Questão 299b1b49-ec
Prova:CÁSPER LÍBERO 2011
Disciplina:Literatura
Assunto:Gênero Dramático, Gêneros Literários

Sobre Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, é correto afirmar que:

A
A figura dramática do Parvo serve para tornar mais clara a baixeza das outras personagens que aparecem no cais, já que ele, o único provido de juízo, é capaz de reconhecer que o que elas fizeram em vida não lhes dá direito de embarcar para a Glória.
B
A peça procura endossar algumas crenças bastante comuns na época, apontando, por exemplo, que ouvir missas ou pedir para que estas fossem rezadas garantiam, às vezes, a salvação daqueles que se esquecessem de viver de acordo com os preceitos cristãos.
C
Ao representar tipos humanos considerados baixos, a peça parece querer alertar para a necessidade urgente de se corrigirem os costumes de acordo com a tradição cristã. Para tanto, nada melhor do que representar os vícios em sua forma mais vil, através da ridicularização das personagens que o cometeram.
D
A disputa que se dá entre as personagens e os representantes das barcas revela a necessidade de se conhecer a compaixão, e esta se torna urgente para os espectadores que ainda têm a possibilidade de entrar na barca do Anjo, se tiverem uma vida correta, sem pecados.
E
Através do riso, propiciado pela falta de decoro e pela ridicularização da cegueira dos personagens, que admitem que seus atos sejam considerados dignos de censura, o espectador é levado a reconhecer quais ações impedirão que seja aceito na barca do Anjo.

Gabarito comentado

S
Sabrina Tavares Monitor com apoio de IA

Gabarito: C

Fundamento decisivo: A questão exige reconhecer que, em Auto da barca do inferno, a peça representa tipos sociais e morais degradados para expor vícios e produzir crítica de costumes em horizonte cristão; esse critério torna correta a alternativa C e afasta as opções que distorcem o papel do julgamento, do Parvo, do ritualismo religioso ou da compaixão.

Tema central: sátira moralizante vicentina
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao definir o Parvo como “o único provido de juízo”. Esse enunciado é conceitualmente inadequado, porque absolutiza sua função. O Parvo atua como figura de contraste e desmascaramento satírico, mas isso não autoriza tratá-lo tecnicamente como único detentor de juízo moral na peça.
B
Errada
A alternativa é incompatível com a lógica moral da obra, porque atribui à peça endosso a práticas exteriores como garantia de salvação. A base afirma o contrário: o auto critica a insuficiência do formalismo religioso e do ritualismo desvinculado de conduta moral coerente.
C
Certa
A alternativa C acerta porque formula o núcleo funcional da peça: a representação de tipos humanos moralmente condenáveis, expostos de modo ridicularizado para produzir crítica de costumes e advertência corretiva em chave cristã. Essa combinação entre tipificação, ridicularização dos vícios e finalidade moral corresponde integralmente ao caráter satírico-moralizante do auto.
D
Errada
A alternativa desloca o eixo da peça para a compaixão, mas a estrutura do auto se organiza pelo julgamento moral-religioso das ações praticadas em vida. O critério decisivo das barcas não é compaixão humana, e sim condenação ou salvação segundo parâmetros ético-cristãos.
E
Errada
A alternativa acerta ao mencionar riso e ridicularização, mas erra no ponto decisivo ao dizer que as personagens admitem que seus atos são censuráveis. A base indica que o efeito satírico decorre da autoilusão, da cegueira moral e da incapacidade de reconhecer plenamente a própria culpa.
Pegadinha da questão
A banca mistura traços verdadeiros da obra com deslocamentos decisivos: riso sem função moral, religiosidade tratada como salvação automática, Parvo absolutizado como único lúcido e julgamento trocado por compaixão.
Dica para questões semelhantes
  • Em Gil Vicente, verifique se a alternativa reconhece o riso como instrumento de censura moral, e não como comicidade gratuita.
  • Desconfie de opções que apresentem ritual religioso externo como suficiente para salvação; o eixo é a conduta moral.
  • Quando a questão tratar das personagens, procure formulações ligadas a tipos sociais e vícios exemplares, não a psicologia individual complexa.

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