O beijo no asfalto (Texto 6) é uma tragédia contemporânea
e, em sua linguagem, há recursos que determinam
o reconhecimento dessa característica. A partir
da leitura do excerto, pode-se afirmar que:
I-Nos diálogos, há muitas interrupções, caracterizando
a linguagem falada, recurso utilizado pelo autor
para garantir mais dinamismo às cenas, bem como
suspense às ações das personagens.
II-A linguagem próxima da oralidade foi trabalhada
pelo autor para se contrapor à complexidade
do enredo e ao forte apelo filosófico ilustrado pela
obra, que pode ser considerada inacessível no meio
literário.
III-O fato de não haver narrador não traz dificuldades
à compreensão, porque o texto teatral se realiza na
encenação.
Marque a resposta correta:
I-Nos diálogos, há muitas interrupções, caracterizando a linguagem falada, recurso utilizado pelo autor para garantir mais dinamismo às cenas, bem como suspense às ações das personagens.
II-A linguagem próxima da oralidade foi trabalhada pelo autor para se contrapor à complexidade do enredo e ao forte apelo filosófico ilustrado pela obra, que pode ser considerada inacessível no meio literário.
III-O fato de não haver narrador não traz dificuldades à compreensão, porque o texto teatral se realiza na encenação.
Marque a resposta correta:
TEXTO 6
[…]
Amado (na sua euforia profissional) – Cunha,
escuta. Vi um caso agora. Ali, na praça da
Bandeira. Um caso que. Cunha, ouve. Esse caso
pode ser a tua salvação!
Cunha (num lamento) – Estou mais sujo do que pau
de galinheiro!
Amado (incisivo e jocundo) – Porque você é uma
besta, Cunha. Você é o delegado mais burro do
Rio de Janeiro.
(Cunha ergue-se.)
Cunha (entre ameaçador e suplicante) – Não pense
que. Você não se ofende, mas eu me ofendo.
Amado (jocundo) – Senta!
(Cunha obedece novamente.)
Cunha (com um esgar de choro) – Te dou um tiro!
Amado – Você não é de nada. Então, dá. Dá!
Quedê?
Cunha – Qual é o caso?
Amado – Olha. Agorinha, na praça da Bandeira.
Um rapaz foi atropelado. Estava juntinho
de mim. Nessa distância. O fato é que caiu.
Vinha um lotação raspando. Rente ao meio-fio.
Apanha o cara. Em cheio. Joga longe. Há aquele
bafafá. Corre pra cá, pra lá. O sujeito estava lá,
estendido, morrendo.
Cunha (que parece beber as palavras do repórter) –
E daí?
Amado (valorizando o efeito culminante) – De
repente, um outro cara aparece, ajoelha-se
no asfalto, ajoelha-se. Apanha a cabeça do
atropelado e dá-lhe um beijo na boca.
CUNHA (confuso e insatisfeito) – Que mais?
Amado (rindo) – Só.
Cunha (desorientado) – Quer dizer que. Um sujeito
beija outro na boca e. Não houve mais nada. Só
isso?
(Amado ergue-se. Anda de um lado para outro.
Estaca, alarga o peito.)
Amado – Só isso!
Cunha – Não entendo.
Amado (abrindo os braços para o teto) – Sujeito
burro! (para o delegado) Escuta, escuta! Você não
quer se limpar? Hein? Não quer se limpar?
Cunha – Quero!
Amado – Pois esse caso.
Cunha – Mas ...
Amado – Não interrompe! Ou você não percebe?
Escuta […]
(RODRIGUES, Nelson. O beijo no asfalto. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. p. 12/13.)
TEXTO 6
[…]
Amado (na sua euforia profissional) – Cunha,
escuta. Vi um caso agora. Ali, na praça da Bandeira. Um caso que. Cunha, ouve. Esse caso pode ser a tua salvação!
Cunha (num lamento) – Estou mais sujo do que pau de galinheiro!
