No Texto 6, de Nelson Rodrigues, ao dizer para o
delegado Cunha: “Escuta, escuta! Você não quer se limpar?
Hein? Não quer se limpar?”, o jornalista Amado
(marque a resposta correta):
TEXTO 6
[…]
Amado (na sua euforia profissional) – Cunha,
escuta. Vi um caso agora. Ali, na praça da
Bandeira. Um caso que. Cunha, ouve. Esse caso
pode ser a tua salvação!
Cunha (num lamento) – Estou mais sujo do que pau
de galinheiro!
Amado (incisivo e jocundo) – Porque você é uma
besta, Cunha. Você é o delegado mais burro do
Rio de Janeiro.
(Cunha ergue-se.)
Cunha (entre ameaçador e suplicante) – Não pense
que. Você não se ofende, mas eu me ofendo.
Amado (jocundo) – Senta!
(Cunha obedece novamente.)
Cunha (com um esgar de choro) – Te dou um tiro!
Amado – Você não é de nada. Então, dá. Dá!
Quedê?
Cunha – Qual é o caso?
Amado – Olha. Agorinha, na praça da Bandeira.
Um rapaz foi atropelado. Estava juntinho
de mim. Nessa distância. O fato é que caiu.
Vinha um lotação raspando. Rente ao meio-fio.
Apanha o cara. Em cheio. Joga longe. Há aquele
bafafá. Corre pra cá, pra lá. O sujeito estava lá,
estendido, morrendo.
Cunha (que parece beber as palavras do repórter) –
E daí?
Amado (valorizando o efeito culminante) – De
repente, um outro cara aparece, ajoelha-se
no asfalto, ajoelha-se. Apanha a cabeça do
atropelado e dá-lhe um beijo na boca.
CUNHA (confuso e insatisfeito) – Que mais?
Amado (rindo) – Só.
Cunha (desorientado) – Quer dizer que. Um sujeito
beija outro na boca e. Não houve mais nada. Só
isso?
(Amado ergue-se. Anda de um lado para outro.
Estaca, alarga o peito.)
Amado – Só isso!
Cunha – Não entendo.
Amado (abrindo os braços para o teto) – Sujeito
burro! (para o delegado) Escuta, escuta! Você não
quer se limpar? Hein? Não quer se limpar?
Cunha – Quero!
Amado – Pois esse caso.
Cunha – Mas ...
Amado – Não interrompe! Ou você não percebe?
Escuta […]
(RODRIGUES, Nelson. O beijo no asfalto. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. p. 12/13.)
TEXTO 6
[…]
Amado (na sua euforia profissional) – Cunha,
escuta. Vi um caso agora. Ali, na praça da Bandeira. Um caso que. Cunha, ouve. Esse caso pode ser a tua salvação!
Cunha (num lamento) – Estou mais sujo do que pau de galinheiro!
Amado (incisivo e jocundo) – Porque você é uma besta, Cunha. Você é o delegado mais burro do Rio de Janeiro.
(Cunha ergue-se.)
Cunha (entre ameaçador e suplicante) – Não pense que. Você não se ofende, mas eu me ofendo.
Amado (jocundo) – Senta!
(Cunha obedece novamente.)
Cunha (com um esgar de choro) – Te dou um tiro!
Amado – Você não é de nada. Então, dá. Dá!
Quedê?
Cunha – Qual é o caso?
Amado – Olha. Agorinha, na praça da Bandeira. Um rapaz foi atropelado. Estava juntinho de mim. Nessa distância. O fato é que caiu. Vinha um lotação raspando. Rente ao meio-fio. Apanha o cara. Em cheio. Joga longe. Há aquele bafafá. Corre pra cá, pra lá. O sujeito estava lá, estendido, morrendo.
Cunha (que parece beber as palavras do repórter) – E daí?
Amado (valorizando o efeito culminante) – De repente, um outro cara aparece, ajoelha-se no asfalto, ajoelha-se. Apanha a cabeça do atropelado e dá-lhe um beijo na boca.
CUNHA (confuso e insatisfeito) – Que mais?
Amado (rindo) – Só.
Cunha (desorientado) – Quer dizer que. Um sujeito beija outro na boca e. Não houve mais nada. Só isso?
(Amado ergue-se. Anda de um lado para outro. Estaca, alarga o peito.)
Amado – Só isso!
Cunha – Não entendo.
Amado (abrindo os braços para o teto) – Sujeito burro! (para o delegado) Escuta, escuta! Você não quer se limpar? Hein? Não quer se limpar?
Cunha – Quero!
Amado – Pois esse caso.
Cunha – Mas ...
Amado – Não interrompe! Ou você não percebe?
Escuta […]
(RODRIGUES, Nelson. O beijo no asfalto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. p. 12/13.)
Gabarito comentado
Tema central da questão: Interpretação de texto e análise de sentido figurado. O candidato precisa reconhecer o uso de expressões idiomáticas e o contexto em que são empregadas, buscando o subentendido do texto conforme as intenções das personagens.
Justificativa para a alternativa correta (C):
No trecho analisado da peça O Beijo no Asfalto, a expressão “se limpar” não se refere à higiene física, mas sim à reabilitação de imagem ou reputação do delegado Cunha, que se mostra desmoralizado profissionalmente. Segundo o contexto, Amado faz uma sugestão: aproveitar o caso do atropelamento para que Cunha recupere seu prestígio.
Em semântica, interpreta-se o termo “se limpar” como restabelecer o nome, resolver uma situação comprometida (Sacconi, Dicionário de Expressões Idiomáticas). Assim, a alternativa C – “sugere que ele aproveite o caso do atropelamento para restabelecer seu nome” – é a correta, pois se encaixa perfeitamente ao contexto do diálogo e à intenção de Amado.
Análise crítica das alternativas incorretas:
A) Interpretação literal do verbo “limpar”, sugerindo higiene física; o texto em nenhum momento faz alusão à sujeira corpórea, mas sim à moral ou reputação.
B) Indica prejuízo profissional com o caso do atropelamento, porém o objetivo é o oposto: Amado propõe o caso como uma oportunidade de redenção – não ameaça.
D) Traz à tona a incompetência de Cunha, o que está presente em críticas anteriores, mas não traduz o sentido da expressão “se limpar” neste momento do diálogo. A ênfase está em sugerir um caminho para reparar sua imagem, não em reafirmar sua “sujeira”.
Dicas e estratégias: Observe palavras e expressões com possível sentido figurado e relacione-as ao contexto. Pergunte-se: “O personagem quis dizer isso literalmente ou está sugerindo outra ideia?” Fique atento a termos de uso comum em situações de crítica, rumor ou boato que indiquem julgamento moral ou social.
Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), a correta interpretação do texto depende da relação entre o significado das palavras e a intenção do falante. Assim, sempre busque o sentido real/contextual daquilo que lê, ultrapassando a leitura superficial.
Resumo: Para gabaritar questões como esta, preste atenção ao sentido figurado, avalie o contexto e desconfie de alternativas que se apeguem somente ao significado literal ou se desviem da intenção central do texto.
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