Questão f5538571-e1
Prova:UCPEL 2006
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Homonímia, Paronímia, Sinonímia e Antonímia

Em "Era um espírito conciliador e gabava-se de ter muita lábia," a palavra sublinhada só NÃO pode ser entendida como

DR. FLORISMAL

     Florismal!... Para Eugênio, aquele nome tinha um secreto encanto. Florismal aparecia quase todas as noites, chegava muito calmo, fumando o seu charuto de tostão e ia logo sentando na cadeira de balanço. Era um homem baixo, de cabelos ralos, quase calvo. No rosto gorducho e redondo, a barba forte era sempre uma sombra azulada, mesmo quando ele se escanhoava. Os dentes eram maus e miúdos. Florismal tinha uma voz macia e uma certa dignidade de estadista. Era um espírito conciliador e gabava-se de ter muita lábia. Nasci para advogado dizia. Se eu tivesse tido mais um pouco de juízo quando moço ... Calava-se, entortava a cabeça, batia a cinza do charuto e ficava em atitude sonhadora. Decerto a ver mentalmente o seu passado, os seus erros e uma carreira perdida. Ou então pensava apenas no efeito que aquelas palavras e aquela postura podiam estar produzindo nos interlocutores. A verdade era que amigos e conhecidos de Florismal sempre o chamavam para dar sentenças, e resolver questões. Diziase que o homenzinho arranjava causas para advogados sem clientela e ganhava com isso gordas comissões. Muito figurão tirava o chapéu ao cumprimentá-lo na rua. Florismal fazia até discursos políticos. Por isso tudo, os amigos lhe chamavam Dr. Florismal. A princípio, diziam doutor com uma pontinha de ironia. Florismal aceitava o título sorrindo, entre lisonjeado e divertido. Acabou ficando mesmo Dr. Florismal. Com o tempo, os amigos que gostavam dele esqueceram que aquilo era uma brincadeira e acabaram acreditando no título.

VERÍSSIMO, Érico. Olhai os lírios do campo. Rio de Janeiro:
Editora José Aguilar, 1966

A
astúcia.
B
solércia.
C
manha.
D
despropério.
E
estratagema.

Gabarito comentado

R
Robson FriasMonitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-contextual: no trecho "Era um espírito conciliador e gabava-se de ter muita lábia.", "lábia" é determinado pela caracterização de Florismal como alguém conciliador, influente e hábil na fala, de modo que se entende no campo da persuasão verbal; por isso, exclui-se "despropério", que não pertence a esse campo e remete a impropério, insulto ou disparate verbal.

Tema central: sentido contextual de lábia
Análise das alternativas
A
Errada
"Astúcia" pode ser aceita no contexto porque se aproxima da ideia de habilidade esperta para influenciar os outros. Isso é compatível com a atuação social de Florismal e com o valor contextual de "lábia" como recurso de convencimento.
B
Errada
"Solércia" também se ajusta ao contexto por significar habilidade, destreza, esperteza. Embora seja vocábulo menos usual, permanece dentro do campo semântico de habilidade verbal e social sugerido por "lábia".
C
Errada
"Manha" aproxima-se de "lábia" por trazer a noção de jeito manhoso, expediente esperto para conseguir algo. Esse traço é compatível com o personagem descrito como hábil no trato com os outros.
D
Certa
A alternativa D está correta porque "despropério" não se ajusta ao contexto construído para "lábia". O personagem é apresentado como conciliador, chamado para "dar sentenças, e resolver questões", e alguém que "fazia até discursos políticos"; nesse quadro, "lábia" significa capacidade de convencer pela fala, com jeito e habilidade. "Despropério", ao contrário, remete a fala ofensiva, grosseira, insultuosa ou disparatada, sentido incompatível com essa caracterização.
E
Errada
"Estratagema" não é sinônimo exato de "lábia", mas ainda cabe como aproximação contextual, porque remete a artifício ou expediente engenhoso para alcançar um fim. Assim, continua no campo da astúcia e do recurso habilidoso, diferentemente de "despropério".
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre sinônimo exato e aproximação contextual: A, B, C e E não precisam ser equivalentes perfeitos de "lábia"; basta que permaneçam no campo semântico da habilidade persuasiva. O erro é escolher uma palavra apenas por também se relacionar à fala, como se qualquer termo verbal servisse.
Dica para questões semelhantes
  • Leia a palavra pelo retrato que o texto constrói do personagem, não por um significado isolado fora do contexto.
  • Quando o comando pedir a única que não pode ser entendida como equivalente, procure a opção semanticamente incompatível, não a menos parecida.
  • Use os trechos de apoio do texto para confirmar o campo semântico dominante: aqui, influência, mediação, discurso e habilidade verbal.
  • Desconfie de termos raros apenas pelo estranhamento lexical; o critério continua sendo o sentido contextual.

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