Questão 1e0db47e-de
Prova:FGV 2013
Disciplina:História
Assunto:Período Colonial: produção de riqueza e escravismo, História do Brasil

Dos engenhos, uns se chamam reais, outros inferiores, vulgarmente engenhocas. Os reais ganharam este apelido por terem todas as partes de que se compõem e todas as oficinas, perfeitas, cheias de grande número de escravos, com muitos canaviais próprios e outros obrigados à moenda; e principalmente por terem a realeza de moerem com água, à diferença de outros, que moem com cavalos e bois e são menos providos e aparelhados; ou, pelo menos, com menor perfeição e largueza, das oficinas necessárias e com pouco número de escravos, para fazerem, como dizem, o engenho moente e corrente.

ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp. 1982, p. 69.

O texto oferece uma descrição dos engenhos no Brasil no início do século XVIII. A esse respeito é correto afirmar:

A
O engenho de açúcar foi a principal unidade econômica do sertão nordestino durante o período colonial, permitindo a ocupação dos territórios situados entre o rio São Francisco e o rio Parnaíba.
B
A produção de açúcar no nordeste brasileiro colonial, em larga escala, foi possível graças à implantação do sistema de fábrica e ao uso do vapor como força motriz nas moendas.
C
Os engenhos da Bahia utilizavam, sobretudo, mão de obra escrava africana, enquanto que nos engenhos pernambucanos predominava o trabalho indígena
D
Os grandes engenhos desenvolviam todas as etapas de produção do açúcar, do plantio, passando pela moagem, a purga, a secagem e até a embalagem.
E
E A produção de açúcar no sistema de “plantation” ficou restrita aos domínios lusitanos das Américas, durante a época colonial, o que garantiu bons lucros aos produtores locais e aos comerciantes reinóis.

Gabarito comentado

A
Anderson MaiaMonitor do Qconcursos

Resposta correta: D

Tema central: organização do engenho açucareiro no Brasil colonial (início do século XVIII). A questão exige conhecer a estrutura produtiva do sistema plantation: unidades integradas que combinavam cultivo, moagem e preparo do açúcar, uso intensivo de trabalho escravo e tecnologias de época (rueda d'água, pilões, tachos).

Resumo teórico: os grandes engenhos eram complexos produtivos — não apenas moendas isoladas — com diversos espaços de trabalho (plantio, moenda, casa de purga, casa de secagem, depósitos e embarque). Antónil (Cultura e opulência do Brasil) distingue engenhos “reais” (movidos a água, completos) de “engenhocas” (mais simples, movidos a animais). Estudos clássicos sobre o tema incluem Stuart B. Schwartz (sobre plantações e sociedade) e análises gerais sobre o sistema plantation e a escravidão (ver também Eric Williams, Capitalism and Slavery).

Por que a alternativa D é correta: o próprio texto de Antónil fala em “todas as partes” e “todas as oficinas”, indicando que os grandes engenhos reuniam todas as etapas — do plantio à moagem, purga, secagem e embalagem — formando uma unidade produtiva integrada. Isso coincide com a visão historiográfica do engenho como uma pequena indústria doméstica-agrícola completa.

Análise das alternativas incorretas:

A — Errada. O engenho açucareiro concentrou-se na zona da mata litorânea do Nordeste (Pernambuco, Bahia, Paraíba), não como força principal de ocupação do sertão profundo entre São Francisco e Parnaíba. A ocupação do interior seguiu outros ciclos (gado, mineração, etc.).

B — Errada. Afirmação anacrônica: o uso do vapor e a “implantação do sistema de fábrica” pertence ao século XIX; no período indicado predominavam rodas d’água, tração animal e tecnologia pré-industrial.

C — Errada. Tanto na Bahia quanto em Pernambuco predominou o trabalho escravo africano; o trabalho indígena foi rapidamente marginalizado ou eliminado em grande escala por doenças, fuga e políticas coloniais. Não há a oposição proposta na alternativa.

E — Errada. O sistema plantation não foi exclusivo dos domínios lusitanos — esteve presente nas colônias caribenhas e americanas de várias metrópoles — e os lucros muitas vezes beneficiavam comerciantes e investidores metropolitanos mais que “produtores locais”.

Dica de prova: procure anacronismos (tecnologia do vapor), atenção a geografia (litoral vs sertão) e palavras do enunciado que coincidem com fontes primárias (como “todas as oficinas” em Antónil).

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