Questão dee64d29-b0
Prova:UFT 2013
Disciplina:Literatura
Assunto:Escolas Literárias, Romantismo
Leia o fragmento do poema a seguir para responder a questão
BANDIDO NEGRO
(...)
E o senhor que na festa descanta
Pare o braço que a taça alevanta,
Coroada de flores azuis.
E murmure, julgando-se em sonhos:
"Que demônios são estes medonhos.
Que lá passam famintos e nus?
Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.
Somos nós, meu senhor, mas não tremas,
Nós quebramos as nossas algemas
P'ra pedir-te as esposas ou mães.
Este é o filho do ancião que mataste.
Este- irmão da mulher que manchaste...
Oh, não tremas, senhor, são teus cães.
Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.
São teus cães, que têm frio e têm fome,
Que há dez séc'los a sede consome...
Quero um vasto banquete feroz...
Venha o manto que os ombros nos cubra.
Para vós fez-se a púrpura rubra,
Fez-se o manto de sangue p'ra nós.
(...)
ALVES, Castro. Os escravos. São Paulo: Galex, s/d, p.50-51.
A poesia social de Castro Alves caracteriza-se por seu discurso antiescravagista. Nesse fragmento, é CORRETO afirmar.
Leia o fragmento do poema a seguir para responder a questão
BANDIDO NEGRO
(...)
E o senhor que na festa descanta
Pare o braço que a taça alevanta,
Coroada de flores azuis.
E murmure, julgando-se em sonhos:
"Que demônios são estes medonhos.
Que lá passam famintos e nus?
Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.
Somos nós, meu senhor, mas não tremas,
Nós quebramos as nossas algemas
P'ra pedir-te as esposas ou mães.
Este é o filho do ancião que mataste.
Este- irmão da mulher que manchaste...
Oh, não tremas, senhor, são teus cães.
Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.
São teus cães, que têm frio e têm fome,
Que há dez séc'los a sede consome...
Quero um vasto banquete feroz...
Venha o manto que os ombros nos cubra.
Para vós fez-se a púrpura rubra,
Fez-se o manto de sangue p'ra nós.
(...)
ALVES, Castro. Os escravos. São Paulo: Galex, s/d, p.50-51.
A poesia social de Castro Alves caracteriza-se por seu discurso antiescravagista. Nesse fragmento, é CORRETO afirmar.
A
O eu-lírico, ao chamar os escravos de cães, ressalta a
lealdade e a capacidade destes em defender e proteger
o senhor.
B
O eu-lírico denuncia os séculos de violência, miséria e
exploração pelos quais passaram gerações de
escravos, cujos descendentes se rebelam com sede de
justiça e de vingança.
C
O eu-lírico, ao mostrar o senhor em meio ao luxo e
surpreso com a visão fantasmagórica de homens
famintos e nus, expõe a vulnerabilidade de uma
sociedade contrária à escravidão.
D
O eu- lírico coloca escravos e senhor em situação social
de enfrentamento das leis escravagistas; essa situação
é representada pela quebra das algemas feita pelos
próprios escravos.
E
O eu-lírico assume um discurso de incentivo à violência,
exaltando o ódio dos escravos contra seus senhores.
Gabarito comentado
B
Benjamin Franco Monitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a análise semântica do fragmento dentro do discurso antiescravagista indicado no enunciado: expressões como "famintos e nus", "Cai, orvalho de sangue do escravo", "Nós quebramos as nossas algemas", "Este é o filho do ancião que mataste" e "há dez séc'los" mostram miséria, violência histórica e rebelião dos escravos e de seus descendentes, o que sustenta a alternativa B e invalida leituras de lealdade, legalismo ou apologia isolada da violência.
Tema central: denúncia antiescravagista
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque atribui a "cães" sentido de lealdade e proteção ao senhor, mas o contexto mostra exatamente o contrário: a expressão funciona como imagem irônica e degradante da desumanização dos escravos. Isso é incompatível com "Nós quebramos as nossas algemas" e "Cresce, cresce, vingança feroz", que indicam ruptura da submissão e revolta contra o opressor.
B
Certa
A alternativa B está correta porque sintetiza o que o fragmento efetivamente constrói: uma denúncia da escravidão como violência prolongada no tempo e transmitida entre gerações, com marcas de fome, nudez, sangue, humilhação e morte. Isso aparece em "famintos e nus", "sangue do escravo", "Este é o filho do ancião que mataste" e "há dez séc'los". Ao mesmo tempo, o poema mostra reação insurgente dos oprimidos em "Nós quebramos as nossas algemas" e "Cresce, cresce, vingança feroz", de modo que a ideia de rebelião com sede de justiça e vingança corresponde fielmente ao fragmento.
C
Errada
Está errada porque inverte o alvo da crítica. O poema não mostra a vulnerabilidade de uma sociedade contrária à escravidão; mostra o senhor em posição de luxo e privilégio diante de homens "famintos e nus". O senhor é apresentado como algoz e beneficiário da ordem escravista, não como integrante de uma sociedade antiescravista.
D
Errada
Está errada porque desloca o sentido do trecho para um enfrentamento das leis escravagistas, o que não é o foco textual sustentado pela base. A quebra das algemas representa rebelião e libertação contra a opressão escravista e contra o senhor-algoz, dentro de um quadro de violência social e histórica, não uma formulação jurídico-legal centrada em leis.
E
Errada
Está errada porque reduz o poema a incentivo à violência e exaltação do ódio. Embora o fragmento contenha "vingança feroz", a base indica que isso deve ser lido como efeito da opressão histórica denunciada, e não como simples apologia autônoma da violência. O núcleo do texto é a denúncia antiescravagista.
Pegadinha da questão
A banca explora a leitura isolada de imagens fortes do poema: "cães" pode induzir à falsa ideia de lealdade, e "vingança feroz" pode induzir à falsa ideia de mera exaltação da violência; no contexto, ambas só fazem sentido dentro da denúncia da escravidão e da revolta dos oprimidos.
Dica para questões semelhantes
- Use a orientação do enunciado como chave de leitura: se ele afirma tratar-se de poesia social antiescravagista, descarte interpretações que naturalizem a relação senhor-escravo.
- Em poemas de denúncia, interprete imagens fortes pelo campo semântico dominante do trecho; aqui, fome, nudez, sangue, algemas e morte apontam para opressão histórica.
- Quando aparecer reação violenta dos oprimidos, verifique se o texto a apresenta como causa autônoma ou como consequência da violência anterior; neste caso, ela decorre da opressão secular.
- Não isole uma palavra decisiva do contexto; "cães" só pode ser entendido corretamente junto de "frio", "fome", "algemas" e "vingança feroz".






