Questão cd93bc49-6f
Prova:UEG 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos

O excerto constitui, por parte do eu poético, uma

Leia o trecho abaixo para responder às questões 12 e 13.

– Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).

NETO, João Cabral de Melo. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008. p. 82.

A
expressão de esperança em relação à vida.
B
avaliação sobre a condição miserável do sertanejo.
C
lamentação em virtude da peregrinação do retirante.
D
reflexão acerca da sua relação cotidiana com a morte.

Gabarito comentado

S
Samanta de AbreuTime de mentores Qconcursos

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O comando pede a caracterização do excerto “por parte do eu poético”, e o texto, em primeira pessoa, organiza-se pela recorrência de “morte” em oposição à expectativa de “vida” (“só a morte vejo ativa, / só a morte deparei / e às vezes até festiva; / só morte tem encontrado / quem pensava encontrar vida”). Esse eixo semântico e enunciativo mostra uma reflexão sobre a experiência cotidiana do eu poético com a morte, o que confirma a alternativa D.

Tema central: reflexão sobre a morte
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o excerto não expressa esperança em relação à vida. O campo lexical dominante é o da morte, repetido em “só a morte vejo ativa”, “só a morte deparei” e “só morte tem encontrado”. Além disso, a vida não aparece como positiva, mas como “vida severina”, isto é, uma existência precária. Portanto, há incompatibilidade semântica entre a alternativa e o sentido do trecho.
B
Errada
Está errada porque desloca o foco do excerto. Há, sim, referência à dureza da vida do retirante em “vida severina” e “para o homem que retira”, mas isso funciona como desdobramento da fala do eu poético. O centro do trecho não é uma avaliação geral e objetiva da condição miserável do sertanejo; é a reflexão subjetiva do eu poético sobre encontrar continuamente a morte.
C
Errada
Está errada porque reduz o texto a uma simples lamentação da peregrinação. A retirada aparece como circunstância da fala, em “estou retirando” e “para o homem que retira”, mas o núcleo desenvolvido é outro: a constatação reiterada da morte como presença dominante na experiência vivida. O problema da alternativa é trocar o pano de fundo do percurso pelo tema central efetivamente construído no excerto.
D
Certa
A alternativa D é a correta porque resume o núcleo semântico e enunciativo do trecho: o eu poético fala de sua própria experiência, marcada pelo encontro repetido com a morte onde esperava encontrar vida. As formas em primeira pessoa, como “estou retirando”, “vejo” e “deparei”, mostram que não se trata de uma descrição impessoal, mas de uma elaboração reflexiva da vivência do retirante. A repetição de “morte” e a oposição entre expectativa de vida e realidade de morte sustentam exatamente a ideia de reflexão acerca de sua relação cotidiana com a morte.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de confundir o tema secundário da miséria do retirante ou da própria retirada com o foco principal da enunciação: a reflexão do eu poético sobre seu encontro constante com a morte.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando perguntar o que o trecho constitui por parte do eu poético, identifique primeiro a atitude enunciativa predominante do sujeito que fala.
  • Observe a repetição lexical que organiza o sentido do excerto; aqui, a recorrência de “morte” define o eixo temático principal.
  • Separe tema central de elementos de apoio: “vida severina” e a condição do retirante aparecem no texto, mas não substituem o núcleo reflexivo da passagem.

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