapa na
marcha ascensional até o invejável estado de
‘branco’ ou ‘civilizado’”.
CASTRO, Eduardo Viveiro de, “No Brasil todo mundo é
índio, exceto quem não é”, entrevista concedida à equipe
de edição do livro Povos Indígenas no Brasil, Instituto
Socioambiental (ISA), 2006.
Considerando o texto, acima apresentado, avalie as
seguintes proposições:
I. A integração dos povos indígenas à sociedade
brasileira não significa a perda de suas
culturas e de suas identidades socioculturais.
II. Os povos indígenas não deixam de ser índios
enquanto mantiverem o sentimento de
pertencer às suas comunidades e de serem
reconhecidos como indígenas, mesmo morando em cidades e participando da vida
moderna da atual sociedade brasileira.
Sobre essas afirmações, é correto dizer que
Gabarito comentado
Alternativa correta: B - ambas são verdadeiras
Resumo do tema: A questão aborda identidade indígena como processo, não como traço fixo ou estereótipo. É preciso distinguir integração (participação na sociedade sem perda obrigatória da cultura) de assimilação (apagamento cultural).
Por que I é verdadeira? Dizer que a integração não necessariamente implica perda cultural está alinhado com princípios constitucionais e antropológicos: a Constituição Federal, art. 231, reconhece aos povos indígenas seus direitos socioculturais e ao modo próprio de existência. O autor citado trata a “índio” como modo de ser/devir, indicando que práticas e identidades podem persistir mesmo em contextos de interação com a sociedade maior.
Por que II é verdadeira? A manutenção do sentimento de pertencimento e do reconhecimento comunitário sustenta a condição indígena, mesmo que indivíduos morem em cidades ou adotem aspectos da vida moderna. A identidade coletiva não se reduz ao aspecto visível (estereótipos); depende também do reconhecimento social e subjetivo. Esse entendimento converge com perspectivas antropológicas contemporâneas (p.ex. Eduardo Viveiros de Castro) e normas internacionais (ILO 169; Declaração da ONU sobre povos indígenas).
Análise das alternativas incorretas:
A (I falsa / II verdadeira): Errada — I está correta porque integração não é sinônimo de desaparecimento cultural.
C (ambas falsas): Errada — contradiz evidências legais e teóricas que reconhecem persistência e pluralidade identitária.
D (I verdadeira / II falsa): Errada — II também é verdadeira porque identidade indígena se mantém via pertença e reconhecimento, independentemente de residência urbana.
Estratégia para provas: Procure nos enunciados palavras como "não significa", "enquanto", "sentimento de pertencer". Relacione com conceitos de cultura dinâmica e com dispositivos legais que protegem direitos coletivos (CF art.231, ILO 169).
Fontes/leituras indicadas: Constituição Federal (art.231); Convenção 169 da OIT; textos de Eduardo Viveiros de Castro sobre indianidade; literatura sobre identidade cultural (Stuart Hall).
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