Questão a7f37590-5f
Prova:UFAC 2008
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos

Observe o fragmento abaixo de um conto de Clarice Lispector:

“Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos. Ao mesmo tempo que imaginário – era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudos, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega – era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante. As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos, enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheio adocicado...
O jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.” (LISPECTOR, C. Amor. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. P. 25)

A personagem Ana, uma dona de casa comum, tem um momento privilegiado de revelação quando desce errado do ponto e acaba indo parar quase sem querer no Jardim Botânico. Neste momento, várias imagens vão configurando um universo de sensações inesperadas em contato com uma natureza que sempre esteve no mesmo lugar. Por que agora a percepção desse mundo se torna diferente?

A
porque a autora reforça a condição alienada da personagem.
B
porque a autora conduz a personagem a um conto-de-fadas onde apenas cabe a mentira de suas aspirações pessoais.
C
porque a personagem consegue perceber uma verdade que estava escondida dentro dela mesmo.
D
porque a personagem vive um momento psicótico que pode levá-la ao suicídio.
E
porque a autora permite que a personagem desloque para o Jardim Botânico as suas aspirações frustradas que apenas empobrecem aquele espaço.

Gabarito comentado

T
Tiago Ayres Monitor com apoio de IA

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é que o texto informa uma mudança na percepção de Ana, e não no jardim em si: “A moral do jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio [...] O jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.” Esses trechos sustentam a inferência de que a experiência do espaço desencadeia uma revelação interior, o que conduz ao gabarito C.

Tema central: revelação interior de Ana
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não reforça alienação. O movimento é inverso: Ana rompe a percepção rotineira e passa a ver uma dimensão nova e perturbadora do mundo. “A moral do jardim era outra” e a náusea diante da fome indicam ampliação dolorosa da consciência, não afastamento alienado da realidade.
B
Errada
Está errada porque o fragmento não configura conto de fadas nem universo de mentira compensatória. O campo semântico dominante é de ambiguidade e ameaça: “pequenos cérebros apodrecidos”, “O assassinato era profundo”, “decomposição” e “medo do Inferno”. A exuberância imagética não produz fantasia escapista; produz revelação inquietante.
C
Certa
A alternativa C está correta porque o fragmento mostra Ana percebendo, no jardim, uma verdade antes não acessada. O enunciado já informa que a natureza sempre esteve no mesmo lugar; assim, a diferença está no modo como ela passa a vê-la. O texto articula fascínio e repulsa, beleza e decomposição, vida e ameaça, culminando em “O jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno”, o que confirma uma experiência de desvelamento interior.
D
Errada
Está errada porque não há base textual para diagnosticar momento psicótico nem para sugerir suicídio. O texto apresenta uma experiência intensa de percepção e consciência existencial, mas não a patologiza. Estranhamento, náusea e medo, aqui, funcionam como sinais de epifania perturbadora, não como prova de surto.
E
Errada
Está errada porque o fragmento não afirma que Ana desloca aspirações frustradas para o jardim, e menos ainda que isso empobreça o espaço. O sentido textual é o oposto: o jardim aparece excessivo e transbordante, como em “o mundo era tão rico que apodrecia”. Além disso, o fragmento não explicita objetivamente quais seriam essas “aspirações frustradas”.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre estranhamento e alienação ou loucura. Mas os sinais do texto apontam para ampliação de consciência e revelação interior, não para fuga fantasiosa, surto psicótico ou simples projeção de frustrações.
Dica para questões semelhantes
  • Se o enunciado informa que o espaço não mudou, localize a mudança no modo de perceber da personagem.
  • Observe campos semânticos contraditórios; quando o texto junta fascínio e repulsa, beleza e ameaça, isso costuma indicar revelação complexa, não fantasia simples.
  • Elimine alternativas que transformam intensidade emocional em diagnóstico psicológico sem marca textual suficiente.
  • Desconfie de opções que acrescentam motivações não explicitadas no fragmento, como alienação, mentira compensatória ou aspirações frustradas.

Estatísticas

Aulas sobre o assunto

Questões para exercitar

Artigos relacionados

Dicas de estudo