Questão cfd65c0a-ed
Prova:CÁSPER LÍBERO 2013
Disciplina:Português
Assunto:Uso dos conectivos, Análise sintática, Sintaxe
Em “Por mais que isso possa parecer contraintuitivo, a verdadeira política está
sempre para além da afirmação das identidades”, a expressão “por mais que” tem
valor de:
Em “Por mais que isso possa parecer contraintuitivo, a verdadeira política está
sempre para além da afirmação das identidades”, a expressão “por mais que” tem
valor de:
Leia o texto a seguir e responda à questão:
Muitas regras, poucos direitos
Há um princípio político que nos leva a acreditar que as lutas políticas caminham
necessariamente para a institucionalização de direitos adquiridos. Assim, lutamos para ter
direitos reconhecidos pelo ordenamento jurídico. Como resultado desse princípio, cada vez
mais a vida social fica institucionalizada e regulada por cláusulas que visam dar voz ao direito
dos grupos, até então, profundamente vulneráveis.
Esse princípio funcionou para a ampliação de direitos em relação às minorias étnicas,
religiosas e sexuais. Ou seja, nestes casos, eram demandas direcionadas ao Estado como
ator capaz de garantir a universalização real das condições de liberdade exigidas por
seus cidadãos. É inegável que tal processo foi e ainda é importante, mas ele poderia
ser radicalizado. No entanto, tal radicalização não passa por um aprofundamento
dos mecanismos de institucionalização. Ela passa, ao contrário, por uma profunda
desinstitucionalização.
Quando alguém levanta tal ideia, alguns acabam por ver nela uma forma insidiosa de
liberalismo. Ou seja, tudo se passa como se estivéssemos diante de uma aplicação do velho
mantra: quanto menos Estado melhor. Nesse sentido, desinstitucionalizar significaria deixar
a sociedade livre para criar formas de vida, fechando os olhos para experiências de opressão
e de vulnerabilidade. Dessa forma, liberais radicais defendem, por exemplo, o direito de uma
mulher alugar seu útero, procedimento conhecido como “barriga de aluguel”. Eles afirmam
que o Estado não deveria intervir no conteúdo do que sujeitos decidem colocar em relações
de contrato, especialmente se ele passa pelo corpo próprio.
Um contraargumento lembraria que a experiência concreta de alugar o útero é feita,
normalmente, por mulheres em extrema pobreza e que praticamente ninguém passa por
tal experiência se não estiver em grande vulnerabilidade econômica. Desinstitucionalizar
tal “possibilidade de escolha” seria permitir e legitimar a pior de todas as espoliações
econômicas.
O argumento é válido. Por isso, poderíamos pensar uma versão de políticas de
desinstitucionalização distinta de sua versão liberal. Ela passa pelo retraimento das legislações
sobre costumes, família e autodeterminação, e pelo fortalecimento da sensibilidade jurídica
contra processos de espoliação. Em outras ocasiões, sugeri dois exemplos. Um ligado à
desinstitucionalização do casamento.
Processo no interior do qual o Estado deixa de legislar sobre a forma do matrimônio,
guardando-se para legislar única e exclusivamente sobre as relações econômicas entre casais ou outras formas de “agrupamentos afetivos”. Esta seria uma maneira de radicalizar o
princípio de abertura do casamento a modelos não ligados à família heterossexual burguesa.
Em vez de ampliar a lei para casos que ela não contemplava (como os homossexuais),
deveríamos simplesmente eliminar a lei, conservando apenas os dispositivos ligados a
problemas econômicos (pensão, obrigações financeiras) e guarda de filhos.
Outro exemplo concerne às legislações sobre porte de signos religiosos, como burcas e véus.
