Questão c97be244-fe
Prova:UNIFESP 2012
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Denotação e Conotação, Homonímia, Paronímia, Sinonímia e Antonímia

No segundo parágrafo do texto, empregam-se as aspas no termo “condenado” para

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado

o semelhante

o diferente

o indiferente

o oposto

o adversário

o surdo-mudo

o possesso

o irracional

o vegetal

o mineral

o inominado

Diálogo consigo mesmo

com a noite

os astros

os mortos

as ideias

o sonho

o passado

o mais que futuro

Escolhe teu diálogo

e

tua melhor palavra

ou

teu melhor silêncio

Mesmo no silêncio e com o silêncio

dialogamos.

(Carlos Drummond de Andrade. Discurso de primavera e algumas sombras, 1977.)


Instrução: Leia o texto para responder às questões.

       O silêncio é a matéria significante por excelência, um
continuum significante. O real da comunicação é o silêncio.
E como o nosso objeto de reflexão é o discurso, chegamos a
uma outra afirmação que sucede a essa: o silêncio é o real do
discurso.
       O homem está “condenado” a significar. Com ou sem palavras,
diante do mundo, há uma injunção à “interpretação”:
tudo tem de fazer sentido (qualquer que ele seja). O homem
está irremediavelmente constituído pela sua relação com o
simbólico.
       Numa certa perspectiva, a dominante nos estudos dos signos,
se produz uma sobreposição entre linguagem (verbal e
não-verbal) e significação.
       Disso decorreu um recobrimento dessas duas noções, resultando
uma redução pela qual qualquer matéria significante
fala, isto é, é remetida à linguagem (sobretudo verbal) para
que lhe seja atribuído sentido.
       Nessa mesma direção, coloca-se o “império do verbal”
em nossas formas sociais: traduz-se o silêncio em palavras.
Vê-se assim o silêncio como linguagem e perde-se sua especificidade,
enquanto matéria significante distinta da linguagem.
(Eni Orlandi. As formas do silêncio, 1997.)

A
atribuir-lhe um segundo sentido, equivalente a culpado.
B
reforçar-lhe o sentido contextual, equivalente a predestinado.
C
marcá-lo com sentido conotativo, equivalente a reprovável.
D
enfatizar-lhe o sentido denotativo, equivalente a desgraçado.
E
destituí-lo do sentido literal, equivalente a buliçoso.

Gabarito comentado

E
Erico Barros Monitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o valor semântico-discursivo das aspas em “condenado”, que afasta o sentido literal de culpa ou punição e, pelo cotexto (“há uma injunção à “interpretação”: tudo tem de fazer sentido” e “irremediavelmente constituído”), indica uma condição inevitável de significar. Por isso, o gabarito é a alternativa que aproxima o termo de “predestinado”.

Tema central: Sentido contextual das aspas
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque atribui a “condenado” o valor de “culpado”, que o texto não sustenta. O parágrafo não fala em culpa, julgamento ou reprovação; fala em imposição constitutiva da significação, explicitada por “tudo tem de fazer sentido” e “irremediavelmente”.
B
Certa
A alternativa B está correta porque capta o efeito das aspas sobre “condenado” no segundo parágrafo: o termo é deslocado do sentido de condenação por culpa e passa a indicar uma condição incontornável do homem. Isso é confirmado por “há uma injunção à “interpretação”: tudo tem de fazer sentido” e por “irremediavelmente constituído”, expressões que reforçam necessidade e inevitabilidade. Assim, “predestinado” vale aqui por aproximação semântica contextual de destino inevitável, não de culpa moral.
C
Errada
Incorreta porque, embora as aspas marquem uso não literal estrito, o equivalente “reprovável” introduz julgamento moral que não aparece no texto. O homem não é qualificado negativamente; ele é apresentado como inevitavelmente ligado ao simbólico.
D
Errada
Incorreta por dois motivos objetivos: a alternativa fala em sentido denotativo, mas as aspas justamente sinalizam afastamento do sentido literal estrito; além disso, “desgraçado” não corresponde ao valor contextual de necessidade ou inevitabilidade presente no trecho.
E
Errada
Incorreta porque, embora haja destituição do sentido literal estrito, o equivalente “buliçoso” é semanticamente incompatível com o texto. Nada no parágrafo associa “condenado” a agitação; o campo de sentido construído é o de imposição de significar.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de ler “condenado” automaticamente como culpa, punição ou reprovação moral, quando o cotexto obriga a leitura de inevitabilidade; outra armadilha é aceitar alternativas só porque mencionam as aspas, sem verificar se o equivalente semântico proposto realmente cabe no trecho.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a palavra vier entre aspas, confira se o texto está afastando o sentido literal estrito e impondo um valor contextual específico.
  • Não escolha pela explicação geral sobre as aspas; confirme se o sinônimo oferecido é compatível com o cotexto imediato.
  • Em questões semânticas, use as expressões de apoio do próprio parágrafo para fechar o sentido da palavra-chave, como “injunção”, “tudo tem de fazer sentido” e “irremediavelmente”.

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