Questão 7aac6e08-b0
Prova:PUC-GO 2010
Disciplina:Literatura
Assunto:Gênero Épico ou Narrativo, Gêneros Literários, Modernismo, Escolas Literárias

TEXTO 01


CITONHO Doutor Noêmio, desculpe a indiscrição. Andaram me falando de uma coisa, mas eu não quis de maneira nenhuma acreditar. Me disseram que o senhor é de uma raça que só come folha.
DR. NOÊMIO Pois pode acreditar. Sou vegetariano e tenho muito orgulho disto.
CITONHO Mas a gente vê umas neste mundo! Não está vendo que tomate e chuchu não dão sustança a ninguém?! Agora: feijão, farinha e carne, sim, isso é que é comida. Olhe aqui eu. Estou com mais de oitenta anos, só não como carne na Sexta-feira da Paixão – e olhe lá... Resultado: uma saúde de ferro: estou tinindo.
DR. NOÊMIO Isso é o que o senhor pensa. Seu corpo está envenenado, meu velho, com toxinas até na ponta dos cabelos. Até na sombra.

[...]

FREDERICO Eu só rezo pra defunto. Interessa? Liás, cabra safado não serve pra morrer, só serve pra apanhar. E apanhar entre os bicos dos peitos e o caroço do imbigo, que é pra não deixar marcas da surra. Ah!, nós três num deserto: eu, você e um cacete de quixaba! Porque quixaba é o chá melhor que existe no mundo pra pancada. Assim, pra ganhar tempo, a gente dá logo a pisa com quixaba, porque está dando o castigo e o remédio. Mas já gastei muita cera com você. [...]


(LINS, Osman. Lisbela e o prisioneiro. São Paulo: Planeta, 2003. p. 22 e 25.)



Considerando a obra citada no texto 01, assinale a alternativa correta:

A
Lisbela e o Prisioneiro é uma obra que tem uma linguagem que se aproxima, em vários aspectos, da fala corrente (popular) nordestina; as personagens Lisbela e o Prisioneiro são representantes das camadas mais simples da sociedade e a temática focaliza, pelo menos em parte, as relações sociais estabelecidas entre eles.
B
A espontaneidade da linguagem coloquial, os temas retirados do cotidiano e a escolha de personagens de camadas mais simples da sociedade são fatores que dificultam a comunicação de Lisbela e o Prisioneiro, tornando essa obra hermética e pouco expressiva da cultura nacional.
C
Lisbela e o Prisioneiro é um texto dramático. Assim, o leitor constata que essa modalidade de texto não é adequada para se fazer uma crítica dos costumes nem uma ironia social, como o texto épico, por exemplo.
D
Lisbela e o Prisioneiro é uma obra que está mais próxima do Pré-Modernismo, em razão de seu aspecto composicional, do que do Modernismo e do Pós-Modernismo, posto que o Pré-Modernismo, foi um período cultural que apresentou interesse pela realidade brasileira, pelas questões sociais de nosso país, como a guerra de Canudos, e buscou uma linguagem mais simples e coloquial.

Gabarito comentado

P
Patricia LimaMonitor com apoio de IA

Gabarito: A

Fundamento decisivo: A decisão vinha da comparação entre os excertos e a formulação da alternativa: as falas exibem oralidade e marca popular nordestina, o que confirma a caracterização proposta em A e afasta as demais.

Tema central: linguagem e representação social
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está de acordo com os traços observáveis no texto: a linguagem se aproxima da fala corrente popular nordestina; as personagens se vinculam a meios sociais simples; e os diálogos expõem relações sociais entre elas. O critério que sustenta o item é a compatibilidade entre a formulação da alternativa e os elementos linguísticos e temáticos presentes nos excertos.
B
Errada
Erra ao atribuir à coloquialidade, aos temas do cotidiano e às personagens populares um efeito de hermetismo. Os excertos mostram justamente o contrário: a fala oral e regional torna a comunicação mais imediata e a obra mais expressiva de uma cultura brasileira específica.
C
Errada
Erra ao afirmar que o texto dramático não é adequado para crítica de costumes nem ironia social. Isso contraria uma possibilidade clássica do gênero teatral; ser dramático não limita a obra a ponto de impedir crítica social.
D
Errada
Erra na classificação histórico-literária. Linguagem coloquial e interesse pela realidade brasileira não bastam para enquadrar a obra no Pré-Modernismo, e a vinculação proposta é historicamente inadequada para Osman Lins.
Pegadinha da questão
A confusão real era tomar linguagem popular e temática social como sinal de menor valor estético, de incapacidade crítica do drama ou de enquadramento automático no Pré-Modernismo.
Dica para questões semelhantes
  • Em questão de escola literária com excerto, comece pelos traços verificáveis no texto: linguagem, tipo de personagem e relação social mostrada.
  • Não trate coloquialidade e oralidade como prova de hermetismo; primeiro verifique o efeito real de comunicabilidade no excerto.
  • Não exclua a capacidade crítica de um gênero apenas por sua forma; drama também pode fazer crítica de costumes e ironia social.
  • Não classifique uma obra por um ou dois traços gerais de brasilidade; periodização exige compatibilidade histórica e literária mais precisa.

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