Questão c1e01d86-9a
Prova:PUC-GO 2015
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos

O beijo no asfalto (Texto 6) é uma tragédia contemporânea e, em sua linguagem, há recursos que determinam o reconhecimento dessa característica. A partir da leitura do excerto, pode-se afirmar que:

 I-Nos diálogos, há muitas interrupções, caracterizando a linguagem falada, recurso utilizado pelo autor para garantir mais dinamismo às cenas, bem como suspense às ações das personagens.

II-A linguagem próxima da oralidade foi trabalhada pelo autor para se contrapor à complexidade do enredo e ao forte apelo filosófico ilustrado pela obra, que pode ser considerada inacessível no meio literário.

III-O fato de não haver narrador não traz dificuldades à compreensão, porque o texto teatral se realiza na encenação.

Marque a resposta correta:


TEXTO 6

[…]

Amado (na sua euforia profissional) – Cunha,

escuta. Vi um caso agora. Ali, na praça da Bandeira. Um caso que. Cunha, ouve. Esse caso pode ser a tua salvação!

Cunha (num lamento) – Estou mais sujo do que pau de galinheiro!

Amado (incisivo e jocundo) – Porque você é uma besta, Cunha. Você é o delegado mais burro do Rio de Janeiro.

(Cunha ergue-se.)

Cunha (entre ameaçador e suplicante) – Não pense que. Você não se ofende, mas eu me ofendo.

Amado (jocundo) – Senta!

(Cunha obedece novamente.)

Cunha (com um esgar de choro) – Te dou um tiro!

Amado – Você não é de nada. Então, dá. Dá!

Quedê?

Cunha – Qual é o caso?

Amado – Olha. Agorinha, na praça da Bandeira. Um rapaz foi atropelado. Estava juntinho de mim. Nessa distância. O fato é que caiu. Vinha um lotação raspando. Rente ao meio-fio. Apanha o cara. Em cheio. Joga longe. Há aquele bafafá. Corre pra cá, pra lá. O sujeito estava lá, estendido, morrendo.

Cunha (que parece beber as palavras do repórter) – E daí?

Amado (valorizando o efeito culminante) – De repente, um outro cara aparece, ajoelha-se no asfalto, ajoelha-se. Apanha a cabeça do atropelado e dá-lhe um beijo na boca.

CUNHA (confuso e insatisfeito) – Que mais?

Amado (rindo) – Só.

Cunha (desorientado) – Quer dizer que. Um sujeito beija outro na boca e. Não houve mais nada. Só isso?

(Amado ergue-se. Anda de um lado para outro. Estaca, alarga o peito.)

Amado – Só isso!

Cunha – Não entendo.

Amado (abrindo os braços para o teto) – Sujeito burro! (para o delegado) Escuta, escuta! Você não quer se limpar? Hein? Não quer se limpar?

Cunha – Quero!

Amado – Pois esse caso.

Cunha – Mas ...

Amado – Não interrompe! Ou você não percebe?

Escuta […]

(RODRIGUES,  Nelson. O beijo no asfalto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. p. 12/13.)

A
I e II.
B
I, II e III.
C
I e III.
D
II e III.

Gabarito comentado

E
Estela Rocha Monitor do Qconcursos

Gabarito: Letra C (I e III)

Tema central: Interpretação de texto e análise das características do texto teatral, com foco em linguagem oral e estrutura dramática.

Justificativa para a alternativa correta:

A questão explora as marcas da linguagem teatral contemporânea. Em “O beijo no asfalto”, Nelson Rodrigues utiliza diálogos repletos de interrupções, hesitações e frases curtas, conferindo dinamismo e suspense às cenas — como apontado corretamente na afirmação I.

Já a afirmação III também procede: é próprio do gênero teatral a ausência de um narrador tradicional; a compreensão é suprida pela encenação e pelos diálogos das personagens. Conforme ensina Celso Cunha em suas análises estruturais, a peça se realiza na cena, diante do público, tornando o texto acessível pela representação.

Explicação das alternativas:

I – Correta. As interrupções constantes nos diálogos são traço típico da linguagem oral, trazendo fluidez e emoção, além de favorecer o suspense e o envolvimento do público – estratégia usada intencionalmente por Nelson Rodrigues.

II – Incorreta. A linguagem próxima ao oralismo não visa se opor à “complexidade do enredo” nem tornar a peça inacessível. O objetivo é aproximar o texto da realidade cotidiana e facilitar a identificação do espectador, e não elitizar ou complicar o entendimento. Não há, no texto apresentado, o suposto “forte apelo filosófico” que a tornasse inacessível – trata-se de aproximação da oralidade para maior impacto emocional e verossimilhança.

III – Correta. Em textos teatrais, a ação dramática se comunica pelo desempenho dos atores e pelo contexto visual, suprindo a ausência de narrador. Esse aspecto não dificulta, mas direciona a compreensão para a encenação, como orientam gramáticas e manuais literários de referência (cf. Cunha & Cintra).

Dica de prova: Fique alerta a expressões como “inacessível” ou “complexidade filosófica” em alternativas: costumam buscar generalizações equivocadas sobre o texto literário brasileiro. Sempre tente fundamentar sua escolha na função do recurso linguístico ou estilístico apresentado!

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