Questão 046148a3-8d
Prova:UNESP 2010
Disciplina:Português
Assunto:Morfologia - Verbos, Flexão verbal de tempo (presente, pretérito, futuro), Flexão verbal de modo (indicativo, subjuntivo, imperativo)
No fragmento apresentado, de Vidas secas, as formas verbais mais frequentes se enquadram em dois tempos do modo indicativo. Marque a alternativa que indica, pela ordem, o tempo verbal predominante no segundo parágrafo e o que predomina no quinto parágrafo.
No fragmento apresentado, de Vidas secas, as formas verbais mais frequentes se enquadram em dois tempos do modo indicativo. Marque a alternativa que indica, pela ordem, o tempo verbal predominante no segundo parágrafo e o que predomina no quinto parágrafo.
Instrução: A questão toma por base uma passagem do romance regionalista Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953).
Contas
Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa.
Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repende estourava:
– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
(Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1974.)
Instrução: A questão toma por base uma passagem do romance regionalista Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953).
Contas
Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa.
Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repende estourava:
– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
(Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1974.)
A
pretérito perfeito – pretérito imperfeito.
B
presente – pretérito imperfeito.
C
presente – pretérito perfeito.
D
futuro do pretérito – presente.
E
pretérito imperfeito – pretérito perfeito.
Gabarito comentado
T
Thiago Lima Monitor com apoio de IA
Gabarito: E
Fundamento decisivo: No segundo parágrafo, iniciado por “Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho...”, predominam formas no pretérito imperfeito do indicativo; no quinto, iniciado por “Ora, daquela vez...”, predominam formas no pretérito perfeito do indicativo. Essa distribuição verbal no texto-base determina a alternativa E.
Tema central: tempos verbais predominantes
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa inverte os tempos predominantes dos dois parágrafos. O segundo não é dominado por pretérito perfeito, mas por uma série de pretéritos imperfeitos, como “recorria”, “cedia” e “resmungava”. O quinto, ao contrário do que a alternativa afirma, não é dominado por pretérito imperfeito, mas por pretéritos perfeitos como “ajustou”, “foi”, “mandou” e “obteve”.
B
Errada
O erro está já na primeira indicação: o segundo parágrafo não tem predominância de presente. As formas centrais são passadas e morfologicamente marcadas no pretérito imperfeito: “recorria”, “cedia”, “aceitava”, “ouvia”, “ficava”. Além disso, o quinto parágrafo também não tem predominância de pretérito imperfeito, porque sua sequência principal é de ações concluídas no pretérito perfeito.
C
Errada
A segunda indicação coincide com o quinto parágrafo, que realmente é predominantemente de pretérito perfeito. Mas a alternativa erra na primeira metade, porque o segundo parágrafo não apresenta predominância de presente. A série verbal efetiva do trecho mostra pretérito imperfeito como tempo dominante.
D
Errada
A presença de “não seria roubado” pode induzir ao futuro do pretérito, mas essa forma é isolada e não define o parágrafo. O segundo parágrafo continua dominado por verbos no pretérito imperfeito. No quinto, também não predomina o presente: a cadeia narrativa principal está no pretérito perfeito, com formas como “ajustou”, “arrependeu-se”, “deixou”, “voltou”, “notou”, “reclamou” e “obteve”.
E
Certa
A alternativa E é a correta porque corresponde exatamente à distribuição das formas verbais nos dois parágrafos pedidos. No segundo parágrafo, predominam formas como “recorria”, “cedia”, “resmungava”, “engasgava-se”, “engolia”, “receava”, “rendia-se”, “aceitava”, “ouvia”, “era”, “ficava” e “estourava”, todas associadas a um quadro de ações habituais e reiteradas no passado, em pretérito imperfeito. No quinto parágrafo, a sequência dominante é “ajustou”, “arrependeu-se”, “deixou”, “foi”, “mandou”, “sentou-se”, “concentrou-se”, “distribuiu”, “realizou”, “voltou”, “notou”, “reclamou” e “obteve”, formas de pretérito perfeito que narram fatos pontuais e concluídos de uma ocasião específica, já indicada por “daquela vez”.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar uma forma isolada de outro tempo, como “não seria roubado”, como se ela definisse o parágrafo, e esquecer que a questão pede o tempo predominante, não exclusivo; além disso, no quinto parágrafo, formas como “diferiam” e “era” não anulam a predominância do pretérito perfeito.
Dica para questões semelhantes
- Localize exatamente os parágrafos pedidos antes de classificar os verbos.
- Levante a sequência principal de formas finitas do parágrafo, e não um verbo isolado.
- Se a questão pedir predominância, verifique qual tempo aparece mais e organiza o efeito textual básico do trecho.
- Distinga quadro habitual no passado de narrativa de episódio específico: essa oposição costuma separar pretérito imperfeito e pretérito perfeito.






