Leia o excerto de uma peça teatral, de 1973.
Nassau
Como Governador-Geral do Pernambuco, a minha maior
preocupação é fazer felizes os seus moradores. Mesmo porque eles são mais da metade da população do Brasil, e esta
região, com a concentração dos seus quase 350 engenhos
de açúcar, domina a produção mundial de açúcar. Além do
mais, nessa disputa entre a Holanda, Portugal e Espanha,
quero provar que a colonização holandesa é a mais benéfica.
Minha intenção é fazê-los felizes… sejam portugueses,
holandeses ou os da terra, ricos ou pobres, protestantes ou
católicos romanos e até mesmo judeus.
Senhores, a Companhia das Índias Ocidentais, que financiou a campanha das Américas, fecha agora o balanço dos
últimos quinze anos com um saldo devedor aos seus acionistas da ordem de dezoito milhões de florins.
Moradores
Viva! Já ganhou! (...) Viva ele! Viva!
(Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra. Calabar:
o elogio da traição, 1976. Adaptado)
Sobre o fato histórico ao qual a obra teatral faz referência, é
correto afirmar que
Gabarito comentado
Alternativa correta: C
Tema central: trata-se da presença da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) no Nordeste (1624–1654) e seus efeitos econômicos e sociais: apoio à produção açucareira e manutenção da lógica colonial que concentra riqueza no comércio.
Resumo teórico e contextualização: a WIC invadiu partes de Pernambuco para controlar o açúcar — produto de alto valor no mercado europeu. Os holandeses trouxeram capitais, crédito e uma rede mercantil, beneficiando sobretudo comerciantes e a exportação. No entanto, a estrutura produtiva — latifúndios, trabalho escravo e monocultura — permaneceu. Assim, as transformações foram mercantis, não uma alteração estrutural que redistribuísse renda ou democratizasse o poder local. (Ver: Charles R. Boxer, The Dutch in Brazil; Stuart B. Schwartz, estudos sobre a economia açucareira.)
Por que C é correta: ela reconhece o duplo efeito: vantagens práticas (financiamento, mercados) trazidas pela WIC, mas conservação da lógica colonial — concentração de riqueza e poder nas mãos do comércio e dos grandes proprietários, sem ruptura social profunda. Isso explica avanços econômicos pontuais sem transformação das relações de produção.
Análise das alternativas incorretas:
A — Incorreta: afirma privilégio à elite luso‑brasileira e financiamento subsidiado aos católicos. Na verdade, os beneficiários principais foram capitais mercantis (holandeses e intermediários); a política não teve como objetivo favorecer exclusivamente elites luso‑brasileiras nem um “subsídio” religioso.
B — Incorreta: diz que o calvinismo foi imposto e religiões perseguidas. Pelo contrário, a administração holandesa em Recife foi relativamente tolerante — permitiu cultos católicos em particular e a presença judaica é bem documentada.
D — Incorreta: responsabiliza a falha por rivalidade Portugal‑Holanda “desde o século XV”. A disputa intensifica‑se no século XVII, ligada à competição atlântico‑comercial pós União Ibérica e às intenções holandesas de romper o monopólio ibérico — não uma inimizade contínua desde o XV.
E — Incorreta: afirma que promessas se confirmaram com livre comércio e ampla vantagem à elite açucareira. Na prática, o comércio ficou sob controle mercantil da WIC (monopólio/coordenação comercial), e muitos senhores não foram beneficiados como a alternativa sugere; resistências à retomada portuguesa ocorreram, mas não por amplo alinhamento da elite ao regime holandês.
Dica de prova: foque em termos-chave: “monopólio/mercantilização”, “tolerância religiosa”, “benefício pontual vs. mudança estrutural”. Desconfie de alternativas que usem superlativos absolutos (sempre/sempre foi assim).
Fontes sugeridas: Charles R. Boxer, The Dutch in Brazil; Stuart B. Schwartz, estudos sobre a economia açucareira no Brasil colonial.
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