Questão 299e6817-ec
Prova:CÁSPER LÍBERO 2011
Disciplina:Literatura
Assunto:Gênero Dramático, Gêneros Literários

Sobre Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, é correto afirmar que:

A
A obra cativa pelo lirismo, ao mesmo tempo em que intriga pela estrutura caprichosamente montada, dando ensejo a uma abordagem doutrinal que incorpora, ao lado dos elementos poéticos, comédia, drama de costumes e bucolismo.
B
A transposição de um plano a outro – do político ao litúrgico – é perfeitamente adequada à peça, e toda a discussão acerca da figura do Anjo aponta, então, para seu caráter religioso, seu papel de representante de Deus na Terra.
C
O tema do juízo final é exposto já no monólogo inicial da peça, definindo com clareza a aversão à morte – em tom de comédia ligeira – por parte de todos os personagens, à exceção do Judeu.
D
Como em toda alegoria, o tema tratado em tom solene – a vida em sua dimensão profana e religiosa – logo é reinterpretado no estilo das comédias de costumes, à luz das experiências mais prosaicas.
E
A qualidade essencial da arte vicentina – o lirismo – falta completamente nessa obra. A peça vale pela palpitante atualidade com que o autor passou em revista a sociedade de seu tempo, espectadora da própria representação, e advertida dos pecados que a privam da salvação eterna.

Gabarito comentado

G
Gustavo Silva Monitor com apoio de IA

Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é reconhecer, na caracterização de Auto da barca do inferno, a peça como auto moral alegórico de julgamento com sátira social e moldura religioso-moral, em que o lirismo não funciona como traço central; por isso, a alternativa correta é a que destaca a revisão crítica da sociedade de seu tempo e a advertência quanto aos pecados que levam à condenação.

Tema central: sátira moral vicentina
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque atribui à obra uma composição marcada por lirismo e ainda acrescenta bucolismo, elemento inadequado ao gênero e ao universo temático de Auto da barca do inferno. A peça se caracteriza como auto moral satírico, não como obra definida por lirismo nem por componentes bucólicos.
B
Errada
Está errada porque desloca o eixo da peça para uma discussão sobre o Anjo como representante de Deus na Terra e para uma transposição político-litúrgica que não constitui o funcionamento dramático central da obra. O núcleo está no julgamento alegórico das almas no além, realizado por cenas cômico-satíricas, e não numa discussão doutrinária ou institucional dessa natureza.
C
Errada
Está errada por generalização factual e interpretativa imprecisa. A peça não se organiza pela ideia de que todos os personagens, exceto o Judeu, revelam claramente aversão à morte como chave central. O foco decisivo é a exposição dos pecados, das autojustificações e da condenação ou salvação dos tipos sociais no julgamento alegórico.
D
Errada
Está errada porque caracteriza de modo inadequado o tom da peça. Embora haja alegoria e aproximação com a comédia de costumes, o tratamento não parte de um tom solenemente dominante para só depois ser rebaixado; a comicidade satírica já é constitutiva do desenvolvimento dramático. Além disso, a formulação 'como em toda alegoria' generaliza sem apoio na base.
E
Certa
A alternativa E está correta porque reconhece que, nesta peça, Gil Vicente apresenta tipos sociais de sua época em julgamento pós-morte, com forte crítica social e moralizante. O eixo da obra é a sátira dramática articulada à salvação e à condenação das almas, de modo que o lirismo não se apresenta como traço central da peça.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre traços gerais da produção vicentina e os traços específicos desta peça, levando o candidato a aceitar lirismo, solenidade doutrinal ou até bucolismo como centrais onde, na verdade, predomina a sátira moral e social em estrutura alegórica.
Dica para questões semelhantes
  • Em Gil Vicente, diferencie traços da obra do autor em geral dos traços dominantes da peça cobrada.
  • Se a obra é um auto moral alegórico, procure como eixo o julgamento, a crítica social e a moralização, não o lirismo.
  • Não confunda moldura religiosa com tom solene predominante: tema transcendente pode ser tratado por comicidade satírica.
  • Desconfie de termos deslocados do universo da peça, como bucolismo, quando a estrutura é de sátira de tipos sociais.

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