Em vez de entrar no guarda-roupa de seus cidadãos e decidir o que eles não devem vestir,
o Estado deveria simplesmente garantir a liberdade de ninguém, a partir de certa idade,
portar o que não quer (o que leva em conta até mesmo uniformes escolares impostos a
adolescentes). Ou seja, no lugar de institucionalizar hábitos, como as vestimentas, por meio
do discurso de que há roupas mais opressivas que outras, o Estado simplesmente sai, por
exemplo, das discussões surreais sobre o significado de uma burca e contenta-se em garantir
um quadro formal de liberdade.
Esses processos de desinstitucionalização permitem às sociedades caminharem
paulatinamente para um estado de indiferença em relação a questões culturais e de
costumes. Pois questões culturais sempre serão espaços de afirmação da multiplicidade de
identidades. Mas a política deve, no horizonte, se descolar dessa afirmação. Por mais que
isso possa parecer contraintuitivo, a verdadeira política está sempre para além da afirmação
das identidades. O que pode soar estranho para alguns, mas parece-me uma proposição
necessária. (Vladimir Safatle, Carta Capital n. 768, ano XIX, 2/10/2013, p. 39).
Leia o texto a seguir e responda à questão:
Muitas regras, poucos direitos
Há um princípio político que nos leva a acreditar que as lutas políticas caminham
necessariamente para a institucionalização de direitos adquiridos. Assim, lutamos para ter
direitos reconhecidos pelo ordenamento jurídico. Como resultado desse princípio, cada vez
mais a vida social fica institucionalizada e regulada por cláusulas que visam dar voz ao direito
dos grupos, até então, profundamente vulneráveis.
Esse princípio funcionou para a ampliação de direitos em relação às minorias étnicas,
religiosas e sexuais. Ou seja, nestes casos, eram demandas direcionadas ao Estado como
ator capaz de garantir a universalização real das condições de liberdade exigidas por
seus cidadãos. É inegável que tal processo foi e ainda é importante, mas ele poderia
ser radicalizado. No entanto, tal radicalização não passa por um aprofundamento
dos mecanismos de institucionalização. Ela passa, ao contrário, por uma profunda
desinstitucionalização.
Quando alguém levanta tal ideia, alguns acabam por ver nela uma forma insidiosa de
liberalismo. Ou seja, tudo se passa como se estivéssemos diante de uma aplicação do velho
mantra: quanto menos Estado melhor. Nesse sentido, desinstitucionalizar significaria deixar
a sociedade livre para criar formas de vida, fechando os olhos para experiências de opressão
e de vulnerabilidade. Dessa forma, liberais radicais defendem, por exemplo, o direito de uma
mulher alugar seu útero, procedimento conhecido como “barriga de aluguel”. Eles afirmam
que o Estado não deveria intervir no conteúdo do que sujeitos decidem colocar em relações
de contrato, especialmente se ele passa pelo corpo próprio.
Um contraargumento lembraria que a experiência concreta de alugar o útero é feita,
normalmente, por mulheres em extrema pobreza e que praticamente ninguém passa por
tal experiência se não estiver em grande vulnerabilidade econômica. Desinstitucionalizar
tal “possibilidade de escolha” seria permitir e legitimar a pior de todas as espoliações
econômicas.
O argumento é válido. Por isso, poderíamos pensar uma versão de políticas de
desinstitucionalização distinta de sua versão liberal. Ela passa pelo retraimento das legislações
sobre costumes, família e autodeterminação, e pelo fortalecimento da sensibilidade jurídica
contra processos de espoliação. Em outras ocasiões, sugeri dois exemplos. Um ligado à
desinstitucionalização do casamento.
Processo no interior do qual o Estado deixa de legislar sobre a forma do matrimônio,
guardando-se para legislar única e exclusivamente sobre as relações econômicas entre casais ou outras formas de “agrupamentos afetivos”. Esta seria uma maneira de radicalizar o
princípio de abertura do casamento a modelos não ligados à família heterossexual burguesa.
Em vez de ampliar a lei para casos que ela não contemplava (como os homossexuais),
deveríamos simplesmente eliminar a lei, conservando apenas os dispositivos ligados a
problemas econômicos (pensão, obrigações financeiras) e guarda de filhos.