Amado (incisivo e jocundo) – Porque você é uma besta, Cunha. Você é o delegado mais burro do Rio de Janeiro.
(Cunha ergue-se.)
Cunha (entre ameaçador e suplicante) – Não pense que. Você não se ofende, mas eu me ofendo.
Amado (jocundo) – Senta!
(Cunha obedece novamente.)
Cunha (com um esgar de choro) – Te dou um tiro!
Amado – Você não é de nada. Então, dá. Dá!
Quedê?
Cunha – Qual é o caso?
Amado – Olha. Agorinha, na praça da Bandeira. Um rapaz foi atropelado. Estava juntinho de mim. Nessa distância. O fato é que caiu. Vinha um lotação raspando. Rente ao meio-fio. Apanha o cara. Em cheio. Joga longe. Há aquele bafafá. Corre pra cá, pra lá. O sujeito estava lá, estendido, morrendo.
Cunha (que parece beber as palavras do repórter) – E daí?
Amado (valorizando o efeito culminante) – De repente, um outro cara aparece, ajoelha-se no asfalto, ajoelha-se. Apanha a cabeça do atropelado e dá-lhe um beijo na boca.
CUNHA (confuso e insatisfeito) – Que mais?
Amado (rindo) – Só.
Cunha (desorientado) – Quer dizer que. Um sujeito beija outro na boca e. Não houve mais nada. Só isso?
(Amado ergue-se. Anda de um lado para outro. Estaca, alarga o peito.)
Amado – Só isso!
Cunha – Não entendo.
Amado (abrindo os braços para o teto) – Sujeito burro! (para o delegado) Escuta, escuta! Você não quer se limpar? Hein? Não quer se limpar?
Cunha – Quero!
Amado – Pois esse caso.
Cunha – Mas ...
Amado – Não interrompe! Ou você não percebe?
Escuta […]
(RODRIGUES, Nelson. O beijo no asfalto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. p. 12/13.)
Gabarito comentado
Gabarito: Letra C (I e III)
Tema central: Interpretação de texto e análise das características do texto teatral, com foco em linguagem oral e estrutura dramática.
Justificativa para a alternativa correta:
A questão explora as marcas da linguagem teatral contemporânea. Em “O beijo no asfalto”, Nelson Rodrigues utiliza diálogos repletos de interrupções, hesitações e frases curtas, conferindo dinamismo e suspense às cenas — como apontado corretamente na afirmação I.
Já a afirmação III também procede: é próprio do gênero teatral a ausência de um narrador tradicional; a compreensão é suprida pela encenação e pelos diálogos das personagens. Conforme ensina Celso Cunha em suas análises estruturais, a peça se realiza na cena, diante do público, tornando o texto acessível pela representação.
Explicação das alternativas:
I – Correta. As interrupções constantes nos diálogos são traço típico da linguagem oral, trazendo fluidez e emoção, além de favorecer o suspense e o envolvimento do público – estratégia usada intencionalmente por Nelson Rodrigues.
II – Incorreta. A linguagem próxima ao oralismo não visa se opor à “complexidade do enredo” nem tornar a peça inacessível. O objetivo é aproximar o texto da realidade cotidiana e facilitar a identificação do espectador, e não elitizar ou complicar o entendimento. Não há, no texto apresentado, o suposto “forte apelo filosófico” que a tornasse inacessível – trata-se de aproximação da oralidade para maior impacto emocional e verossimilhança.
III – Correta. Em textos teatrais, a ação dramática se comunica pelo desempenho dos atores e pelo contexto visual, suprindo a ausência de narrador. Esse aspecto não dificulta, mas direciona a compreensão para a encenação, como orientam gramáticas e manuais literários de referência (cf. Cunha & Cintra).
Dica de prova: Fique alerta a expressões como “inacessível” ou “complexidade filosófica” em alternativas: costumam buscar generalizações equivocadas sobre o texto literário brasileiro. Sempre tente fundamentar sua escolha na função do recurso linguístico ou estilístico apresentado!
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