Questão 2cceb97c-b0
Prova:FATEC 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Tipos de Discurso: Direto, Indireto e Indireto Livre

O leitor pode identificar as personagens porque, entre outros recursos, empregou-se o discurso

Leia o texto para responder a questão.

Aptidão
– Bom dia, Senhor Pacheco. Sente-se, por favor. Temos uma ótima notícia. Como o senhor deve saber, contratamos uma firma de psicomputocratas para fazer testes de aptidão nos dez mil empregados desta firma. Precisamos nos atualizar. Acompanhar os tempos.
 – Sim, senhor.
– Os dez mil testes foram submetidos a um computador, e os resultados estão aqui. O senhor é o primeiro a ser chamado porque o computador nos forneceu os resultados em rigorosa ordem alfabética.
– Mas o meu nome começa com P.
– Hum, sim, deixa ver. Pacheco. Sim, sim. Deve ser por ordem alfabética do primeiro nome, então. Este computador é de última geração. Nunca erra. Como é seu primeiro nome?
– Xisto.
– Bom, isso não tem importância. Vamos adiante. Vejo aqui pela sua ficha que o senhor está conosco há vinte e oito anos. Sempre na seção de entorte de fresos. O senhor nunca falhou no serviço, nunca tirou férias e já recebeu várias vezes nosso prêmio de produção.
– Sim, senhor.
– O senhor começou na seção de entorte de fresos como faxineiro, depois passou a assistente de entortador, depois entortador, e hoje é o chefe de entorte. Me diga uma coisa, o senhor nunca se sentiu atraído para outra função, além do entorte de fresos? Nunca achou que entortar não era bem sua vocação?
– Nunca, não senhor.
– Pois veja só! O computador nos revela que a sua verdadeira vocação não é o entorte de fresos e sim o bistoque de tronas! O senhor é um bistocador de tronas nato, segundo o computador. Não é fantástico? E ainda tem gente que critica a tecnologia. O senhor era um homem deslocado no entorte de fresos e não sabia. Se não fosse o teste, nunca ficaria sabendo. Claro que essa situação vai ser corrigida. O senhor, a partir deste minuto, deixa de entortar.
– Sim, senhor.
– Só tem uma coisa, Senhor Pacheco. Nossa firma não trabalha com tronas. Pensando bem, ninguém trabalha com tronas, hoje em dia.
– Olha, tanto faz. Eu estou perfeitamente satisfeito no entorte e faltam só vinte anos pra me aposentar...
 – Então a firma gasta um dinheirão para descobrir a sua verdadeira vocação e o senhor quer jogá-la fora? Reconheço que o senhor tem sido um chefe de entorte perfeito. Aliás, o computador não descobriu ninguém com aptidão para o entorte. Vai ser um problema substituí-lo. Mas não podemos contestar a tecnologia. O senhor está despedido. Por favor, mande entrar o seguinte e passe bem.
(VERÍSSIMO, Luís Fernando. O nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 2003. Adaptado)

A
direto, já que o narrador, embora interfira no enredo, permite que as personagens expressem-se com liberdade.
B
direto, pois as personagens interagem exteriorizando suas reações e pontos de vista diante dos acontecimentos.
C
indireto, pois o relato, feito pelo narrador, remete a eventos iniciados e concluídos, no passado, pelas personagens.
D
indireto, já que a presença do narrador é essencial à organização da sequência de ações que envolve as personagens.
E
indireto livre, visto que o chefe e o funcionário, embora hesitantes no início, terminam convictos de que a tecnologia é incontestável.

Gabarito comentado

J
Jéssica Figueiredo Monitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a presença de discurso direto, com falas introduzidas por travessão e reproduzidas sem mediação parafrástica do narrador. No texto, chefe e funcionário aparecem em turnos de interlocução — “– Bom dia, Senhor Pacheco. Sente-se, por favor. Temos uma ótima notícia.”, “– Mas o meu nome começa com P.”, “– Nunca, não senhor.”, “– Olha, tanto faz. Eu estou perfeitamente satisfeito no entorte...” —, o que permite reconhecer as personagens pelas próprias falas e confirma a alternativa B.

Tema central: discurso direto
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra na justificativa. Embora acerte ao apontar discurso direto, desloca o fundamento para a ideia de que o narrador “interfira no enredo” e “permite que as personagens expressem-se com liberdade”. Esse não é o critério que resolve a questão. O que permite identificar as personagens é a reprodução direta das falas em diálogo, não uma suposta interferência do narrador.
B
Certa
A alternativa B está correta porque relaciona exatamente o recurso empregado no texto ao efeito pedido no comando. As personagens não são apresentadas por paráfrase do narrador: elas falam diretamente entre si, em enunciados autônomos, e nessa interação exteriorizam reação, posição e ponto de vista. É isso que se vê, por exemplo, na objeção “– Mas o meu nome começa com P.” e na fala “– Olha, tanto faz. Eu estou perfeitamente satisfeito no entorte e faltam só vinte anos pra me aposentar...”. Portanto, o reconhecimento das personagens decorre do discurso direto e da interação verbal explícita.
C
Errada
A classificação como discurso indireto está errada. No texto, o narrador não reformula as falas das personagens em estrutura do tipo “ele disse que...”; ao contrário, ele as apresenta materialmente, em diálogo introduzido por travessão. O fato de a narrativa remeter a acontecimentos não transforma a apresentação das falas em discurso indireto.
D
Errada
Também está errada por classificar o trecho como discurso indireto. A presença do narrador organizando a sequência de ações é compatível com qualquer narrativa e não define, por si, o modo de apresentação da fala. Aqui, o modo predominante é o direto, porque as personagens falam em primeira pessoa, em turnos explícitos de interlocução.
E
Errada
A alternativa erra em dois pontos. Primeiro, não há discurso indireto livre, porque não ocorre fusão entre voz do narrador e voz das personagens; as falas aparecem separadas e diretamente enunciadas. Segundo, a interpretação final é incorreta: o funcionário não termina convicto de que a tecnologia é incontestável; ele afirma “– Olha, tanto faz. Eu estou perfeitamente satisfeito no entorte...”, o que mostra resistência à mudança. A convicção sobre a tecnologia pertence ao chefe.
Pegadinha da questão
A banca opõe alternativas que nomeiam corretamente o discurso, mas nem todas o justificam pelo critério certo. A confusão principal é marcar uma opção só porque traz “discurso direto”, sem verificar se a justificativa realmente se apoia no diálogo explícito das personagens, e não no papel do narrador.
Dica para questões semelhantes
  • Separe a classificação do discurso da justificativa: não basta o rótulo estar certo; o fundamento também precisa coincidir com o texto.
  • Se a fala da personagem aparece diretamente no texto, em turnos de interlocução, o ponto de partida é discurso direto.
  • Não confunda presença de narrador com discurso indireto; o que decide é como a fala da personagem foi apresentada.
  • Em questões de interpretação, confirme quem expressa cada ponto de vista no texto antes de aceitar a justificativa da alternativa.

Estatísticas

Aulas sobre o assunto

Questões para exercitar

Artigos relacionados

Dicas de estudo