Outro exemplo concerne às legislações sobre porte de signos religiosos, como burcas e véus.
Em vez de entrar no guarda-roupa de seus cidadãos e decidir o que eles não devem vestir,
o Estado deveria simplesmente garantir a liberdade de ninguém, a partir de certa idade,
portar o que não quer (o que leva em conta até mesmo uniformes escolares impostos a
adolescentes). Ou seja, no lugar de institucionalizar hábitos, como as vestimentas, por meio
do discurso de que há roupas mais opressivas que outras, o Estado simplesmente sai, por
exemplo, das discussões surreais sobre o significado de uma burca e contenta-se em garantir
um quadro formal de liberdade.
Esses processos de desinstitucionalização permitem às sociedades caminharem
paulatinamente para um estado de indiferença em relação a questões culturais e de
costumes. Pois questões culturais sempre serão espaços de afirmação da multiplicidade de
identidades. Mas a política deve, no horizonte, se descolar dessa afirmação. Por mais que
isso possa parecer contraintuitivo, a verdadeira política está sempre para além da afirmação
das identidades. O que pode soar estranho para alguns, mas parece-me uma proposição
necessária. (Vladimir Safatle, Carta Capital n. 768, ano XIX, 2/10/2013, p. 39).
A
Finalidade.
B
Comparação.
C
Condição.
D
Consequência.
E
Concessão.
Gabarito comentado
C
Camila Barbosa Monitor com apoio de IA
Gabarito: E
Fundamento decisivo: No trecho "Por mais que isso possa parecer contraintuitivo, a verdadeira política está sempre para além da afirmação das identidades.", a locução "por mais que" introduz concessão: admite-se um fato ou aparência contrária, mas insuficiente para impedir a afirmação principal; por isso, a alternativa correta é a E.
Tema central: valor concessivo de "por mais que"
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta. Não há ideia de finalidade. A oração iniciada por "por mais que" não indica objetivo, propósito ou intenção da oração principal. O período não diz para que a verdadeira política estaria além da afirmação das identidades; apenas admite uma objeção sem derrubar a tese.
B
Errada
Incorreta. Não há comparação entre termos, qualidades ou estados. A presença de "mais" pode induzir esse erro, mas, na locução fixa "por mais que", o valor relevante no contexto é concessivo. O trecho não estabelece paralelo comparativo; ele reconhece uma aparência contrária e a supera argumentativamente.
C
Errada
Incorreta. A oração não apresenta condição para a validade da principal. A afirmação de que a verdadeira política está além da afirmação das identidades não depende de isso parecer ou não contraintuitivo. O verbo no subjuntivo em "possa parecer" não transforma a relação em condicional.
D
Errada
Incorreta. Não se exprime consequência. O trecho não apresenta resultado produzido pela oração principal nem desdobramento consequencial. A primeira oração apenas introduz um obstáculo aparente, que é mantido como admitido, mas insuficiente para anular a afirmação central.
E
Certa
A alternativa E está correta porque a locução "por mais que" tem, nesse período, valor concessivo. O texto reconhece uma objeção possível — a ideia poder parecer contraintuitiva — e, apesar disso, mantém a tese principal: "a verdadeira política está sempre para além da afirmação das identidades". A própria relação de sentido permite a paráfrase por "embora" ou "ainda que", sem alteração essencial do argumento.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: a palavra "mais" pode levar à falsa leitura de comparação, e o subjuntivo em "possa parecer" pode induzir leitura de condição. A decisão correta depende da relação de sentido entre as duas orações: admite-se uma objeção, mas a tese principal permanece.
Dica para questões semelhantes
- Leia a locução dentro do período completo: o valor semântico vem da relação entre as orações, não da soma isolada das palavras.
- Se a oração inicial admite um fato ou aparência contrária sem impedir a principal, o valor tende a ser concessivo.
- Teste uma paráfrase por "embora" ou "ainda que"; se o sentido argumentativo se conservar, há forte indício de concessão.






