Questão b4a88317-fe
Prova:FGV 2014
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos

A comparação escolhida por João Cabral de Melo Neto para caracterizar o ato de escrever

                Catar Feijão

1
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.


             João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra.

A
recupera para a literatura as concepções de poesia que orientavam a literatura de folhetos do Nordeste, ou “cordel”.
B
inverte certa concepção erudita da poesia, que a vê como atividade elevada, sublime, separada do cotidiano banal.
C
inscreve a poética do autor no Regionalismo literário, por vincular a representação literária a práticas locais bem determinadas.
D
reata com a tradição parnasiana, que concebia a arte poética como ofício de artesão ou artífice.
E
contrapõe-se ao elitismo do Modernismo paulista, que repudiava o primitivismo e as culturas rústicas.

Gabarito comentado

I
Isabela Duarte Monitor do Qconcursos

Tema central da questão: Interpretação de texto com foco em metalinguagem, metáfora e análise de concepções poéticas. A questão pede ao candidato identificar a atitude do poeta em relação à natureza da poesia comparada à ação cotidiana de catar feijão.

Justificativa da alternativa correta (B): O poema de João Cabral de Melo Neto faz uma metáfora — figura de linguagem em que se estabelece semelhança implícita — ao comparar o ato simples de catar feijão ao processo complexo de escrever. Com isso, ele aproxima a escrita da poesia ao cotidiano, negando aquela visão tradicional e erudita da poesia como algo sublime, etéreo ou distante da vida comum.

Pela norma-padrão (Bechara, "Moderna Gramática Portuguesa"): Metáfora é o emprego de termo com significado diferente do habitual, em razão de relação implícita entre duas ideias. Aqui, catar feijão = escrever versos, ambos exigindo seleção minuciosa. Essa escolha “inverte a concepção” erudita da poesia, apoiando a alternativa B.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) Refere-se ao cordel e à literatura popular nordestina. Entretanto, o poema não menciona cordel, estrutura, temas, nem oralidade típicos dessa tradição. A comparação aqui é universal, não regionalizada.
  • C) Aponta para Regionalismo. Embora o feijão seja elemento corriqueiro no Brasil, o foco do poema está na natureza da escrita, não em elaborar panorama regional.
  • D) Cita o parnasianismo, que privilegia arte e técnica formal, mas não compara o poeta a artista clássico nem destaca métrica ou ritmo refinados. O poema explora o trabalho árduo, entanto, afasta-se do preciosismo formal.
  • E) Fala em oposição ao elitismo modernista. Não há qualquer crítica explícita ao Modernismo paulista nem defesa de culturas rústicas; o poema centra-se no fazer poético cotidiano.

Estratégia de resolução: Ao interpretar questões de poesia, atente para figuras de linguagem e para o sentido global, evitando escolhas baseadas em associações superficiais com escolas literárias ou temas regionais. Palavra-chave: “banal” (“atividade elevada, sublime, separada do cotidiano banal”), indicando oposição ao erudito.

Em síntese, identificar a figura de linguagem (metáfora) + conceito de metalinguagem leva ao entendimento correto do trecho e do aspecto inovador da poética de João Cabral.

Referências: Evanildo Bechara, Celso Cunha & Lindley Cintra, Manual de Redação da Presidência da República.

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