Questão 045bf935-8d
Prova:UNESP 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Tipos de Discurso: Direto, Indireto e Indireto Livre
Identifique, entre os quatro exemplos extraídos do texto, aqueles que se apresentam em discurso indireto livre:
I. Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos.
II. – Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer.
III. Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
IV. Não era preciso barulho não.
Identifique, entre os quatro exemplos extraídos do texto, aqueles que se apresentam em discurso indireto livre:
I. Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos.
II. – Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer.
III. Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
IV. Não era preciso barulho não.
Instrução: A questão toma por base uma passagem do romance regionalista Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953).
Contas
Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa.
Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repende estourava:
– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
(Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1974.)
Instrução: A questão toma por base uma passagem do romance regionalista Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953).
Contas
Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa.
Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repende estourava:
– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
(Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1974.)
A
I e II.
B
II e III.
C
III e IV.
D
I, II e III.
E
II, III e IV.
Gabarito comentado
Y
Yago Fernandes Monitor com apoio de IA
Gabarito: C
Fundamento decisivo: O critério decisivo é reconhecer a fusão entre voz do narrador e voz da personagem sem travessão nem verbo de elocução. No texto, III. Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria! e IV. Não era preciso barulho não. apresentam a enunciação aderida à perspectiva de Fabiano; por isso correspondem ao discurso indireto livre e conduzem ao gabarito C.
Tema central: discurso indireto livre
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque inclui dois itens que não são discurso indireto livre. I — "Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos." — é narração informativa do narrador, sem interioridade imediata da personagem. II — "– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer." — é discurso direto, marcado explicitamente pelo travessão.
B
Errada
Está errada porque II não se enquadra no fenômeno pedido. Embora III seja discurso indireto livre, II é fala direta da personagem, e o elemento que elimina essa possibilidade é a marca formal do travessão, que caracteriza discurso direto.
C
Certa
A alternativa C está correta porque reúne exatamente os dois trechos em que o narrador incorpora a fala ou o pensamento de Fabiano sem introdução formal. Em III, a interrogativa e a exclamativa mostram a revolta da personagem dentro da narração: "Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!". Em IV, "Não era preciso barulho não." traz formulação coloquial e tonalidade próprias de Fabiano, também sem travessão e sem verbo dicendi. Esse é o traço decisivo do discurso indireto livre.
D
Errada
Está errada porque mistura três formas diferentes de enunciação. I é narração do narrador, II é discurso direto por causa do travessão, e apenas III apresenta a fusão entre voz do narrador e voz da personagem sem marca introdutória formal. Portanto, a alternativa amplia indevidamente o conjunto correto.
E
Errada
Está errada porque, embora III e IV sejam de fato discurso indireto livre, II continua sendo discurso direto. O conteúdo coloquial de II não altera sua classificação, já que a presença do travessão exclui esse item do discurso indireto livre.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre fala da personagem e discurso indireto livre: II parece próximo da oralidade de Fabiano, mas o travessão o fixa como discurso direto; já III e IV, sem marca gráfica de fala, é que realizam a fusão de vozes típica do indireto livre.
Dica para questões semelhantes
- Primeiro elimine os trechos com travessão, aspas ou verbo de elocução expresso, porque isso afasta o discurso indireto livre.
- Depois procure frases em que a subjetividade da personagem entra na narração sem introdução formal, com pergunta, exclamação, avaliação ou tom coloquial.
- Separe narração informativa de interioridade da personagem: nem toda frase em terceira pessoa é discurso indireto livre.






